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Os economistas conhecem bem o trajeto dos ataques especulativos orquestrados no mercado financeiro contra bancos centrais. Ele ocorrem quando a economia dá sinais de fraqueza e o risco de inadimplência na dívida pública se torna iminente. Esses ataques terminam invariavelmente em fuga de capitais, megadesvalorizações cambiais, elevação dos juros, seguidos de medidas de austeridade fiscal, para interrompe-los. Geram pânico e dor na entrada e indignação e mais dor na saída. No momento, as ações do presidente Temer provocam um ataque especulativo de natureza política, não contra o Banco Central, mas contra a Presidência da República e o orçamento público. Temos um presidente fraco e ambicioso que já demonstrou estar disposto a fazer tudo, a usar todos os recursos ao alcance da presidência, apenas para manter-se aboletado no poder. Sua fraqueza decorre, originalmente, de ser o primeiro presidente da história a sofrer denúncia por corrupção passiva no exercício do mandato. Mas ela se concretiza, quando ele se mostra disposto a comprar os votos de deputados para evitar que a Câmara autorize que seja processado.

Ao ficar na mão do baixo clero da Câmara, vulnerável a qualquer demanda, sofre um ataque especulativo do mercado político, o varejão montado no fundo do plenário. O poder se transfere da Presidência para o chão do plenário. A partir do momento em que paga o primeiro resgate, será forçado a pagar continuadamente e em escala crescente. Cada manobra que faz para realizar seu objetivo pessoal reforça a convicção do Congresso de que ele está "dominado". Essa percepção contagia o Senado e senadores se juntam ao ataque, elevando o nível das demandas. As concessões que já fez promovem retrocessos com danos coletivos enormes, alguns irreparáveis, no campo ambiental, na desregulação na agropecuária e da mineração. A liberação acelerada e em alto volume de emendas parlamentes, embora prevista, rompe a lógica do contingenciamento e contribui para tornar inexequível a meta fiscal. Meta que não é de equilíbrio, mas de não ultrapassar um volume já espantoso de déficit. Com o quadro fiscal beirando o colapso, o presidente anda no fio da navalha para tentar manter-se aboletado na Presidência. Com o esgotamento dos recursos fiscais e a frustração de receitas está ficando sem anéis para dar e terá que entregar também os dedos.

Relaxar a meta fiscal abala as expectativas do mercado financeiro. Em algum momento, provavelmente, os efeitos do ataque especulativo na política contagiarão as expectativas do mercado e provocarão uma reação pelo lado da economia. O mercado ainda está relativamente calmo porque ainda acredita, sabe-se lá com que base, que um governo fraco, refém do Congresso, na mira na justiça, conseguiria aprovar alguma reforma que faça sentido e manter a responsabilidade fiscal. Mas os sucessivos sinais de que, por ações do próprio governo, a meta tende a ser afrouxada ou desrespeitada, o evidente aumento da pressão política sobre a equipe econômica para que dê ao presidente mais meios de atender às demandas parlamentares, tende a reverter as expectativas. A deterioração das expectativas removerá do mercado o que ainda resta desse espírito de Poliana que ainda o anima, enquanto os juros reais e os preços dos ativos compensam a elevação do risco político. Mas o espaço de atratividade da economia brasileira confrontada com o risco crescente está encurtando a olhos vistos.

Eventos inesperados de alto teor explosivo, como mudanças na equipe econômica, promoveriam mudança abrupta no comportamento do mercado, com grande potencial de overshooting. Por que o mercado tem tanta importância, tornando-se um fator de risco de agravamento exponencial da crise e de colapso? Porque ele é hegemônico. É a fonte de financiamento do setor público e do setor privado. Neste estágio do capitalismo em que vivemos, de hegemonia do capital financeiro globalizado, os colapsos econômicos tem um elevado componente explicativo nas expectativas e decisões do mercado financeiro.

Portanto, ao expor a Presidência da República a um ataque especulativo dos políticos, Temer gera riscos no plano fiscal que podem antecipar o agravamento da crise que levaria, eventualmente, ao colapso da capacidade de pagamento do setor público. O mercado antecipa as crises. Sai de cena, antes que os eventos que projeta aconteçam. Protege-se nos santuários de baixo risco (safe-heavens). Os painéis de controle dos grandes investidores institucionais já devem estar com várias luzes de alerta piscando, à medida em que começam a circular notícias e relatórios de consultoria dizendo que o risco de colapso fiscal está em elevação e que, se continuarem as concessões e os gastos por motivos políticos, além de presente, passará a ser iminente. A convergência das duas crises, a política e a econômica, levaria o país a uma conjuntura sombria e perigosa. Por enquanto, a política e a economia estão descasadas e andam em direções distintas. A política só piora. A economia não decola, mas melhora devagarinho. Se a política contaminar a economia e as crise convergirem, dificilmente Temer manterá o mandato, por cuja manutenção está investindo o bem-estar coletivo.

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