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O presidente Temer vem mandando insistentes recados a seus aliados de que pensa em se candidatar à reeleição. Temer acha que tem um legado a defender. Imagina ter algo positivo a preservar, porque os muitos lados negativos de seu governo, ele tentará apagar da memória coletiva, que presume curta. O que terá de positivo a mostrar será a derrubada da inflação e a recuperação da economia, prevista para ocorrer até as eleições. Não é muito. O descontrole inflacionário e a recessão deixadas por Dilma Rousseff não exigiriam mais que um pouco de bom senso e persistência. Já a reestruturação fiscal para recuperar as ruínas das finanças públicas, em um país marcado por desigualdades e déficits sociais, requer criativa arquitetura redistributiva, da qual o grupo de Temer não tem os rudimentos. Enfrentar o colapso do aparato regulatório do estado, indispensável para disciplinar os espíritos animais do mercado, pressupõe uma estrutura estatal imune às demandas clientelistas. Um agente histórico do clientelismo dificilmente se proporia a imunizar uma parcela poderosa e influente do estado ao ataque viral de seus parceiros. Haverá muitas candidaturas conservadoras no primeiro turno, ao que parece. Umas mais em sintonia com a direita contemporânea, outras muito ultrapassadas. A candidatura Temer estará entre estas últimas.

Mas, independentemente dos pendores ideológicos do candidato, terá ele algum potencial eleitoral,algum legado de competitividade? A candidatura ancora-se em alguma base concreta de possibilidade ou apenas na abstrata esperança de que pouca inflação e algum crescimento bastariam para superar a imensa impopularidade? Todos os argumentos que tenho ouvido ou lido amparam-se nessa esperança vaporosa do milagre da economia nas urnas. É verdade que Fernando Henrique foi eleito pelo Plano Real. Mas era um plano de muitos megatons de satisfação, pois oferecia estabilidade relativa após devastadora hiperinflação.

Não trarei a cálculo, para verificar as chances líquidas do candidato, sua impopularidade, na casa dos 70%. Quase uma unanimidade, se descontados os sem-opinião, que se aboletam na categoria de avaliação "regular". Também não porei na equação a legitimidade de um mandato resguardado pelo salvo-conduto de uma colusão clientelista no Congresso, mais interessada em preservar mandatos e estancar as investigações de corrupção, do que em promover a justiça. Eleitoralmente, o que Temer tem de mais forte é o viés quase absoluto em favor do governante, embutido na cláusula da reeleição. Um presidente montado na máquina governamental, sem afastar-se dela, em campanha, parece, a maior parte do tempo, imbatível. A taxa de reeleição de governadores, no Brasil, beira os 70%. Mas, trata-se de colégios eleitorais muito distintos do presidencial. Nos trinta anos da Terceira República (1988-?), todos os presidentes que puderam disputar a reeleição tiveram êxito. Nos Estados Unidos, desde 1970 apenas dois presidentes não foram reeleitos, Jimmy Carter e George Bush, o pai. Esta a razão que me fez ser, desde o início, contra a reeleição. Avesso a todo tipo de continuísmo, em uma terra em transe, acho que nos fez mal, em 30 anos, termos tido apenas quatro presidentes eleitos. Sendo que o primeiro deles nem deveria ser contado, porque não teria o direito à reeleição, ainda que tivesse terminado o mandato. Não creio que a eficácia dos freios e contrapesos da democracia presidencialista seja suficiente para conter a oligarquização da política inscrita nesse viés continuísta.

Eleitoralmente, Temer é fraco. Na última eleição que disputou como candidato efetivo, para a Câmara dos Deputados, em São Paulo, teve menos de 100 mil votos. Foi o 54o mais votado entre os eleitos, numa eleição em que a média de votos dos 10 mais votados foi de 372 mil votos. Com esse fraco desempenho, é pouco provável que tenha mais votos em São Paulo do que Geraldo Alckmin (PSDB-SP). É, também, pouco provável, que seja o candidato mais votado no Nordeste. Não podendo garantir o favoritismo em São Paulo, 23% do eleitorado, ou no Nordeste, 27%, como faria para tirar essa diferença no Rio de Janeiro e em Minas Gerais? A máquina clientelista com a propaganda eleitoral compulsória quase toda para ela terá que usar a maior parte de seu poder para vencer a rejeição. Talvez não tenha fôlego para conquistar alguma simpatia. A precisão induz a criatividade, haverá muitos candidatos que buscarão chegar ao eleitor de outras maneiras e alguns deles contarão com simpatia inicial por não fazerem parte da turma que se deleita no topo do poder.

No caso de Temer, ele terá um inimigo poderoso a enfrentar nas eleições: ele mesmo, no subsolo do Jaburu falando a frase que derrubou seu governo definitivamente na opinião pública. Frase dita a um criminoso confesso, recebido na calada da noite, sem registro e justificativa crível. "Tem que manter isso aí... viu?" Um comando que adere sem resistência à pele de um candidato que se propõe a manter-se no poder.

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