• face
  • twitter
  • in

O novelo no qual se enrolou a premiê britânica Theresa May na sua tentativa de tornar possível um impossível acordo sobre a Brexit, lembrou-me o título da peça de Antonio Carlos Fontoura e Ferreira Gullar, encenada em 1967, pelo Grupo Opinião. May procura uma saída que não existe. Não há fórmula possível para deixar a União Europeia que preserve a acordo de 1997 que terminou o sangrento conflito irlandês, ou que mantenha a City de Londres no topo do mercado financeiro europeu e global. Também não parece haver saída política para o impasse no parlamento. May conseguiu evitar um voto de desconfiança. Mas, não foi uma vitória. Foi uma decisão para salvar sua face e evitar uma crise de transição que racharia os Conservadores. Ela ficou primeira-ministra, mas prometeu renunciar antes do término de seu mandato em 2022. Sairá com o desfecho da Brexit qualquer seja ele, ou seja, no final de março do próximo ano.

O Conselho Europeu deliberou recentemente que o Reino Unido pode desistir unilateralmente da Brexit. Com a admissão da não-saída, procurou evitar uma ruptura que poderia mergulhar a todos em uma crise aguda, se o Reino Unido deixasse de ser membro da UE abruptamente e sem negociação findo o prazo para a concertação da Brexit, em 29 de março de 2019. Não é saída, mas uma via de escape do impasse. A própria desistência, todavia, não se faz, internamente, sem problemas. Para legitimá-la, May teria que convocar um novo plebiscito. A premiê tem reservas sobre um novo plebiscito. A maioria dos políticos Conservadores e parte dos Trabalhistas também tem. Traumatizados pela surpreendente vitória dos “brexiters” — os partidários da Brexit — temem nova surpresa. Os eleitores estão se tornando imprevisíveis. Após tantas décadas de continuísmos e gradualismos, que minaram a representatividade da democracia liberal, os políticos vivem assombrados pela imprevisibilidade do voto. May teria que apresentar ao Parlamento a desobediência ao plebiscito dada a inviabilidade da implementação do desejo expresso nas urnas. Uma humilhação.

O que há de tão complicado com relação à Brexit e por que é provável que May fracasse no intento de negociar uma saída de leve, quase à francesa? Primeiro, a quase certeza de que a saída provocaria sérios danos à economia britânica. Uma nova crise econômica causaria um realinhamento partidário-eleitoral com consequências imprevisíveis. O Banco da Inglaterra, em estudo recente encomendado pela Câmara dos Comuns, diz que a economia inglesa perderia competitividade, a inflação aumentaria, a libra se desvalorizaria e haveria retração do PIB. A intensidade da recessão dependeria do modo e velocidade com que se daria o processo de saída. No pior cenário, o PIB, em 2023, poderia estar 10% abaixo de ponto em que estaria se a Brexit não tivesse sido aprovada em 2016. O desemprego poderia saltar de 4% para 7,5%, e a inflação, de 2% para 6,5%. Em outras palavras, o Reino Unido já está perdendo vigor econômico com o impasse da Brexit e perderia muito mais com a sua efetivação. Além disso, embora o Reino Unido não tenha aderido ao euro, a City tem um waiver para fazer transações diretamente na moeda europeia, que perderia sentido ao deixar de ser membro da UE. Muitos investidores já começaram a tratar da migração de suas bases para Frankfurt, caso a Brexit ocorra de fato. Hoje, há mais interesses contra a Brexit do que a favor.

A questão irlandesa, porém, é a mais delicada e explosiva de todas. O governo de Theresa May está hipotecado aos votos do irlandês DUP, o Democratic Unionist Party, que lhe assegura a maioria. O partido abandonaria a coalizão de May à menor suspeita de que as fronteiras irlandesas seriam fechadas. Desde o acordo de 1997, a fronteira terrestre entre Inglaterra e Irlanda é aberta. Os irlandeses precisam vitalmente de seu acesso ao Mercado Comum Europeu. Como conciliar a saída da UE e a fronteira aberta com a Irlanda? A União Europeia assenta-se no princípio da mobilidade de capitais, mercadorias e pessoas. O Reino Unido quer restringir a mobilidade de pessoas e mercadorias e serviços, esta última seletivamente. Para tanto teria que fechar parcialmente a fronteira com a Irlanda. No caso em que só restringisse a migração, teria que ter postos de controle de passaporte. Se abandonasse a união aduaneira, a estes teria que adicionar postos de controle alfandegário. Isto poria em risco o acordo de 1997, com graves consequências, podendo mesmo reabrir velhas feridas e reacender o conflito.

Examinando-se logicamente o quebra-cabeças no qual a peça da Brexit deveria se encaixar, vê-se claramente que não há como fazê-lo naturalmente. Só forçando a mão. A recessão, o fim das garantias de paz com a Irlanda, a anemia financeira da City de Londres, desenham um cenário de grande instabilidade política e possíveis abalos institucionais. Não havendo saída boa, cresce a probabilidade de reversão da decisão de deixar a UE. O que, de qualquer forma, desmoralizaria Theresa May cuja função sempre foi dar viabilidade à Brexit, embora tenha feito campanha e votado contra ela no plebiscito. No limite, a única saída que parece provável é da própria Theresa May, de 10 Downing Street, a sede do governo Britânico e residência temporária de premiês.

 

Publicado originalmente no Blog do Matheus Leitão, G1: https://g1.globo.com/politica/blog/matheus-leitao/post/2018/12/16/a-saida-onde-fica-a-saida.ghtml

nike
Pin It

Mais recentes

07 Nov 2020
24 Fev 2020
29 Out 2019
20 Ago 2019
24 Out 2017
28 Nov 2016
04 Mar 2016

Mais Artigos

Back to Top