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A França não precisa eleger o populismo ultranacionalista da extrema direita à presidência, para inscrever-se entre os países onde o imprevisto e o desencanto com a política tradicional estão alterando os rumos da política. As surpresas já foram muitas nas primárias e continuam a embolar as pesquisas de opinião. Primeiro, foi a vitória de François Fillon nas primárias da direita liberal, eliminando com humilhação Nicolas Sarkozy e lançando-se como franco favorito à presidenciais de abril. Mas o favoritismo de Fillon rapidamente minado pelo escândalo, ainda em curso, da nomeação da mulher como funcionária fantasma. Em seguida, o primeiro-ministro Manoel Valls, candidato do impopular François Hollande e do establishment socialista, foi atropelado nas primárias do partido por Benoît Hamon, um socialista ecologista, pró-Europa e que fez uma campanha baseada no aprofundamento da democracia francesa, no desenvolvimento sustentável e na integração dos imigrantes. Não bastassem essas surpresas, o ex-ministro da Economia de Hollande e ex-socialista, Emmanuel Macron, lançou sua candidatura independente, como muito sucesso, pelo recém-criado En Marche. Na França é comum a personalidades políticas criarem partidos à sua imagem, para confrontar os partidos tradicionais. As regras eleitorais não criam barreiras significativas a pequenos partidos e lhes conferem direitos iguais.

O espectro do populismo ronda a mídia e as sondagens eleitorais porque Marine Le Pen, aparece em posição mais vantajosa que nas eleições anteriores. Criou-se a ideia improvável de que a vitória de Trump inaugurou uma onda que pode inundar a França. Não será assim. Se Le Pen ganhar, será por razões hiperlocais e não por efeito de contágio da eleição de Donald Trump. Marine Le Pen tem aparecido nas pesquisas em primeiro lugar, obtendo consistente percentual de 25% das intenções de voto. Mas perde sempre, como antes, para todos nas simulações de segundo turno. Seu voto tem um nicho definido e a França tem se mostrado um território político pouco propício à sua expansão. Há oferta suficiente à direita, para dividir o voto conservador e ao centro para bloqueá-lo. E é, exatamente, pelo centro, que surgiu a alternativa que parece atender ao inconformismo com a política tradicional e à turbulência social.

É Emmanuel Macron, o ex-ministro da Economia de François Hollande que disparou nas pesquisas, superando o socialista Hamon e o encrencado Fillon, até então considerado o candidato capaz de enterrar de vez a ameaça da ultradireita. Macron é um énarque, como são designados os graduados da célebre e poderosa ENA, École Nationale d’Administration, a alma mater da tecnocracia francesa. É caracterizado como “sedutor” e “carismático” e um craque em relações humanas. Tem demonstrado esses atributos na sua disparada pré-eleitoral. Resta saber qual o seu fôlego. Nunca disputou cargos eletivos, o que pode ser vantajoso diante do descrédito com a política que é global e muito forte na França. Ele explora pragmaticamente  esse descrédito em sua campanha pragmática e sem rótulos. Estudou filosofia política, concentrando-se em Hegel e Maquiavel. Na economia, é um liberal, na política social, um socialista, Macron é um produto típico da transição do século XXI, não se enquadra nos escaninhos tradicionais da esquerda, nem da direita. É o mais europeísta de todos os candidatos. Corre pelo recém-criado En Marche e, desde que iniciou sua campanha está entre os favoritos das sondagens de intenções de voto. Mas, com as eleições se aproximando, o primeiro turno será em 23 de abril, as pesquisas de opinião ainda são influenciadas pelo recall, estoque de votos fiéis e diferentes graus de exposição à opinião pública. De todo modo, embora Macron esteja embolado nas sondagens com Fillon, Hamon e Marine Le Pen, no primeiro turno, é o favorito disparado para o segundo turno.

O socialista Hamon ainda não pode ser descartado, apenas começou sua campanha e o peso do voto socialista fiel pode ser um fator significativo em um pleito que, tudo indica pode levar à fragmentação do voto no primeiro turno. Hoje Fillon, Macron e Hamon andam tecnicamente empatados, mas com tendências distintas, queda para o candidato da direita tradicional, estabilidade para o jovem socialista e crescimento para o candidato independente. Le Pen tem pontos percentuais reais de frente sobre eles, mas não o suficiente para se dizer que está garantido que chegue ao segundo turno. É provável, mas não é certo. A má notícia para ela é a estabilidade de suas preferências, em 25%. Pode ser vantagem, mas pode muito bem ser teto.

Qualquer resultado para o primeiro turno será uma novidade no quadro político francês. Hoje, tudo indica que a candidatura Fillon está se inviabilizando, apesar dos esforços do partido Republicano para salvá-la. O mais provável  no momento é que o segundo turno seja entre a ultradireita e o independente. Se for assim, é quase certa uma aliança entre Macron e os socialistas. Ele pode ter também o voto da direita liberal que rejeita completamente Le Pen. Se ganhar uma aliança Macron/Hamon, a França se tornará o principal fator contraste ao Brexit e a principal força para promover a reforma e a recuperação institucional da Europa. Pode ser, também, uma alternativa progressista no trato com a imigração e os refugiados. A França se afastará de Washington. Para Trump só a vitória de Le Pen interessa. Esse cenário francês que se revela o mais provável do momento, me faz lembrar da célebre abertura do Astérix: “Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste…”.

Publicado originalmente no blog do Matheus Leitão, G1: http://g1.globo.com/politica/blog/matheus-leitao/post/resistencia-francesa.html

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