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Boris Johnson, BoJo, o primeiro-ministro britânico, apostou seu futuro político e o destino do Reino Unido, nas eleições antecipadas desta quinta (12). O único resultado realmente bom para ele, é conquistar a maioria do Parlamento para o partido Conservador. Qualquer outro cenário imporá restrições ao projeto de Johnson. É o que se poderia chamar de uma aposta político-eleitoral especulativa. Se ganhar, BoJo fará a saída da União Europeia com o precário acordo que já negociou. Os riscos são tão altos quanto o prêmio. Mas, o melhor cenário para BoJo, pode ser o pior, para o Reino Unido. Sua vitória pode abalar seriamente sua arquitetura e integridade, dependendo dos desdobramentos concretos da saída da União Europeia.
O pior cenário para o primeiro-ministro e para os Trabalhistas é que saia das urnas pré-natalinas um parlamento sem maioria, um hung parliament, como os britânicos o chamam. Um governo saído do impasse e da dúvida cobrará elevado preço aos dois partidos tradicionais. Pode aumentar a fragmentação e a desesperança.

As pesquisas têm sido imprecisas por lá. Os desvios entre os seus números e o voto efetivo tem sido suficiente para levar a erros de previsão bastante sérios. Não permitem, por exemplo, estimar a probabilidade de resultados muito próximos, mas radicalmente distintos, como uma vitória Conservadora apertada sem maioria e uma vitória apertada, com maioria. Além disso há vários fatores novos em jogo.
Nigel Farage, o esperto líder da extrema-direita, resolveu lançar o partido da Brexit, um partido totalmente focado na retirada do Reino Unido custe o que custar. Sua estrutura é bem diferente da do Ukip. É uma máquina política conduzida digitalmente, com forte controle autocrático por Farage. Nas pesquisas tem aparecido no mesmo patamar que o Ukip, mas ainda não foi testado. Ambos disputarão a eleição. Farage, a principal personalidade do Ukip, está agora na liderança do novo partido. A legenda não tem membros no Parlamento, mas conseguiu 32% dos votos nas eleições para o parlamento europeu. Farage decidiu estrategicamente, não disputar com os Conservadores nos 317 distritos em que estes são mais competitivos. Deve focar nos 30 em que o Ukip é forte. Trata-se de uma coalizão subentendida, que leva Johnson mais para a direita e aposta em uma Brexit sem medida das consequências. Ninguém consegue prever, exatamente, o que acontecerá. O valor do Parlamento Europeu é muito diferente para os eleitores do que o valor do Parlamento do UK, a Casa dos Comuns, que se reúne no palácio de Westminster. O eleitor não tem votado nos pleitos europeus recentes do mesmo modo que votou para compor o Parlamento Europeu.

Outro fator de incerteza adicional é o efeito nos votos para o DUP, o partido unionista irlandês da discussão das perdas que a saída imporá à Irlanda. O DUP apoiou o fracassado governo de Theresa May e continuou a dar apoio a Boris Johnson. Neste período, o impacto da Brexit sobre as condições que selaram a paz entre as Irlandas, foi extensamente discutido. Ficou muito claro que ninguém tem uma proposta que assegure a permanência de fronteiras abertas na Irlanda, precondição para a estabilidade do acordo da sexta-feira santa, que selou a paz em 1999. Se os eleitores irlandeses ficaram mais desfavoráveis à saída, podem engordar os votos dos partidos que apóiam a permanência e até dos separatistas e reduzir a representação do DUP. Também não se sabe o que pode acontecer na Escócia, que tem representação pequena em Westminster. A maioria dos escoceses é contra a saída da União Europeia. O perigo de uma saída atropelada deu nova energia ao movimento autonomista. Estes imponderáveis ampliaram a percepção dos custos da Brexit pelos britânicos. O abandono da UE pode criar focos fortes de tensão e o sentimento autonomista na Irlanda e na Escócia.

Governantes incidentais fazem apostas extremas. Nada têm a perder, se não o governo, no qual se sustentam precariamente, apoiados em atitudes autoritárias e maiorias incertas. É o caso de Donald Trump e de Jair Bolsonaro. Johnson não foi eleito de surpresa. Mas chegou inesperadamente à sede do governo, em 10 Downing Street, após conquistar ampla maioria em uma disputa contra Jeremy Hunt. O Reino Unido está em crise profunda. O parlamento tem falhado em dar respostas funcionais para a crise e os problemas estruturais da qual ela decorre. Governos fracos têm se sucedido na construção de um legado de fracassos. A Brexit foi um susto saído de um rompante eleitoral que já passou. Um novo referendo provavelmente daria vitória ao voto pela permanência, embora a campanha de Johnson e do novo partido de Farage, inteiramente focalizados na saída, tenha levantado dúvidas e aumentado no número dos pró-Brexit nas pesquisas.

Este é o espírito dos tempos. Sociedades fragmentadas, sistemas político-partidários crescentemente disfuncionais. Quanto mais aumentam os sinais de crise, mais o povo reage movido pela insegurança e pelo medo. Tornou-se temerário fazer previsões sobre o resultado de eleições. Pode dar qualquer coisa, inclusive resultados muito piores do que o esperado. Das eleições têm saído, com alta frequência, governos incidentais e maiorias vacilantes. Quando há maioria. Não são poucos os governos que se aproximam da sociopatia e do delírio. Portanto, não tenho estimativas para o resultado. Mas, tenho esperanças, sempre, porque, embora o ecossistema sociopolítico perturbado tenda a gerar surpresas desagradáveis, contém elementos emergentes que podem levar a rupturas benignas. São o cenário menos provável. Mas não impossível, num mundo onde o imprevisto se tornou o novo normal.

 

Originalmente pubkicado no Blog do Matheus Leitão/G1

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