• face
  • twitter
  • in

A crise vai começar a esvaziar. Esses movimentos que iniciam por contágio via rede, já revelam algum padrão. Eles emergem, expandem, se espalham, saturam e se dissipam. Grupos oportunistas tentam aproveitar-se dessa mobilização e usá-la em benefício de sua própria agenda. Com essa infusão de motivações mais políticas do que sociais, aumenta a probabilidade de divergência e, em alguns caos, violência. Quando o desentendimento e a violência irrompem, o movimento perde apoio , interrompe-se o contágio e ele se dissipa.

O que a crise dos caminhões mostrou foi que as lideranças políticas e sindicais não sabem lidar com esse tipo de movimento. Principalmente porque não representam a maior parte dos rebelados. Essas lideranças, mesmo de caminhoneiros autônomos, só conseguem recrutar para sua organização aqueles que são costumeiros em áreas de concentração. As principais são as praças onde ocorrem verdadeiros leilões de fretes e os parques das grandes empresas. Os autônomos solitários, vou chamá-los assim, entram no mercado por suas bordas. Vêm de outras ocupações ou do desemprego, compraram caminhão com as facilidades oferecidas pelo governo anterior. Sonhavam com o boom e andam beirando o colapso. Não têm a manha de chegar aos centros de frete. Eles pegam carga aqui e ali, frete picado, jornada redobrada. Não são alcançados por essas lideranças formalizadas.

É mais que uma diferença entre lideranças "verticais" e "horizontais". Os movimentos horizontais não têm liderança formal, só quando se verticalizam. Eles têm influenciadores, pessoas com capacidade de persuasão, que conseguem produzir a mobilização. Esses influenciadores surgem espontaneamente, nos pontos de encontro entre pessoas com motivação prévia, predispostas à mobilização. Falam o que eles estão pensando, traduzem a indignação em reação. Influenciadores são espalhados e efêmeros como esses movimentos.

No caso dos caminhoneiros, um desses pontos são os postos de abastecimento nas rodovias, com parque de estacionamento e infra-estrutura, como os banheiros coletivos bem equipados. Reúnem-se ali, trocam informações, comem junto, conversam, estabelecem relações de confiança, trocam números de WhatsApp. Que motorista não quer uma rede de contatos à qual recorrer, quando, só numa estrada, em horas ermas, precisa de apoio? Dá confiança, saber que pode, pelo celular, encontrar algum outro caminhoneiro próximo ou que que conheça melhor a região e possa ajudá-lo a resolver seu problema. Melhor que a velha rede de rádio. No momento em que começam a circular mensagens de indignação e revolta no grupo, estão dispostos a considerá-las. Se elas evoluem para um movimento de protesto, ou paralização, provavelmente aderirão.

A pergunta comum é se essa rede espontânea pode ser manipulada. Pode, certamente, mas não dirigida. Não há dúvida de que o movimento tem agentes incorporados a ele com uma agenda política que vai além das insatisfações e motivações imediatas que os levaram a parar. Também é improvável que um movimento majoritariamente de autônomos tivesse fôlego econômico para uma parada muito longa. A grande massa de autônomos vive estrangulada pelos fretes irrisórios dos quais vivem. Muitos compraram caminhões acreditando que a economia voltaria a crescer e nada. As boleias continuaram vazias, as cargas escassas, os fretes indigentes.

Os que estão há mais tempo no mercado, conseguem carga, mas com menor frequência que antes e a que preço. As grandes empresas terceirizam a maior parte de sua carga geral, em leilões de fretes que embutem a exploração cruel dos caminhoneiros. Eles vivem da mão para a boca, não podem se dar ao luxo de rodar com o caminhão vazio. Aceitam preços de fretes vis. Com a economia a meia bomba, as estradas mal conservadas, os pedágios pesados e o combustível aumentando, gastam uma fatia significativa dos ganhos parcos na manutenção, no abastecimento e no pedágio. A única reivindicação que tem diretamente a ver com os autônomos é o piso de frete. Dificilmente será obedecido, uma vez decretado no quadro político-institucional que vivemos.

O que ninguém tinha noção, mas devia ter, é que somos todos reféns do caminhão. Somos o único país de grandes dimensões que transporta cargas a distâncias superiores a 1000 kms por caminhão. Não usamos ferrovias. Ao contrário, sucateamos nossas vias ferroviárias. Não usamos a navegação de cabotagem, o transporte por navios pela costa. Os caminhoneiros param o país e, numa economia desacelerada, que há muito usa métodos de minimização de estoques, produzem desabastecimento em 24-48 horas. Com o país desabastecido, negociar o quê?

As empresas que deram condições de sustentação ao movimento, parando seus caminhões e interrompendo a oferta de fretes, têm uma agenda diferente e velha. Sabem muito bem o potencial de desabastecimento que a paralização teria. Não mandam seus motoristas voltarem, nem cortam os vínculos. Usam os empregados para forçar sua agenda. Agem irresponsavelmente, em busca de subsídios e privilégios. Como sempre. Não sofreram, nem sofrerão qualquer penalidade. É a face patrimonialista do movimento. Eles sabem que estão pedindo a socialização de seus custos. Os caminhoneiros autônomos, particularmente os autônomos solitários, estão pedindo renda. É diferente.

As motivações políticas dos agentes que tentam usar o movimento são diversas. Há os que inspiram a demanda por autoritarismo, por um governo antipolítica. Há os que tentam encrespar mais o ambiente, para ver se derrubam o governo. São irresponsáveis, à direita e à esquerda. Insensíveis aos sacrifícios que a paralização impõe aos mais pobres e que serão os que mais perderão com a queda de atividade e aumento de preços que o desabastecimento provocará.

Entra o governo. Ou tenta entrar. Fraco, deslegitimado, confuso e despreparado. Não sabia o que estava enfrentando, não tem capacidade de negociação, nem liderança moral. Anuncia medidas que o povo não vê. Avanços que ninguém percebe. Relatou negociações que não se remetiam à maioria parada. Cedeu tudo e nada levou. O movimento acabará por sua própria lógica de movimento. Ele tem um ciclo que está chegando ao fim.

Quem não entrou foram os supostos candidatos à Presidência da República. Nenhum deles mostrou ter noção da gravidade da crise, noção do que deveria ser feito, ou autoridade política e pessoal para ajudar no equacionamento dos problemas aflitivos que atingem seus supostos eleitores.

Esse movimento vai acabar. Mas teremos outros. Como tivemos em 2013, como temos agora. Eles começarão em momento imprevisível, serão incontroláveis, sem lideranças centralizadas, difusos, mais indignados do que propositivos, sem as clássicas pautas para negociação formal. A única saída é aumentar a representatividade do sistema político formal. ele terá que deixar de ser e pensar analógico, e se digitalizar. Terá que descobrir os novos caminhos da legitimidade e da conversação em rede. Se não mudar, continuará a ser surpreendido e a dar respostas tardias.

Pin It

Mais recentes

Mais Artigos

Back to Top