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Pesquisa Nacional de Valores, da Crescimentum/Barret Values Center, encomendada ao Datafolha e publicada pela Folha de são Paulo, revela descompasso entre os valores dos brasileiros e a percepção dos valores da cultura brasileira. A cultura nacional estaria marcada, na visão dos entrevistados, pela corrupção, violência e criminalidade, pobreza, agressividade, poluição, analfabetismo, burocracia, discriminação racial, incerteza sobre o futuro e desperdício de recursos. Mas os pesquisados vêem como seus valores amizade, alegria, humildade, família, respeito, confiança, paciência, aprender sempre e coragem.

Em outras palavras, os brasileiros não se reconhecem na realidade cultural em que vivem. Todavia, a cultura é socialmente produzida. É resultado da nossa vida coletiva, de escolhas coletivas. Cultura é um artefato social, produto de nossas relações e interações interpessoais e grupais. Esse não reconhecer-se na sua própria cultura e realidade social mostra um quadro de dissonância cognitiva. Pode significar também uma situação de negação. A realidade parece tão hostil, que é melhor nega-la a enfrenta-la.

A pesquisa mostrou também nítida desconexão entre a visão que as pessoas têm da cultura nacional e o que desejam para ela. Os desejos são cuidados com a saúde, justiça, paz, oportunidade de emprego, cuidado com os idosos, oportunidade de educação, qualidade de vida, cidadania, compromisso, honestidade. Essa é a imagem do que se pode chamar de boa sociedade. Ela é justa, solidária, oferece qualidade de vida e cidadania e é aberta ao progresso pessoal e à proteção dos mais frágeis.

Há uma notícia má e outra boa nesses dados. A má é a divergência entre a percepção de si e a percepção da sociedade à qual se pertence. Quanto maior esta distância, maiores a frustração, o desencanto e o desalento. A boa notícia é que as respostas sobre os valores pessoais e os valore desejados para a cultura nacional revelam a possibilidade de um projeto coletivo de bons cidadãos e boa sociedade. Um projeto cívico. Faltam apenas os mecanismos de mobilização e tradução desse projeto em prática política coletiva.

Alguns itens chamaram particularmente minha atenção. Entre os valores pessoais, a referência à tríade confiança/paciência/coragem pode indicar a autopercepção de que esse desencontro entre desejo e realidade torna as pessoas resilientes, pelo menos na imagem ou avaliação que fazem de si mesmas. A menção à confiança me deixou com alguma dúvida. No World Values Survey, outra pesquisa importante sobre valores que tem cobertura global, os brasileiros aparecem com os maiores índices que concordam que não se pode confiar muito nos outros.

Nos valores culturais desejados para a sociedade, o par de oportunidades, emprego e educação, indica maior consciência das condições reais de vida na sociedade em transição na qual vivemos. As oportunidades estão menos disponíveis, por erros graves e seriais de políticas públicas e porque a estrutura social e econômica está em mudança, acelerada por uma revolução científica e tecnológica muito radical. Trato dessa mutação em A Era do Imprevisto, onde discuto, também, a hipótese do sociólogo Ulrich Beck de que essa transição gera uma situação de risco, na qual as pessoas estão por conta própria. As limitações fiscais do estado, a ideologia da austeridade, o individualista consumista exacerbado e a redução da eficácia da rede de proteção social, que não cobre as situações emergentes a se multiplicar, deixa as pessoas por sua própria conta. Um quadro de insegurança na qual cada um tem que administrar e enfrentar pessoalmente e só os riscos postos pela sociedade.

Finalmente, a percepção de que na cultura atual há muita incerteza sobre o futuro está correta, mas não é um traço cultural apenas brasileiro. É global. A transição produz incerteza generalizada, insegurança e medo. As pessoas têm razão em valorizar a coragem e a capacidade de aprender sempre. São mesmo valores essenciais para se fazer essa longa travessia do século 21.

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