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A Ilha de Moçambique recebe escritores africanos para seu primeiro festival literário. É uma grande ocasião para a literatura africana. Logo no primeiro dia, algo estranho acontece, com “a noite rasgando-se num enorme clarão, e a ilha separando-se do mundo. Um tempo terminando, um outro começando”. Esta é a chave para o enredo de Os vivos e os outros, romance de José Eduardo Agualusa. Daniel, o protagonista, diz que “mistério é o que está a acontecer aqui na ilha… Não vos quero assustar, mas desde ontem que não temos contato com o resto do mundo”. É o relato de um isolamento que aprisiona na ilha os escritores e seus moradores. As duas personagens estruturantes da narrativa são Daniel Benchimol e Moira Fernandes, que os leitores de Agualusa reconhecerão de A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, quando eles se conhecem e começam seu relacionamento amoroso. Agora, já estão juntos e Moira, grávida da menina Tetembua. Daniel é o anfitrião do festival literário.

O ficcionista é capaz de imaginar o real antes que ele se torne realidade. Com Agualusa foi assim. Captou no ar, nas terras e pessoas o que estava por vir. Fico a pensar se todo leitor de Os vivos e os outros há de ser assaltado pela lembrança dos sentimentos que o confinamento forçado pela pandemia lhes provocou. Ao visitar a Ilha de Moçambique nas páginas de Agualusa o leitor reviverá seu claustro particular. Alguns talvez até sonhem com a reclusão que gostariam de ter vivido. Confinamentos compulsórios são vividos de modo muito mais agudo e sofrido do que a solidão voluntária. O recolhimento deliberado para pensar, escrever, “dar um tempo” pode ser experimentado com prazer e interrompido à vontade. Estar prisioneiro em um local particular, mesmo que com as pessoas que se ama e as que se deseja amar pode ser desestabilizador. Se estamos com pessoas que conhecemos pouco, os sentimentos podem ser ainda mais instáveis, todos condenados a viver juntos por tempo indefinido. Mas, Agualusa abre a possibilidade de que mesmo este aprisionamento forçado possa agradar a pessoas mais adaptáveis e mais otimistas com a vida.

A situação é ambivalente. Rejeitada por uns e aceita por outros. A uns, inibe, a outros, inspira. Luzia, uma das escritoras convidadas, diz que o isolamento pode ser considerado um castigo ou uma bênção, “depende da perspectiva. Estou a gostar de estar aqui”. Essa possibilidade de perspectivas alternativas, na vida e na ficção, é parte da magia de escrever e de ler. Cornelia, outra convidada do festival, acha que está no inferno. Uma personagem diz, para aumentar-lhe a inquietação, “estamos mortos, estamos todos no inferno”. Ofélia, outra escritora, vai em seu socorro e completa “a gaja tem razão, estamos mortos, mortíssimos, mas a Ilha não é nem o Paraíso nem o Inferno, e sim o Purgatório. Não sairemos daqui enquanto não nos reconciliarmos uns com os outros e, sobretudo, com nossos fantasmas”. Depois, Cornelia chora porque acredita que a internet nunca voltará e ela nunca sairá daquele inferno.

Assim que comecei a leitura de Os vivos e os outros, ele me fez relembrar o filme magistral de Luis Buñuel O anjo exterminador, que conta a história de pessoas da elite burguesa espanhola que assistem à ópera de Gaetano Donizetti, Lucia de Lammermoor, no palacete da rua Providencia, pertencente aos ricos anfitriões Edmundo e Lucia Nobile. Após a ópera, não conseguem deixar a casa à qual acorreram por vontade própria e se descobrem confinados no salão. A partir da impossibilidade da saída e da inevitabilidade daquelas companhias, começa uma trama de sentimentos e ressentimentos, de autoconhecimento e desespero, que se adensa e se refina, ora ensombrecida, ora ensolarada. A pedido da sala de cinema em que o filme estreou em Paris, Buñuel escreveu uma explicação para preparar o público para a estranheza de seu filme. “Se o filme que vão ver parecer-lhes enigmático ou incongruente, a vida também o é. Ele é repetitivo como a vida, e, tal qual a vida, sujeito a mil interpretações. Talvez a melhor explicação para O Anjo Exterminador seja que, racionalmente, ele não tem nenhuma.” Em outro momento, Buñuel insistiu que não havia uma mensagem nele. Mas admitiu que O Anjo Exterminador era suscetível de ser interpretado. “Todos têm o direito de interpretá-lo como queiram”, disse. Para ele tinha uma interpretação histórico-social. Para um cinéfilo de minha geração esse remembramento do filme de Buñuel ao ler o romance de Agualusa talvez seja banal, até óbvio. O filme nos marcou profundamente. Na narrativa de Agualusa, é durante o festival literário que todos ficam isolados do continente, sem internet e telefonia. Ninguém podia deixar a ilha ou nela entrar. Em O Anjo Exterminador, não há razão concreta para o confinamento, os convidados sentem-se impossibilitados de transpor os limites da sala, sem que haja qualquer impedimento real para isso. No romance de Agualusa haverá uma explicação, que se vai esclarecendo ao longo da narrativa.

A coincidência é muito mais comum na arte, sobretudo na literatura, do que na vida. A ópera Lucia de Lammermoor estava em Madame Bovary e em Anna Karenina, antes de marcar o fim do recital e começo do impedimento que encarcera os convidados no salão do palacete dos Nobile. Nunca perguntei a Agualusa se de algum modo ao escrever sua história lembrou-se de O Anjo Exterminador, ou se gostava do filme. Pode nem tê-lo assistido. Após a leitura e pensando mais em ambos, vejo alguns paralelismos interessantes. Mas nada indica que estejam necessariamente associados ao fato de Agualusa, apreciar, ou mesmo conhecer o filme. Buñuel faz a reclusão durar seis dias, numa clara alusão ao gênesis. O mundo das pessoas confinadas termina no momento em que não encontram meio de sair da festa. Quando, finalmente, as portas se abrem, seu mundo é outro, acaba de ser criado. A obra de Buñuel deste período está repleta de referências críticas à religião, à versão hispânica do catolicismo. Viridiana e O anjo exterminador são os marcos principais desta fase do autor, conhecida como a fase mexicana. No livro de Agualusa, a internet retorna no sexto dia. No sétimo dia, não se pode dizer que tudo voltou ao normal, mas o isolamento compulsório terminou. Em ambos, há paradoxos, contradições e oscilações no comportamento do grupo. Mas, em Buñuel, há uma progressiva degeneração dos personagens, que não encontro em Agualusa. O romance é muito mais luminoso do que a película, bem mais sombria.

Em um dado momento da narrativa de Agualusa, dois autores fazem graça de interpretações de suas obras que lhes parecem infundadas. Mas existirá uma interpretação melhor que a outra? Talvez todas sejam legítimas. Há as mais eruditas, as mais elaboradas, as mais justificadas e as mais ingênuas. Pode haver o entendimento errôneo da ficção, quando a leitura é desatenta. Mas bons leitores farão boas interpretações, cada um a seu modo. Cada leitura será única, porque filtrada pelas experiências, sentimentos e impulsos de cada pessoa. O envolvimento afetivo é diverso, como diversas são as personalidades. Escrita e leitura se completam e se reinventam. Esta é a beleza dos filmes e dos livros, prestam-se a incontáveis interpretações. Quem tenha visto o filme de Buñuel pode não se lembrar dele ao ler o romance de Agualusa. Essa lembrança pode ser um eco geracional ou, talvez, apenas uma reação pessoal. Esta é a beleza dos filmes e dos livros, prestam-se a incontáveis interpretações.

Leio Os vivos e os outros como um livro de travessia. A passagem que reproduzi no início se refere a um momento em que um tempo termina e outro começa. “Calma gente!”, pede Moira em determinado momento. “Não é o fim do mundo… Ou talvez seja. O mundo extingue-se em cada instante. E em cada instante recomeça.” A trama é construída como a vida, com travessias imediatas dentro de uma longa passagem de um mundo a outro, de um estado a outro. Romances de travessia sempre admitem uma leitura metafísica. A travessia é uma metáfora desafiadora da vida. A solução para o mistério da continuidade da vida para toda uma corrente da metafísica está contida na ideia de que o mundo acaba para quem morre, não para os que estão vivos. A vida continua não na pessoa que morre, mas naquelas que sobrevivem a ela.

No relato de Agualusa, a reclusão forçada dos escritores provoca sentimentos fortes, remissões a passados remotos, pessoais ou imaginários, ressentimentos, amores e reamores. É da natureza das clausuras, esse crescendo de emoções. Está presente no filme de Buñuel, como na peça Huis Clos de Sartre. No caso de Agualusa, o traço que confere singularidade à comuna literária por ele criada é o entrelaçamento de histórias e estórias. Com muitos escritores reclusos, dá-se o espetáculo variado das narrativas. Como no momento em que três deles, Luzia, Jude e Uli encontram-se no deck em frente ao mar, maré baixa, alta noite e a escritora propõe um jogo. Cada um contaria duas breves histórias e os demais teriam que dizer qual a verdadeira e qual a ficcional. A brincadeira produz, claro, seis microcontos.

Nesse episódio tem-se, talvez, a síntese desse huis clos literário, no qual verdade e ilusão, real e ficção se embaralham e se confundem. Agualusa constrói em todo o livro um caleidoscópio no qual real e imaginário, fato e magia, mentiras e verdades se combinam de tal forma entrelaçados que a diferença entre eles se apaga. Luzia diz a Ofélia que está assustada com a tempestade, “sim, a tempestade. E eu e as minhas tempestades íntimas. Por vezes tenho medo de não ser real”. Ofélia lhe diz que parte de seu desassossego é pela falta da internet, “privação de realidade virtual” e acrescenta “passamos cada vez mais tempo nessa realidade irreal. Privados dela, estranhamos”. É o mesmo que muitas horas de imersão a ler um bom romance. Ao pararmos, “o mundo ao redor parece-nos falso, incoerente, pouco sólido”. Depois do jogo dos microcontos, Uli constata que “não há como a vida para urdir boas histórias”.

Por toda a narrativa Agualusa cria jogos de ilusão que embaralham ficção e realidade, um traço característico que se encontra em outros romances seus. Em Os vivos e os outros, Moira diz “somos nós que construímos os mundos. Os mundos germinam de nossas cabeças e crescem até não caberem mais (…). A realidade é isso, é o que acontece à ficção quando acreditamos nela”. Ao deixar a biblioteca com um livro antigo nas mãos, Uli encontra um conhecido personagem local, Baltazar. Este aponta o livro e diz “eu sou nascido deste livro”. Moira pergunta a Daniel: “não me queres contar a verdade?”. Ele responde: “a verdade? E isto existe?”.

Daniel reclama a Uli que escreve-se algo sobre a realidade e logo vem a acusação de se praticar realismo mágico. Uli responde que “toda realidade é mágica (…) a física quântica defende isso”. Não é exagero ficcional. Talvez uma licença poética. Einstein já falava dos “delírios óticos da consciência cotidiana”. Desde 1961, Eugene Wigner ganhador do Nobel de física desenhou um experimento mental para resolver um dos mais obscuros paradoxos da física quântica: o que diz não existir uma realidade objetiva. Como era um experimento mental, não foi aceito como demonstração cabal. Mas, com os extraordinários avanços recentes nas tecnologias quânticas ficou finalmente demonstrada a inexistência de realidade objetiva e que realidades distintas podem conviver e não há como determinar qual delas é um fato objetivo. Ao pôr em dúvida a objetividade dos fatos, este achado vira a ciência física de cabeça para baixo. É legítimo que um escritor diga que a física se aproximou irremediavelmente da ficção e que a realidade objetiva nunca existiu. A afirmação de Moira passa a ser cientificamente irrefutável. A realidade é criada por nós. É paradoxal e, ao mesmo tempo, instigante que na era da tecnologia e do cientificismo a ciência física refute a existência de uma realidade objetiva.

A ficção premonitória de Agualusa é uma leitura que inquieta e delicia. Pode nos fazer repassar nossas próprias fases existenciais. Embora não trate da nova peste global, relembra-nos da angústia da pandemia e das incertezas e medos que ela nos provocou. É um romance para ler. Como toda boa literatura, ele contém infinitas possibilidades de leitura. Cada leitor há de encontrar a sua na prosa elegante de Agualusa.

José Eduardo Agualusa, Os vivos e os outros, TusQuets, 2020.

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