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O sistema de transportes rodoviário brasileiro equilibra-se em um tripé insustentável. O modelo de fretes baseado no aviltamento dos fretes na base, geralmente pagos a caminhoneiros autônomos para cargas menos importantes para o transportador, é socialmente inviável. O combustível fóssil, de qualidade inferior ao mínimo recomendado pela OMS, muito poluente, é climática, ambiental e socialmente insustentável. Por que socialmente insustentável? Porque, o material particulado e os gases tóxicos que ele emite são extremamente danosos à saúde humana. Aumentam as doenças crônicas respiratórias e cardiovasculares, aumentam as internações e o gasto público com assistência médica. A logística centrada em caminhões, inclusive para longas distâncias, com caminhões com média de eficiência muito baixa e, mesmo os mais eficientes, ainda ainda muito aquém dos melhores padrões, é econômica e financeiramene insustentável.

O modelo de fretes de base deprimidos, com o combustível congelado, dava a impressão de ser social e economicamente sustentável, mas não era. Bastou descongelar o preço do diesel e a crise estourou. Subsidiar o diesel significa apenas socializar o custo do combustível, para nada mudar estruturalmente. Tabelar o frete desorganiza ainda mais o sistema. Ele está adaptado a ter o frete de base de superexploração e obter um custo médio que permita manter as suas margens. Quem consegue fretes melhores são os caminhoneiros contratados, mesmo como autônomos, mas que se tornam fornecedores regulares das grandes empresas. Quando o governo fixa o piso, o sistema fica inviável, porque não quer mudar e, se quisesse, não teria como, no curto prazo.

Vi um caminhoneiro dizer a um repórter que só conseguia fretes abaixo do piso, que mal dava para pagar a ida e não pagava a volta. O frete de base não remunera o suficiente para o caminhoneiro voltar vazio para seu ponto de origem, sua casa. Ele é forçado a pegar carga próximo de onde faz a entrega e desvia de sua rota de retorno. De carga em carga, tem vezes que leva quase um ano para conseguir voltar para casa. E a féria mal dá para a subistência da família. Com esse frete miserável, ele tem que pagar a dívida do caminhão que, com baixa qualidade das estradas, deprecia rapidamente; o pedágio; a manutenção do caminhão; e o combustível. O que sobra não sustenta a família com qualidade de vida. Sem falar que esses caminhoneiros solitários dependem, muitas vezes, de intermediários para conseguir carga, que ficam com a fatia maior do frete.

O realismo dos fretes, isso é, aqueles compatíveis com o custo real do caminhoneiro mais uma margem justa de remuneração é incompatível com a estrutura de custos da economia adaptada ao frete de exploração e ao combustível subsidiado. Não há saída interna ao sistema caminhão-rodovia. Só aumentando a participação dos modais ferroviário e aquaviário, que são muito mais eficientes acima de 500 km e mais baratos.

A logística que temos não fica de pé, com esse tripé insustentável. Mesmo que se substitua progressivamente a frota de caminhões a diesel por caminhões elétricos e, nessa transição, se substitua o diesel pelo biodiesel. Só a migração para um sistema híbrido, no qual o transporte rodiviário fique apenas na faixa em que é eficiente e com combustível muito mais limpo, terá sustentabilidade econômica, social, climática e ambiental.

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