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Assim que Angela Merkel anunciou que deixaria a política ao final de seu mandato, em 2021, começaram as conversas para sua sucessão. As apostas passaram a ser sobre quanto tempo ela duraria como Chanceler após o anúncio. Renúncia anunciada é frequentemente saída antecipada. A simples promessa de abandono dá início a um processo de enfraquecimento político que não raro termina em encurtamento de mandatos. Mas, Angela Merkel não é uma política comum. É a personalidade política mais admirada e influente das últimas décadas. Mulher poderosa em uma geopolítica masculina e dominada por machistas obsoletos, como Trump e Putin, é vista como um caso de sucesso no governo de uma grande potência. A Alemanha continuou democrática, afluente e influente durante seus 18 anos como Chanceler. Merkel, porém, vinha sofrendo sucessivas derrotas políticas nas eleições regionais, com seu partido, a União Democrata Cristã — CDU — vendo seu espaço na centro-direta ser reduzido com o crescimento do ultranacionalista AfD. O primeiro ato de sua sucessão ocorreu esta semana, quando o CDU votou para renovar sua Secretária-Geral. Merkel, provavelmente, venceu sua última batalha e conseguiu algum alento para seu derradeiro mandato. Enfrentaram-se no segundo turno, seu arquirrival, Friedrich Merz, ligado à ala direita do partido, e Annegret Kramp-Karrenbauer, considerada sua principal e mais fiel aliada na CDU. Annegret, apoiada pela Chanceler, ganhou por 32 votos.

Mas, é possível que sua eleição represente, também, a progressiva separação entre as duas. Em geral, quem ocupa a Secretária-Geral da CDU termina chanceler. Apenas dois dos antecessores de Annegret Kramp-Karrenbauer não chegaram ao posto. Ela se tornou, portanto, a herdeira provável de Merkel, se conseguir enfrentar a AfD com sucesso nas eleições. A nova secretária-geral da CDU foi primeira-ministra do pequeno estado de Sarre por sete anos e protagonista da única expressiva vitória eleitoral do partido, vencendo os social-democratas e a extrema-direita. Ela teve o apoio decisivo de Merkel na disputa interna, mas já deixou claro que considera o período de brilho da Chanceler, como “o fim de uma era”, com a qual associa “muitas relações e experiências pessoais”. Uma era que “já acabou e não pode ser revertida, nem continuada". Para ela, a “questão decisiva é o que fazer com o que se herdou que é novo e melhor”.

Annegret Kramp-Karrenbauer assume a liderança do que chamou de “último unicórnio”, um partido de massas centrista em uma Europa cada vez mais polarizada e fragmentada. Para sobreviver o partido terá que se comunicar melhor com o povo e “ter a coragem de enfrentar o Zeitgeist”, referindo-se ao clima de desesperança e polarização. Ela tem razão. Partidos como a CDU são espécies em extinção e o espírito do tempo, o Zeitgeist desse momento da transição global é alimentado por sentimentos primais como o medo da mudança e a raiva dos “outros”. A desesperança e a indignação andam juntas e têm vitaminado as piores escolhas políticas. Ela tem consciência disso e quer encarar o desafio de vencer esses ímpetos extremistas, convencendo a maioria de que o centro ainda pode dar conta do recado.

Não será fácil. A Alemanha em que Merkel iniciou seu governo era ainda marcada pelo que o sociólogo alemão Ulrich Becker chamou de “efeito elevador”. Apesar da desigualdade persistir, todos os escalões sociais ascendiam proporcionalmente. A satisfação atingia todos estratos, ainda que em intensidade desigual. A Alemanha que Merkel entregará a Kramp-Karrenbauer, se conseguirem o feito de manter o unicórnio no poder, tornou-se o que Ulrich Becker chama de uma “sociedade de indivíduos por conta própria”. A rede de proteção social alemã, que já foi exemplar, encurtou. O individualismo possessivo, voltado para o consumo, tornou-se dominante. O país continua afluente, mas sua máquina perdeu torque. A base social se inquieta. Os modelos de negócio, antes bem sucedidos, estão em crise. As manifestações locais da grande transformação global deixam os alemães inseguros, aumentaram a aversão aos imigrantes e o voto extremista ao AfD. Merkel perdeu boa parte de seu prestígio popular, quando abriu a fronteira com a Áustria, em 2015, para a entrada de refugiados húngaros, gerando a “grande crise da imigração”.

Kramp-Karrenbauer é mais conservadora que Merkel no tema da imigração e os que a elegeram secretária-geral apostam nessa postura de menor tolerância para tornar a CDU mais competitiva contra a AfD. Pode ser pouco. Os dois grandes partidos alemães, a CDU e o SDP, social democrata, estão em crise e perdem eleitores a cada rodada eleitoral. O centro vai sendo destruído pela polarização cada vez mais emocionalizada e menos conversada. A vitória dos extremos ameaça a estabilidade democrática, mas não cria alternativas duráveis. Eles são eleitos, como Trump foi, com base em expectativas fragmentadas e muito diferenciadas, exatamente porque são campanhas despolitizadas, que apelam para as emoções, não para os interesses articulados de uma forma mais orgânica. Tendem a frustrar tão rapidamente, quando abruptas são suas vitórias. Mas entre a vitória e a frustração, levam ao desaparecimento os últimos unicórnios.

Publicado anteriormente no Blog do Matheus Leitão, G1: https://g1.globo.com/politica/blog/matheus-leitao/post/2018/12/09/a-herdeira-do-ultimo-unicornio.ghtml

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