• face
  • twitter
  • in

A pesquisa de popularidade presidencial revela que Bolsonaro já dissipou parte relevante de seu capital eleitoral. Na maior parte essa erda de patrimônio e credibilidade se deu porque o presidente se apega a miudezas e não ao que realmente interessa à população. A queda de 15 pontos na popularidade presidencial, medida pelo Ibope, indica importante mudança de ciclo. Bolsonaro atingiu o pior índice entre todos os presidentes eleitos desde a redemocratização. Em janeiro, o percentual de aprovação era de 49%. Em fevereiro, a popularidade já havia caído 10 pontos, para 39%, mostrando decepção acelerada com o desempenho presidencial. Após três meses, a aprovação de 34% acentua essa tendência de queda. Neste ponto, Bolsonaro já saiu do ciclo positivo, de atração, do presidencialismo de coalizão e ingressa no ciclo de ambivalência, no qual as forças políticas não aderem ao governo por atração centrípeta. O apoio no Legislativo passa a depender de estímulos mais fortes, com base nos recursos controlados pelo presidente da República.

Pelo Ibope, Bolsonaro já estaria nitidamente numa posição de ambivalência das forças políticas, diante da divisão da opinião pública em três partes: 34% com avaliação positiva; 34% ambivalentes (regular); 24% com avaliação negativa. Mas, o movimento, em relação ao início do governo, é negativo: a avaliação negativa caiu 15 pontos; o regular, subiu 8 pontos, portanto não acolheu toda a queda da aprovação; o negativo subiu 13 pontos, recebendo não apenas parte da aprovação, transformada diretamente em reprovação, como dos que não se sentiam aptos a avaliar o governo em janeiro, percentual que caiu 6 pontos, de 14% para 8%, de janeiro a março. Dos 21 pontos de variação para baixo nas avaliações (15 pontos a menos para a aprovação e 6 a menos para os indefinidos), 62% migraram direto para a reprovação. Pela pesquisa Datafolha, esse quadro de ambivalência é ainda mais claro. A população estaria dividida praticamente em três partes iguais: 30% dos entrevistados reprovam o Governo; 32% aprovam; e 33% o consideram regular. Se não houver mudança de atitudes e desempenho do presidente, a trajetória esperada é de queda do regular e aumento da reprovação. Se isto acontecer ao longo dos próximos meses, o presidente entrará no ciclo de fuga (centrífugo), ainda em 2019. Este ciclo se caracteriza pelo afastamento das forças políticas em relação ao presidente, de difícil reversão, deixando-o sem apoio no Congresso. A tendência é a paralisia decisória e crises políticas recorrentes.

AvaliaBolsonaro

Ibope e Datafolha revelam que a situação de Bolsonaro é a pior de todos os presidentes em primeiro mandato no período de 1990-2019, como mostra o gráfico, com os números do Datafolha. Pelo lado da aprovação, é a menor, ao final do primeiro trimestre. O presidente que ficou mais próximo da aprovação de Bolsonaro (32%) foi Fernando Collor (36%). FHC, Lula e Dilma terminaram o primeiro trimestre com taxas de aprovação bem melhores. Pelo lado da reprovação, a de Bolsonaro (24%) também é a maior, cinco pontos a mais que a de Collor.

As expectativas para a economia não ajudam. Os brasileiros, sempre sensíveis à inflação (que parou de cair), por seu impacto na renda real disponível, se tornaram também muito sensíveis ao desemprego, pela mesma razão. O desemprego muito alto e persistente gerou nos brasileiros a percepção de que ele é muito maior do que na realidade. Pesquisa Ipsos sobre percepções, realizada no ano passado, mostrou que o Brasil tem a percepção de desemprego mais superestimada, entre 37 países, ficando abaixo apenas do México. Para os brasileiros, na média, o desemprego no país estaria em 60%, quando estava em 13%, o quinto maior índice de desemprego da amostra de países. Embora a diferença entre percepção e realidade seja ligeiramente inferior à do México, a taxa média de desemprego percebida pelos brasileiros é a maior entre os 37 países pesquisados. É praticamente o dobro da média da amostra.

A pesquisa do Datafolha verificou piora nas percepções econômicas, ainda em um quadro de relativo otimismo. O percentual de pessoas dizendo que a economia vai melhorar caiu 15 pontos, para 50%, limítrofe à àrea de pessimismo. Os que esperam piora da situação dobraram, passando a 18%. Além disso, 45% acham que a inflação vai aumentar e 22% que vai diminuir. Com relação ao poder de compra os percentuais se dividem quase como a avaliação presidencial: 34% acham que aumentará; 33%, que diminuirá; e 30% que ficará como está.

A atitude das lideranças políticas nos últimos dias reflete o quadro de ambivalência em relação ao presidente, neste ciclo político em que se encontra o governo. Os principais partidos da centro-direita procurados pelo presidente não aceitaram formar uma coalizão, que também não lhes foi proposta, nem declararam alinhamento claro com o presidente. Todavia, também não se puseram no campo da oposição. Estão, como os brasileiros estacionados na avaliação regular do presidente, esperando para ver como o comportamento presidencial evolui. A coalizão é um imperativo de nosso modelo político, não existe um modo conhecido de governar, em um sistema multipartidário fragmentado como o nosso, sem uma aliança formal com os partidos majoritários. Com a popularidade em queda e se recusando a buscar um caminho de acordo interpartidário em torno de uma agenda política clara, o presidente contribui para elevar as chances de que seu governo escorregue para o ciclo de fuga, perdendo apoio popular e político.

Pin It

Mais recentes

20 Ago 2019
24 Out 2017
28 Nov 2016
04 Mar 2016

Mais Artigos

Back to Top