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O presidencialismo de coalizão passará por um teste inédito na Terceira República (1988 em diante). Pela primeira vez em 24 anos e seis eleições, o PSDB ficou fora da Presidência ou da disputa pelo segundo turno. O eixo político-partidário que organizou o sistema político por meio da clivagem PT-PSDB se desfez. Muda a correlação de forças de forma significativa.

O PSDB definha como força política. O atropelamento de Antonio Anastasia por Romeu Zema, em Minas Gerais, deixa o partido apenas com alguma chance em São Paulo, com um candidato que não é do núcleo duro do partido nem no plano estadual, nem no plano nacional e permitiu que sua campanha fosse usada para uma dobradinha com Bolsonaro.

O PT sofre uma derrota icônica, com Fernando Pimentel e Dilma Rousseff, em Minas Gerais, e fica confinado ao Nordeste. Perde mais espaço em SP e registra perdas significativas na sua bancada no Rio de Janeiro. Também uma tendência que se confirma.

Esses resultados apontam para uma mudança na composição de forças no Congresso. Reforça a hipótese de haverá vários partidos médios, com bancadas entre 35 e 50 deputados e nenhuma megabancada, na casa dos 90-100 deputados. O presidente não fará maioria com seu partido e precisará de uma coalizão para governar. Nesse novo quadro partidário, ele precisará de uma coalizão mais numerosa e heterogênea, mas a oposição será também menor. Haverá dificuldades de coordenação da coalizão governista, qualquer seja ela. Mas a barreira oposicionista pode ser mais baixa. Confirmada esta hipótese, os problemas do novo presidente serão mais centrados nas relações com seus aliados, do que nos embates com a oposição. No caso de Bolsonaro, ele pode tentar cooptar apoiadores para seu próprio partido e, eventualmente, para o PSC e até imaginar uma fusão entre os dois, em busca de uma maioria com seu próprio partido e prescindir da coalizão multipartidária. Uma interpretação radical da sua ideia de fazer aliança com pessoas e não partidos. Mas, seria apenas uma forma de internalizar a coalizão, formando um partido muito grande e muito heterogêneo, com forças pouco afins entre si na sua existência política fora do manto presidencial.

Mas, o resultado representa, de qualquer forma, uma ruptura com o padrão que dominou a política da Terceira República nas últimas duas décadas e meia. Ele foi responsável pela estabilidade democrática, apesar das máculas da corrupção. A estabilidade democrática mostrou-se resiliente a crises econômicas, a mudança de polo no controle da Presidência, do PSDB para o PT, e ao impeachment de Dilma Rousseff. Agora, entrará em águas desconhecidas e enfrentará um teste inédito.

Acresce-se a este quadro político-partidário, para agravá-lo, a aguda polarização da sociedade, com seus reflexos políticos. Uma polarização que opõe não mais partidos estruturados, mas visões polares e altamente emocionais. Essa combinação entre uma composição mais fracionada do Congresso, sem partidos dominantes, e a polarização social, é inédita. É uma situação sem precedentes e de alto risco político.

O desenho institucional dessa nova versão do presidencialismo de coalizão foi imaginado e refinado ao longo do tempo para evitar rupturas do tecido democrático. A ruptura que se configura é político-partidária, não institucional. Ela pode forçar ao limite essa malha institucional concebida para ser resiliente a reversões autoritárias. A eventual vitória de Bolsonaro não é a vitória do autoritarismo, como regime, mas é a vitória de uma mentalidade autoritária, assentada em maioria muito conservadora. Teremos tensão política em associação com a crise econômico-social que não cede. Uma situação bastante delicada.

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