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Xi Jinping já era o homem mais poderoso da história chinesa desde Deng Xiaoping, o sucessor de Mao, quando ocupou o palco do 19o Congresso do Partido Comunista, para seu pronunciamento de 32.000 caracteres, falando por três horas e meia. Mas, ao deixar o palco, ficou claro que é mais que isto. O atual presidente chinês já pertence a uma classe à parte de líderes, na qual só estavam, até agora, Mao e Deng. O longo discurso consolidou a necessária teoria Xi. Não é possível liderar o povo chinês sem uma teoria geral, uma ideologia própria, que marque a identidade do líder. Meu resumo pessoal da teoria Xi diria o seguinte. O Partido retoma o papel central na vida política, econômica e social do país. Ele deve controlar todos as atividades da sociedade chinesa. A China mudou e pode aspirar mais, um papel decisivo no cenário geopolítico global. A corrupção é o "veneno no osso" que deve ser extirpado. A luta contra a corrupção será muito mais vigorosa e vai comandar uma ampla renovação nas lideranças, em todas os níveis da hierarquia chinesa. As fontes de insatisfação do povo mudaram. Agora, a principal contradição da sociedade chinesa é entre o desenvolvimento desequilibrado e inadequado e as necessidades sempre crescentes do povo por uma vida melhor. A fonte do conflito social determinante passou a ser a desigualdade crescente de riqueza e a generalizada consciência de que há diferenças brutais nos padrões de qualidade de vida no país. A China deve ter o controle completo sobre Hong Kong e Macao e considera inadmissível uma Taiwan soberana. Embora fale em aspirações pelo império da lei e democracia, Xi claramente anunciou a censura mais firme da ciberesfera e maior repressão à dissidência na socioesfera.

É na definição da "contradição principal" da sociedade chinesa que se encontra o núcleo da teoria Xi. É o elemento que a pode qualificar como a versão hegemônica do neomaoismo nas próximas décadas. Mao definira a "contradição central" como o conflito de classes. Deng Xiaoping a redefiniu de forma significativa, enunciando a contradição entre as necessidades materiais e culturais crescentes do povo e o atraso da produtividade social. Em outras palavras, a luta de classes fora superada, mas a China precisava dar um novo salto quantitativo à frente. Essa foi a ideologia que liderou o enorme avanço material chinês e a política de "portas abertas" que abriu o mercado chinês e projetou as espantosas taxas de crescimento de várias décadas. A nova versão da contradição principal da teoria Xi faz uma síntese entre a teoria Mao e a teoria Deng. Xi busca em Mao o centralismo do partido e a expressão de uma nova hegemonia moral, para usar um termo gramsciano que não pertence ao vocabulário chinês. Mas, como o maoísmo é, claramente, uma variante materialista-dialética do confucionismo, ele também vê a liderança como a missão do sábio. Daí cada líder chinês ter como obrigação desenvolver sua própria doutrina. A idéia de “Éden” no confucionismo tem várias acepções possíveis, embora filosoficamente represente a totalidade delas. Confúcio escreveu: "Grande foi Yao como príncipe! Como era grandioso! Não há grandeza maior do que aquela do Éden e somente Yao podia toma-la como modelo." Sempre há um grande que é o único que detém a sabedoria para tomar como modelo a ordem moral do Éden. A busca da conformidade social a este modelo de ordem moral expresso pelo sábio líder é uma forma de hegemonia moral. Em Deng, Xi busca a validade da estratégia de abrir o mercado e integrar-se ao mundo e a eleva a um novo estágio, de abertura global com grandeza. Quer ser protagonista geopolítico central, não apenas a maior economia do mundo. A teoria Xi, com sua síntese inovadora neomaoismo, não por acaso, é a única, desde a teoria Deng, a se classificar para entrar no texto da Constituição. Xi já recebeu todas as honrarias que precedem esse ápice.

Há, claramente, riscos geopolíticos globais na teoria Xi. No alentado discurso, ele defendeu a ampliação das forças militares e alertou que militar só tem valor se souber combater. Os militares chineses têm que aumentar sua capacidade de combate, disse. A China já é a potência militar indiscutível na Ásia. A expansão de suas forças armadas é um aviso sério a Taiwan e às Coreias, principalmente à Coreia do Norte. Não se pode desprezar a diferença que uma China mais militarizada fará no mundo.

Mas a principal mudança será mesmo interna. Não há dúvida interpretativa possível sobre o conteúdo mais autoritário e centralizador do discurso do líder central chinês. Ele já eclipsou o primeiro-ministro Li Keqiang, hoje reduzido a figura política acessória. Seu projeto político está mais para Mao. Deng criou a liderança coletiva e promoveu melhor distribuição do poder na cúpula do sistema. Xi busca a recentralização e a dominância de uma só liderança, ao estilo de Mao. A melhor notícia no discurso do líder está na própria definição da contradição principal. Ele aponta para uma nova era na qual, diferentemente daquela inaugurada por Deng e que marcou o desenvolvimento chinês até agora, as prioridades são qualitativas, não mais puramente quantitativas. Enfrentar as contradições na qualidade de vida e as disparidades de renda e oportunidade na China não é trivial. Ainda não está claro, por exemplo, como Xi enfrentará a contradição social secundária que está no caminho da superação da contradição principal. Trata-se do hokou, o sistema de registro domiciliar que serve de barreira à mobilidade interna de trabalhadores. Ele se transformou em um muro legal entre as reservas de afluência chinesas e o resto do país. É nesse enorme resto que há mais insatisfação com os desequilíbrios reconhecidos por Xi. O hokou originou-se numa velha tradição chinesa pré-maoista, o huji, e tem uma função censitária importante. Mas, tornou-se um sistema de cerceamento da mobilidade, criando fronteiras internas. Está em reforma há algum tempo, porém sem grandes avanços notáveis.

Uma coisa é certa e havia sido anunciada com mais objetividade por Wen Jiabao, na gestão anterior. O novo normal chinês é o crescimento econômico menos acelerado e a busca de mais qualidade na economia e na sociedade, inclusive no âmbito ambiental. O ambiente foi corretamente incorporado pela teoria Xi à noção de bem-estar geral. Explica, por exemplo, o papel cada vez mais cooperativo e de liderança da China na política global do clima e os enormes investimentos na despoluição do ar e da água.

PS. Depois da publicação do blog confirmou-se a introdução do nome de Xi Jinping e da teoria Xi na constituição chinesa, ombreando-o a Mao Zedong (Mao Tsé-Tung e Deng Xiaoping).

Este texto foi originalmente publicado no Blog do Matheus Leitão/G1.

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