• face
  • twitter
  • in

Albert Camus, como todo autor que não se conforma às polaridades simplificadas, que prefere o caminho mais difícil e complexo da autonomia ideológica e da independência política, é polêmico e mal interpretado. Como todo pensador rico e multiforme, suas ideias, descoladas de seu contexto intelectual, uma vez que o ambiente histórico em que foram produzidas já se esgotou, têm sido apropriadas por todas as tendências. O que era revolta, passa a ser absorvido como se fosse senso comum.

Ele buscou a terceira via de forma obstinada, no período de extrema polarização, demarcada com violência e censura recíprocas, entre a esquerda pró-soviética e a direita anticomunista. A terceira via é sempre a posição mais difícil de sustentar nos momentos de divisão polarizada e radicalizada. Ela escapa das engrenagens da formatação ideológica e aposta na ruptura dessa situação em que só há dois lados e nenhum merece ser escolhido como o lado “bom” ou “do bem”. E paga um alto preço por essa rebeldia. O menor deles é ser acusada pelos dois lados de pertencer dissimuladamente ao “outro lado”.

Seu embate com Jean-Paul Sartre, nas páginas do Les Temps Modernes, provocado por sua crítica transparente ao stalinismo em O Homem Revoltado, e o rompimento público entre os dois, são a expressão precisa das contradições intelectuais daquela época, o início dos anos 1950. Sartre dirigia o Les Temps Modernes, e nunca foi capaz de se opor ao autoritarismo absolutista soviético. O tiroteio de ideias provocado pelo antagonismo político entre os dois companheiros terminou com a ruptura pública da celebrada amizade. Sartre escreveu um duro julgamento ideológico do ex-amigo e companheiro. Esse julgamento transformou Camus em estrangeiro na esquerda oficial, que o condenou e baniu. Essa polarização intoxicaria praticamente todo o debate intelectual e político de meados dos anos 1950 a meados dos anos 1980. Camus persistiu estigmatizado por longo tempo e, até hoje, a esquerda que ainda mantém essa polaridade ultrapassada continua a rejeitá-lo.

Camus, Sartre e Simone de Beauvoir formaram no imaginário de muitos contemporâneos seus e de jovens leitores à época a trindade existencialista fundamental. Ela foi mais importante na formação de muitos, que o pensamento de Martin Heidegger, Søren Kierkegaard e Carl Jaspers. Sartre fazia o enlace entre o existencialismo, o humanismo e a dialética. Camus, desenhava a via libertária para a indignação e a revolta. Embora negasse ser existencialista, O Mito de Sísifo e O Homem Revoltado podem ser facilmente encaixados nessa matriz. Simone de Beauvoir buscava a recentralização do pensamento humanista, do “homem” para a “pessoa”, por meio do feminismo inaugural de O Segundo Sexo. Quem estava se formando nas décadas de 50, 60 e 70 do século 20 e leu as obras fundamentais dos três, nunca mais pensou do mesmo jeito. Foram leituras transformadoras de um pensamento disruptivo. É essa qualidade que os torna, de algum modo, imortais e revolucionários.

É esse atributo formador, revelador e transformador que permite reapropriar suas ideias, mesmo após superado o contexto histórico em que nasceram. Uma reapropriação que não pode violentar, porém, a coerência intrínseca de sua estrutura intelectual. Continuam a ser ideias disruptivas, continuam a se opor, fundamentalmente, à ordem social e política vigente. As questões-chave de cada um — existência/humanismo; liberdade/indignação/revolta; personalidade/opressão/feminismo — permanecem temas fundamentais para o momento que vivemos, no qual se desenha a transição para novos tempos modernos. Novamente vivemos momentos de extrema e infrutífera polarização. Como disse Camus, nesses tempos não há tempo a perder, contudo, mesmo ativos e engajados, podemos nos perder. O risco que corremos é deixar esses “instantes impalpáveis escorrerem pelos dedos como as pérolas de mercúrio”, na frase poética de um de seus ensaios. Esse era o perigo das conjunturas assombrosas sobre as quais essa trindade intelectual escreveu. Esse continua sendo o perigo hoje, talvez de forma ainda mais crucial, dadas a dimensão e a terminalidade dos desafios diante de nós como coletividade humana, nessa grande transição, sobre os quais teremos que fazer escolhas e agir.

Toda transição tem um movimento inexorável, decorrente do deslocamento imprevisível das placas tectônicas da estrutura social. Mas sempre tem, também, largo espaço para o exercício de escolhas livres. A qualidade dessas escolhas definirá como se desenvolverão as formas emergentes para chegar à nova ordem social. No nosso caso, esses deslocamentos estruturais são provocados por grandes movimentos em permanente interação. A mudança sociopolítica, na qual a digitalização e a globalização radical da sociedade têm papel central. Dela decorrem as crises econômicas, levando aos limites o capitalismo financeiro globalizado e colocando em grave teste de stress a democracia representativa. A grande transformação científica e tecnológica em curso, que derruba paradigmas e abala convicções e certezas prévias. A mudança climática e a grande extinção de biodiversidade, de origem humana, mas que ameaçam toda a bioesfera da qual dependemos. Os sintomas mais claros da malaise de nossos tempos são o grau elevado de violência social, a sucessão de crises econômicas de alcance global, o desgaste da democracia representativa e o ressurgimento de posições extremadas ameaçando as sociedades, novamente, com polarizações radicalizadas.

Toda transição que nasce de processos disruptivos “adoece” momentaneamente a sociedade. Uma doença tão bem descrita por Herman Hesse, outro pensador das transições, em seu magnífico O Lobo da Estepe. “Há tempos quando uma geração inteira é apanhada entre duas eras, dois modos de vida, e dessa forma perde o sentimento para si do que é autoevidente, de toda a moral, segurança e inocência,” ele escreveu. A transição em processo cria imprecisão, incerteza, insatisfação e imprevisibilidade. É o que Zygmunt Bauman caracteriza como “tempos líquidos”.

A transição dá nova dimensão à questão existencial e ao humanismo e, mais que nunca, é necessário entender porque o existencialismo é uma das formas do humanismo, como Sartre ensinou. Ela põe, também, em relevo a persistência da opressão da mulher, ao mesmo tempo em que a cada dia, surgem novos ícones que mostram as várias faces do feminismo presente nesta segunda década do século 21, como a jovem afegã Malala, a paquistanesa Mukhtar Mai, a liberiana Leymah Gbowee, ou a queniana Masai Kakenya Ntaiya.

Na dimensão política, a transição confronta uma democracia que representa apenas “interesses especiais” e não é mais capaz de cobrir todo o espectro de forças sociais. A sociedade da transição é uma sociedade em rede, fragmentada e diversa, em busca de identidades e representação. A abrangência das redes sociais permitiu a formação, nesse contexto, do que tenho chamado de ágora social. Ela é mais ampla e representativa que o sistema político e ainda não encontrou os meios de se fazer a ágora política. Diante das evidentes limitações do processo político, ela transborda ocupando mais terreno público que aquele alcançado pela política tradicional. Ela diz não, mas ainda não encontrou a que dizer sim. A indignação típica desses tempos móveis e do agravamento das contradições no interior das ordens que se esgotam, antes que a nova ordem que a sucederá esteja totalmente visível, tem povoado essa ágora social que transborda. O pensamento de Camus sobre a indignação e a revolta é crucial para se entender esse transbordamento.

Nada é autoevidente, nada é inocente, os parâmetros morais estão ficando estreitos para os novos significados trazidos por esses tempos de mudança multidimensional e contradições entre processos que se dão contemporaneamente, mas não são historicamente coetâneos. A mobilização quase instantânea que as redes sociais permitem e a transmissão em tempo real da informação pela mídia social têm incendiado praças e ruas mundo afora. Mas essa indignação ainda não desenvolveu formas de revolta capazes de articular escolhas e demandas ao mesmo tempo disruptivas e transformadoras, capazes de criar novos modos políticos e sociais. A busca dessa revolta animou Camus em toda sua trajetória política e intelectual. Nesse seu centenário, reabilita-se um pouco seu rico pensamento. Ele certamente nos ajuda a enfrentar a doença de nosso tempo. Em certa medida, essa doença se explica pela “persistência dessa confrontação desesperada entre a interrogação humana e o silêncio do mundo”, como ele diz em O Homem Revoltado.

Camus foi e continua a ser desprezado pelos filósofos sistemáticos, à maioria dos quais ele também se opunha. Ele tinha formação acadêmica sólida. Escreveu uma interessante tese de doutorado sobre o avanço do cristianismo e o recuo do helenismo, explorando a relação entre Santo Agostinho e Plotino. Ganhou a vida como jornalista e escritor e considerava essencial escrever de forma que as pessoas entendessem, coisa que a filosofia sistemática parece incapaz de fazer. Em mais de uma vez, quando perguntado, negou ser um filósofo. Suas obras não ficcionais O Verso e o Reverso, O Mito de Sísifo e O Homem Revoltado são, porém, extraordinários ensaios filosóficos, embora jamais tenha feito a análise sistemática dos conceitos que manejava. Sartre, nesse sentido, sempre esteve mais dentro do papel-modelo do filósofo que ele. Seus romances O Estrangeiro, A Queda e A Peste constituem, também, importante obra literária, com evidente fundamento filosófico e político. O mesmo se pode dizer de suas peças teatrais, Calígula, O Mal-entendido (estas duas, junto com o ensaio O Mito de Sísifo e o romance O Estrangeiro, ele denominou de “ciclo do absurdo”), O Estado de Sítio e Os Justos.

Albert Camus foi uma referência muito importante na minha formação. Eram épocas de violência e absurdo, tudo que ele entendia e me ajudou a entender melhor. Sua reflexão me convenceu que não é possível combater a tirania com suas próprias armas. No meu romance O Pelo Negro do Medo, há muitas referências a seu pensamento, algumas diretas, outras nem tanto. Cito aqui uma dessas últimas: “Fomos todos corrompidos. Toda guerra é suja. Toda tirania total.” Devo a ele, também, ter superado o preconceito em relação à literatura de Jorge Amado. Não posso ser considerado um autor isento sobre Camus. Sua noção de revolta e a visão da revolta como uma forma de comunitarismo, de que quando alguém diz não à opressão ou à injustiça adota uma atitude que transcende sua individualidade e tem um significado coletivo, sempre foram centrais para mim, como valor existencial. Sempre me ative à sua ideia de que calar-se, é, em certos casos, nada desejar, recusar-se a ter vontade própria e a escolher livremente. Como ele, penso que é preciso revoltar-se sempre contra a mentira e a opressão.

Camus era de opinião que as pessoas esperam demais dos escritores. Tinha razão. O melhor é mesmo quando um escritor nos dá muito mais do que esperamos, como ele fez.

P.S. Desenvolvi o tema da grande transição em A Era do Imprevisto: A Grande Transição do Século XX

Pin It

Mais recentes

Mais Artigos

Back to Top