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A emoção do voto

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Eu via meus pais votarem para presidente e pensava no dia em que eu votaria. O ritual do voto tinha muita importância em minha família. Meu pai chegou a ensaiar uma carreira política, e foi presidente da Câmara de Vereadores de Barbacena, sua cidade natal. Mudou-se para Brasília com a família, por acreditar no projeto juscelinista de desenvolvimento, pelo qual fez campanha. Juscelino Kubitschek foi, para ele, o maior presidente que o Brasil elegeu. Eu já tinha a consciência do voto com seis anos de idade.

Aos 15 anos, sonhando com os 18, quando poderia votar, vi os tanques do golpe militar descendo pela avenida W3, recém asfaltada, em Brasília. A cicatriz deixada pelas lagartas dos veículos militares no asfalto novo foi o marco zero de minha indignação cívica. Só pude votar para presidente aos 40 anos de idade.

Votei, pela primeira vez, após anos demais, de luta incessante, muita dor, enormes perdas. Imaginem minha emoção, hoje, ao ver o vídeo de minha neta Mariana votando, aos 16 anos. Praticamente a mesma idade em que os tanques interromperam minha caminhada esperançosa rumo às urnas.

Hoje, votamos quase ao mesmo tempo, ela em Brasília, eu no Rio. Ela, carregando nas mãos muito futuro, apta a escrever sua história como quiser. Eu, fazendo o balanço existencial de minha caminhada até aqui. Ela, lembrando da resistência como história contada. Eu, rememorando a experiência de ter sido parte da resistência. Lembrando da longa noite sem voto e sem liberdade. Nós dois, e toda nossa família, votamos para afastar as ameaças novas e velhas no horizonte da democracia conquistada com tanta luta.

Nosso voto nunca será em vão. Votar pela democracia, por um futuro de mais justiça e igualdade na diversidade nunca será demais. Mas é um retrocesso. Devíamos estar a votar no futuro, na possibilidade de aproveitar as ondas de mudança vindas da metamorfose global que atravessamos, para nos tornamos um país melhor e mais justo.

Melhor, entrentato, poder votar, ainda que seja para preservar a democracia, do que não poder votar. Espero que meus outros netos, Daniel, Manuela e Isabel, quando cada um chegar nos seus 16 anos, possam votar e o façam sabendo como esse pequeno gesto tem um valor imenso e uma história familiar de dedicação permanente à democracia e à justiça social.