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Vivemos vários paradoxos no Brasil. Um presidente rejeitado por 70% da população, denunciado por corrupção pelo Procurador Geral da República, consegue manipular a liberação seletiva de emendas, mudanças de legislação e regulação que beneficiam setores específicos e nomeações para obter votos suficientes contra a autorização da Câmara dos Deputados para que a Suprema Corte o processe. Não há reação popular. Não há mecanismos institucionais que assegurem que o processo judicial, na sua fase de autorização política, seja protegido de manobras espúrias. Estas, começaram com a troca de cargos na Comissão de Constituição e Justiça, regimental, mas imprópria e, no caso, ilegítima. Com apenas 5% de aprovação, esse presidente deveria estar assistindo à dispersão de sua coalizão. E, no entanto, mantém-se com o apoio da maioria. É verdade que teve dificuldade para garimpar os votos que lhe deram a maioria. Pagou pedágio até o último momento, com seus operadores atuando no fundo do plenário, com o cardápio de ofertas aberto.

A população não está satisfeita, nem tranquila: 70% acham o governo ruim ou péssimo; 83% desaprovam a maneira de governar do presidente Michel Temer; 87% não confiam no presidente; 65% não acreditam que o governo possa melhorar; 80%, em média, reprovam o governo em todas as áreas de atuação. O índice de expectativas do consumidor está 8,9 pontos abaixo da média histórica. O medo do desemprego está 15,7 pontos acima da média histórica e o desemprego, embora em queda, ainda é de 13%. Quando perguntamos a qualquer pessoa como vão as coisas, elas mostram insatisfação generalizada com o estado de coisas no país. A maioria absoluta está indignada com a corrupção, apóia a Lava Jato e as outras investigações de atos ilícitos de políticos, profissionais públicos e privados e empresários. Todos se irritam com declarações como a do ministro da Justiça de que faltarão recursos para as investigações e que elas passarão a ser seletivas. Com razão ficam irritados. Investigação seletiva levanta suspeita de interferência indevida, viés político na escolha de quem e do que será investigado.

Entre os fatores do apoio parlamentar ao presidente, cuja impopularidade deveria estar promovendo a fuga de todos de sua coalizão, é a expectativa de que o processo judiciário possa ser limitado, para livrar os chamados agentes políticos das punições que se avizinham. Uma parte da coalizão não é politicamente articulada para apoiar políticas públicas — reformas incluídas — ou para ter poder e influência. É apenas um conluio construído com base nessa expectativa de controlar a Lava Jato.

Onde o paradoxo, além desse apoio parlamentar a um presidente rejeitado pela sociedade? As ruas estão vazias e silentes. A indignação pessoal não se coletiviza. A conversa entre pessoas, na escola, no trabalho, em casa, nas rodas de amigos e conhecidos ou nas redes gira trata dessa contrariedade. As pessoas estão informadas, descontentes, zangadas. Mas, a conversação face a face ou nas redes, embora reflita esses sentimentos, não ultrapassa os limites do privado. Não vai para o espaço público. Não se transforma em movimento.

Nas pesquisas de desemprego, costuma-se chamar de desalento aquele estado de espírito no qual a pessoa de tanto procurar trabalho e ouvir o clichê "não temos vagas", deixa de tentar se empregar. Desanima. Entrega-se. Creio que se pode descrever esse quadro de indignação privada que não se transforma em protesto público como de desalento político. Vivemos uma situação em que a desesperança paralisa e gera o sentimento de que nada se pode fazer para mudar esse quadro. Não há estímulo para manifestações expontâneas de protesto. Não há lideranças legítimas, capazes de mobilizar politicamente o descontentamento. Os setores organizados estão divididos. Quando vão às ruas, defendem bandeiras antagônicas. Foi o que se viu durante a votação do pedido de autorização para processar o presidente. Eram bandeiras que traziam a marca das organizações. Não era o povo nas ruas. Parte dos movimentos nascidos das mobilizações de 2013 adotou posturas ideológicas que não têm correspondência com o pensamento e os desejos da maioria.

Esse é o pior cenário. Uma sociedade que se rende ao fatalismo e se radicaliza pelos extremos. Polariza-se e fratura-se. O efeito não é apenas a preservação do statu quo, ou a radicalização polarizada, mas a fragmentação da sociedade e a busca de proteção no individualismo absoluto. Proteger-se é instintivo. O individualismo, o cada um por si, na sociedade contemporânea, é uma forma de proteção eficaz, de baixo custo de oportunidade e perfeitamente conforme aos padrões sociais dominantes. É uma forma de darwinismo social. Mas a versão do cada um por si da sociedade em transição que vivemos é de um darwinismo social muito mais agressivo e tóxico. Muito diferente do individualismo possessivo do liberalismo do século 20. A ideologia dominante da transição é de uma sociedade de indivíduos por conta própria, sós na sua precisão e na sua viração. O individualismo possessivo foi a ideologia dominante do século 20, mas, contra ela se interpuseram várias vertentes do comunitarismo, do coletivismo, do cooperativismo e da social democracia. Forçaram o sistema político a reconhecer a necessidade de uma rede de proteção social estendida. Por isso, liberalismo individualista e possessivo não pôde impedir as políticas de proteção social mínima nos Estados Unidos, nem os avanços social-democratas na Europa, mesmo com a reação ultraliberal de Reagan e Thatcher. O individualismo atual, que está construindo uma sociedade de indivíduos por conta própria, é mais arriscado e gera muito mais insegurança coletiva. Por conta própria, nessa transição e até que se definam os parâmetros das novas sociedades do século 21, como argumentei em A Era do Imprevisto, significa "sua vida, seu risco". No popular, vire-se sozinho, em qualquer circunstância. As correntes que poderiam fazer-lhe frente não se atualizaram e já não têm a eficácia política que tiveram no passado.

Essa rendição à proteção do individualismo absoluto, do "dane-se", do "não é comigo", deixa a todos vulneráveis. No Brasil, já há uma parcela da sociedade propensa a esse cada um por si. Mas ainda é mais numerosa aquela outra, que continua a imaginar que "de repente aparece alguém que resolve tudo". Esse "alguém" que justifica não agir coletivamente refere-se a um líder, um juiz, um general. Em outras palavras, significa admitir, ainda que inconscientemente, a esperança de que uma pessoa especial possa mudar tudo e o desejo de ser guiado, de submeter-se à autoridade dessa liderança idealizada. Nada mais tóxico para a democracia e mais fatal à solidariedade coletiva do que essa combinação entre o individualismo radicalizado e a inclinação de transferir a responsabilidade pela mudança a uma única pessoa idealizada. Ainda mais em um contexto de crise de confiança na democracia representativa.

Mas há um cenário alternativo possível. Nele, essa calmaria tem mais a ver com o estupor geral diante da magnitude da crise. O que ficamos sabendo diariamente é tão devastador, o poder da máquina clientelista corrompida do governo é tão descomunal, que ficamos paralisados. Sem conhecer bem o poder de uma sociedade nas ruas, ou por descrer desse poder, a tarefa parece fora do alcance das mãos de cada um de nós. Tudo é grande demais para cada um, pessoalmente, se dispor a ir ao combate. Dá apenas para se virar por conta própria. Ou, se não der, resta esperar que alguém mais capaz assuma essa missão. Mas, a crise não é necessariamente feita de supertempestades episódicas com efeitos catastróficos. Ela vai afetando o nosso cotidiano, ela agride diariamente nossos esforços para atender a nossas necessidades e realizar nossos desejos. A polícia não dá segurança, a escola não funciona, o hospital e os postos de saúde estão abandonados, o preço do ônibus e do metrô aumentam. Descobre-se que lideranças em que muitos confiaram estão envolvidas em redes de corrupção. Essa sucessão de disfuncionalidades se agrava com o descaso dos governos, em busca de manter o mandato a qualquer custo, agradar seus financiadores e suas clientelas específicas. Esses eventos têm escala para que a ação coletiva específica dê algum resultado. Foi por causa dos efeitos no dia-a-dia dessas falhas que o povo foi para as ruas em 2013. E quando a rua se levanta com autenticidade, ela produz mudanças que, em geral, vão além das demandas difusas que levaram milhões às ruas, cada pessoa com sua própria cesta de razões para se indignar com o que anda acontecendo no país, nos estados e nas cidades.

Este cenário alternativo não prevê um tsunami social, mas uma sucessão de ondas muito fortes de indignação e revolta. O momento de ocorrência e a magnitude dessas ondas têm se mostrado imprevisíveis em todo o mundo. Mas, sabe-se que podem produzir um quadro novo, que altera profundamente a conjuntura. Em um cenário desses, um governo sem legitimidade, rejeitado pela maioria, não teria condições sustentadas de governabilidade.

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