• face
  • twitter
  • in

Desembarquei em South Bend, Indiana, em 1982, para uma temporada como senior visiting fellow do Helen Kellogg Institute for International Studies, da Universidade de Notre Dame. Atendia a convite de um amigo, já falecido, o politólogo argentino Guillermo O'Donnel. No início da carreira, recém-doutorado, era uma oportunidade de não se perder. Aceitei e não me arrependi. South Bend me surgiu na lembrança, ao ler trecho de uma entrevista de seu jovem prefeito, Pete Buttigieg, a Chuck Todd, da NBC, transcrita por Michael Tomasky, em artigo de opinião que escreveu para o The New York Times. Buttigieg foi catapultado para o cenário das celebridades nacionais ao anunciar que concorreria às primárias do Partido Democrata que escolherão o candidato a presidente para a eleição do ano que vem.

South Bend é uma pequena cidade do estado de Indiana, com pouco mais de 100 mil habitantes, no condado de Saint Joseph, assim denominado por deitar-se às margens do rio Saint Joseph. Ao me preparar para uma temporada de quase um ano na cidade, perguntei a um amigo que conhecia a universidade, como era a cidade. "Uma cidadezinha perdida no meio do milharal", definiu. "Mas tem a vantagem de ficar a três horas de Chicago", completou, como para me consolar.

Naquela época, a cidadezinha vivia a mais esplendorosa decadência. Os casarões dos outrora abastados haviam se transformado em repúblicas para estudantes. Encontrava-se mais espaços vazios nos prédios do que lojas e escritórios funcionando. Uma loja de material de desenho e pintura, a rivalizar em qualidade e estoque com as melhores que visitara em Nova York, parecia um oásis. Era um refúgio colorido em meio à decadência em preto e branco. Tão atraente que, por causa dela, vi-me motivado a aprender a desenhar sanguíneas e pastéis. A economia local nunca se recuperou da falência da Studebaker, célebre empresa automotiva, cujo auge se deu na primeira metade do século 20. Ela entrou em crise em meados dos anos 1950 e, após infrutíferas tentativas de recuperação, deixou de operar em 1979, 127 anos após sua criação em 1852 e 71 anos após o lançamento de seu primeiro modelo de automóvel, em 1908. A cidade vivia da universidade católica, Notre Dame, cuja riqueza é simbolizada pela cúpula de ouro de sua igreja.

Além de universidade da elite católica do corn belt, o milharal que abastece os Estados Unidos do produto central de sua dieta, Notre Dame é uma das três maiores potências do football universitário. Esse esporte que se joga com as mãos e, principalmente com os ombros, embora o nome sugira que se joga com os pés. É um disfarce nomear aquele confronto de corpanzis pelo solitário chute ao alto, em busca de um marco largo, elevado e sem goleiro, ainda assim algo difícil de acertar com uma bola oval. Faz com que pareça menos violento do que de fato é. Os neurologistas que atendem os universitários lesados que o digam.

O que me levou a escrever sobre Buttigieg não foi ele ter sido eleito em 2012 para reerguer South Bend, mais de 30 anos depois que a conheci já descaída. Nem foi o fato de ser gay e ter anunciado sua disposição de inscrever o nome nas primárias ao lado do marido. Também não me espantou ele ter se tornado uma celebridade instantânea, entrevistado obrigatório dos talk-shows na TV e nas páginas políticas dos jornais. O que me atraiu foram suas ideias sobre o capitalismo e a democracia.

Diante de suas afirmações progressistas em entrevista recente, Chuck Todd, da NBC, perguntou-lhe se era capitalista. Ele respondeu que claro que era, pois os Estados Unidos são um país capitalista. Mas, ponderou, que tem que ser um capitalismo democrático. Seu raciocínio é impecável para um social-democrata e anátema para os adeptos do livre-mercado. O capitalismo, sem os freios e contrapesos, os limites e incentivos da democracia, argumenta, deixa de ser um modelo econômico que promove a prosperidade do país como um todo e assegura a mobilidade social. A regulação democrática do capitalismo é o meio de garantir que ele se mantenha como uma economia geradora de oportunidades para todos.

O escritor Michael Tomasky usa essa afirmação, em artigo no The New York Times, para concluir que os Estados Unidos se transformaram em uma oligarquia. A oligarquização, diz ele, se expressa no domínio político dos endinheirados. A oligarquia como modelo político tem um componente econômico. A democracia também teria um componente econômico. Ela seria incompatível com o aumento exponencial da desigualdade no capitalismo contemporâneo, particularmente nos EUA.

O capitalismo democraticamente regulado manteria a desigualdade sob relativo controle. Não haveria, nessa versão do capitalismo democrático, uma dimensão igualitária, nem uma aspiração coletivista. Ele continuaria individualista e concorrencial. Mas os extremos de riqueza e pobreza seriam falhas de mercado a serem corrigidas pela regulação. O primeiro extremo, pela via da tributação progressiva, principalmente sobre a herança. A mais condenável riqueza, nada republicana, seria a hereditária. A segunda, pela via de transferências de renda. Desta forma, realizar-se-ia o capitalismo de classe média. Reduzindo-se os excessos de riqueza até o topo da classe média, e elevando-se a base pobre até a mediana remediada, chega-se ao capitalismo democrático, majoritariamente de classe média.

O que é ser classe média? Sociologicamente, é pertencer a uma classe de assalariados, sem riqueza herdada, educados, que ascendem socialmente pelo trabalho e poupam para educar os filhos, para que possam ter essa mesma mobilidade, baseada mais no status, na reputação social, do que na riqueza. Nesse capitalismo, a sociedade de classe média vota pela manutenção do capitalismo democrático, situando-se esmagadoramente entre a centro-esquerda e a centro-direita. Estatisticamente, seu voto formaria uma curva normal.

Não é um mal prospecto para uma sociedade que nunca foi de esquerda e, muito provavelmente, jamais o será. Está de acordo com o sonho dos fundadores de sua República e com o individualismo e propensão ao consumo de sua cultura. Um consumo reiterado, para que os bens consumidos reflitam o status alcançado pelos indivíduos. Estes, ostentam as marcas e os gadgets como medalhas de mérito.

Esse modelo, diante das mudanças estruturais avassaladoras que vivemos e viveremos pelas próximas décadas, tornou-se utópico. Especialmente nessa fase de desmoronamento do velho mundo capitalista manufatureiro, a riqueza se tornou financeira. A acumulação de enorme riqueza financeira é muito mais rápida e intensa do que era a acumulação de riqueza patrimonial do passado. Ela é, portanto, capaz de aumentar brutalmente as desigualdades.

Por ser infinitamente mais ágil, é também mais efêmera. Fortunas impensáveis viram pó em algumas horas. É um motor de desigualdades e colapsos econômico-financeiros, instalando um movimento cíclico de afluência e austeridade, que acompanha o crescimento e o estouro das bolhas financeiras. Na afluência, gera felicidade concentrada em poucas mãos e, na austeridade, sacrifício e dor para a maioria. Esse ciclo destrói negócios tradicionais, aventuras tecnológicas e milhões de empregos. Retorna porções da classe média para a planície da baixa renda. Pode ser fatal para a democracia.

O sonho do prefeito de South Bend talvez não tenha chance de se realizar, antes que essas mudanças tectônicas transformem o próprio capitalismo em outra modalidade de organização econômica.

Publicado originalmente no Blog do Matheus Leitão/G1

Pin It

Mais recentes

24 Out 2017
28 Nov 2016
04 Mar 2016

Mais Artigos

Back to Top