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Vivemos uma transição global, que embaralha a vista. As estruturas com as quais atravessamos a história do século 20 e do início do século 21 estão ficando disfuncionais. Não têm respostas eficazes para os problemas que afligem o mundo. Há estruturas emergentes, mas estão ainda tão pouco desenvolvidas que fica difícil percebê-las e buscar meios de acelerar seu desenvolvimento. E isto não acontece só na sociedade, na economia e na política. Veja-se a medicina, já estão em curso transformações científicas e tecnológicas que apontam para caminhos terapêuticos inteiramente novos, para males que a medicina que conhecemos bem jamais conseguiu enfrentar com inteira eficácia. Mas elas ainda são experimentais ou tão caras, por não estarem inteiramente desenvolvidas e disseminadas, que pouco servem à maioria daqueles que já poderiam se beneficiar delas. São a esperança dos que dela necessitarão no futuro e uma miragem para quem sofre hoje. Na sociedade, na economia e na política, estamos um passo atrás. Essas soluções inovadoras inexistem ainda.

O resultado é que, em qualquer parte do mundo democrático, onde há eleições minimamente livres e competitivas, o voto tem sido guiado mais pela insatisfação, pela indignação e pela perplexidade, do que por qualquer motivação afirmativa. Na Espanha, as eleições têm sido inconclusivas, há várias rodadas penduradas entre manter os velhos e inoperantes partidos, à esquerda e à direita, PSOE e PP, ou entregar o poder aos parcialmente novos, Podemos e Ciudadanos. Os quase-novos ameaçam os totalmente velhos, mas não chegam a completar o processo de mudança. São novos no modo de fazer política, são partidos digitais, de rede e de rua. São novos no debate de questões que acabaram de entrar na agenda coletiva, mas velhos nas soluções para os problemas estruturas da economia e da sociedade. Os outros são analógicos, de esquemas e comícios. Obsoletos na forma e no conteúdo. Nenhum deles atende às inquietações do povo. Não há demanda clara, nem oferta compatível.

Certo, teve o triunfo de Macron. Mas, o que Macron representa melhor senão a ambiguidade do presente, a ambivalência das buscas. Ele nem é bem esquerda, nem é bem direita. Centro, como sabemos, nada define de substantivo, é apenas o ponto relativamente equidistante entre os extremos. Como os extremos são velhos, ainda que emerjam como novidade, no caso da extrema-direita ultranacionalista, o novo acaba sendo apenas o que não se identifica completamente com nenhum dos polos obsoletos. A novidade de Macron é essa ambivalência. Ser conservador em algumas questões, liberal em outras, progressista (ou socialista) em outras. No conjunto, difícil imaginar que construa uma identidade e uma narrativa que tornem seu movimento durável. Vivemos a era da ambiguidade política.

Na Itália, o 5 Stelle, que começou quase como piada, é ambíguo, tem uma agenda confusa, indecisa entre esquerda e direita. Vira a preferência dominante, porque encaixa nas dúvidas dos eleitores, não porque lhes dá respostas. Mas, entre as opções surradas e ineficazes do passado, esse lusco-fusco de ideias parece menos pior. O colapso do Partido Democratico, de Matteo Renzi, nas eleições de 4 de março, era esperado exatamente porque, no governo, ele foi se mostrando igual às velhas agremiações social-democratas e socialistas da Europa e da própria Itália. Ascendeu parecendo que era novidade. Caiu porque era mais do mesmo. Perdeu a ambiguidade da origem. O eleitor, sem referência boa, anda atrás do nem-nem, nem uma coisa, nem outra, nem a velha esquerda, nem a velha direita. O 5 Stelle parece surpreendentemente consciente desse seu papel de nem-nem. O escritor Fulvio de Sanctis explica desta forma seu bom desempenho eleitoral — que pode até lhe dar a chance de tentar formar um governo de coalizão — “em um país cansado e sem ilusões, o 5 Stelle aparece como preferível a todas as outras”. Tipo assim, ele é a opção que corresponde a nenhuma das alternativas acima. “Sobre a Europa ou a imigração, eu nunca compreendi a posição deles. Mas essa ambiguidade talvez explique porque eles conseguem votos à direita, à esquerda e entre os absenteístas”, conclui. De Sanctis captou o fenômeno geral, em sua manifestação local.

A esquerda não consegue livrar-se de suas velhas ideias, defende categorias que estão definhando, prefere pôr em risco a democracia, a buscar compreender suas próprias falhas. Na Europa e nos Estados Unidos, pelo menos, os eleitores estão pedindo soluções para os problemas do século 21. As posições mais conservadoras avançam, porque deixam, por oportunismo, que se fixe a ideia errada de que a migração está por trás do desemprego, da crise fiscal e do desempenho resfolegante da economia. Conseguem vender a repulsa ao estrangeiro, como solução para o fracasso doméstico. A esquerda, aponta para causas já inoperantes, ou redefine o novo, para caber nas suas velhas categorias, não tem respostas convincentes nem para o desemprego, nem para a imigração.

Na América do Sul, só se luta contra o passado, sem olhar para o presente ou o futuro. A Colômbia, trava agora eleições, cuja agenda é dominada por uma agenda velha de décadas. O centro das atenções é para a dúvida se a democracia pode absorver as FARC e se as FARC são capazes de absorver a democracia. Pela esquerda, os candidatos que parecem mais promissores são mais contra tudo, mas a favor de soluções já historicamente inoperantes. Os da direita são a favor de um statu quo que a maioria rejeita. Daí o grande absenteísmo eleitoral. A direita latino-americana continua a investir contra os moinhos ameaçadores do estatismo, mesmo diante da inequívoca crise fiscal do estado. Parece não saber o que pôr no lugar, além de uma idéia tão idílica do mercado, quanto é utópica a crença da esquerda no estado. Uns não vêem as trágicas falhas do mercado. Os outros não vêem que o estado é e sempre será um aparato de dominação elitista. As ideias continuam for a do lugar.

Essa era da ambiguidade política é, evidentemente, uma ameaça à democracia. A esperança é que o sentimento de repúdio às instituições cansadas e à representação oligarquizada, tanto à esquerda, quanto à direta, leve à renovação da democracia. Sua inclusão na revolução científica e tecnológica e que gere pluralidade de soluções para a ambiguidade que nos levem, no futuro, da escolha nem-nem, para escolhas mais afirmativas de novos paradigmas sociopolíticos, ou ideológicos, em sintonia com as angústias reais dos cidadãos e capazes de oferecer novas soluções estruturais que nos livrem do statu quo em decomposição.

 

Este artigo foi publicado originalmente no Blog do Matheus Leitão no G1.

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