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Já não havia mais nada a fazer. Ele tinha no máximo mais três meses de vida. Chegara aos 86, lúcido, inspirador e sonhador, como se tivesse 16 ou 18. Deixou o hospital pela antepenúltima vez. Quis visitar um local novo da família que ainda não conhecia. Ficava na serra e era frio. Logo disseram que não era bom submeter-se ao frio, viagem de carro de quase três horas, poderia lhe fazer mal à saúde. Mas que saúde? A física não tinha mais. Só a mental e a da alma. A estas a viagem certamente faria bem. Felizmente, a voz do bom senso e do amor prevaleceu. “Nessa idade, em momento terminal, faz mesmo sentido tirar a liberdade da pessoa e proibi-la de escolher o que é melhor para ela? Principalmente se o desejo é bom em si?” Não faz. Ele fez a viagem, viveu momentos de grande prazer e, como sempre, inspirados. Alguns meses depois se foi.

Essa história, real em todos os detalhes, me veio à lembrança lendo matérias sobre a liberação pela Justiça da fosfoetalonamina para tratamento de câncer, para pacientes em estado terminal. Desenganados. Todos os argumentos contra a liberação do medicamento, sem testes mais detalhados em humanos, para tratamentos regulares fazem sentido. Mas para pessoas com câncer, em condições de ainda serem tratadas, com boas chances, por quimioterápicos testados e aprovados. A liberação vai estimular o charlatanismo. A eficácia ainda não foi comprovada. Não há segurança para os pacientes. Não há informações sobre efeitos colaterais, interações medicamentosas, riscos. Já se acreditou na cura por plantas, ervas, raízes. São todos argumentos perfeitamente válidos, se estivesse em pauta a liberação para uso regular de medicamento ainda não aprovado. Se bem que a discussão sobre o canabidiol mostra que a avaliação no Brasil nem sempre é puramente científica, envolve impróprios julgamentos de valor, com grandes prejuízos para o bem-estar das pessoas. Mas o que se discute é o uso de um medicamento para câncer, por pacientes desenganados, que já esgotaram as possibilidades das terapias convencionais. E, diga-se de passagem, as mais novas são caríssimas, nem estão ao alcance da maioria. Pacientes que vivem a morte anunciada, em desespero e agonia, buscando agarrar-se a qualquer fiapo de esperança. Que efeito colateral poderá agravar algo que já não tem remédio? Como aplicar a ideia de risco para alguém que tem certeza absoluta de que vai morrer, se não ocorrer algo inesperado, perto de um milagre? Alguma nova droga pode surgir, de um dia para outro? Claro que pode. Custará dezenas de milhares de dólares e sua disponibilidade será limitadíssima. Quantos desses pacientes terminais que obtiveram autorização para usar a fosfoetalonamina teriam acesso a esse inesperado tratamento?

Uma pessoa com algumas semanas ou poucos meses de vida, já prisioneira de um leito de hospital, ou no quarto de sua casa, apenas aguardando o desfecho inevitável, não tem o direito de recorrer a um charlatão? A tomar um placebo que lhe traga conforto psicológico e talvez fugaz sensação de bem-estar? A recorrer a um medicamento que, em testes laboratoriais, publicados em revistas “peer-reviewed”, levou à regressão de tumores malignos? Um amigo meu, fervoroso crente na ciência, que jamais mostrou qualquer inclinação religiosa, já na fase terminal de um câncer vertiginoso, consultou-se com pai de santo e com um espírita que faz cirurgias espirituais. A gente tenta de tudo, quando chega a esse ponto, explicou. Nunca perdeu a esperança, embora soubesse que perderia a vida com brevidade.

Sou rigorosamente favorável ao que chamo de “absoluta liberdade terminal”. Pessoas em estágio terminal, desenganadas, com a morte anunciada pela medicina devem ter absoluta liberdade de escolha sobre o que fazer, tratar-se ou não, ter a vida artificialmente prolongada ou não. Devem poder fazer o que quiserem e o seu físico em esgotamento permitir. Não se nega a pessoas nessas condições o doce sabor do placebo, a última golfada de ar fresco, a última noite de frio, o último passeio, o raio de esperança que antecede a visita do anjo da morte.

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