• face
  • twitter
  • in

O ano de 2018 será um ano de domínio da política e, por isso mesmo, de incertezas e turbulências. Vivemos globalmente a era do imprevisto. O ano que se aproxima será um representante legítimo desses tempos de brumas espessas. As pessoas estão descrentes e desencantadas com a politica, em todas as democracias do mundo e na nossa em particular. O presidente Temer, pilotando um governo muito ruim, sonha que a economia o salvará da impopularidade e permitirá que interfira na economia para eleger alguém de sua preferência. Nesse cenário de Poliana, imagina que a maioria aprova seu governo em silêncio, constrangida por essa conversa de corrupção prá lá e prá cá. Isso apesar dos 97% de reprovação, apurados pelo Barômetro Político Estadão-IPSOS, da impopularidade de 74%, medida do Datafolha registrando os que consideram seu governo ruim ou péssimo, ou dos 88% de desaprovação à maneira como governa. É improvável que a corrupção seja esquecida na campanha e nas urnas. Ou que o governo tenha bom desempenho eleitoral.

A incerteza em 2018 não ficará por conta de Temer, mas de Lula. Temer, muito provavelmente, definirá apenas o campo da rejeição absoluta. Os candidatos identificados com ele terão muita dificuldade para conquistar uma fatia competitiva do eleitorado. É a presença ou ausência de Lula que definirá o cenário eleitoral. Se ele entrar na disputa, clareia o quadro. Define um polo e os outros candidatos se arrumarão em referência ao lulismo. Se for para o segundo turno, o que é muito provável neste cenário, torna mais incerto o panorama da governabilidade. É que sua candidatura e sua posse serão objeto de contestação judicial, principalmente se o TRF-4 mantiver a sentença do juiz Sérgio Moro que o condenou. Se a confirmação for unânime, há pouco espaço para apelação e Lula pode ser enquadrado na lei da ficha limpa.

Se registrar a candidatura, ela estrutura a competição e é provável que leve à repetição da polarização usual entre PT e PSDB. Lula tende a repetir o desempenho que teve em 2006, no Nordeste e em Minas Gerais, pelo menos. Neste caso, ele teria uma base de votos para leva-lo ao segundo turno, de 25%-30%. Não estou considerando intenções precoces de voto, mas estimando o potencial de saída de Lula, em relação a sua votação nos principais colégios eleitorais, em 2006, quando venceu Alckmin. Este, se for o candidato do PSDB, como tudo indica, teria um patamar em, torno de 18%-20%, se repetir sua votação em São Paulo e no Sul. Os dois poderiam, a partir de seus respectivos patamares iniciais, chegar ao final do primeiro turno somando algo como 55%-60% dos votos.

Sem Lula, a competição se desestrutura. Nenhum outro candidato tem essa capacidade de separar com clareza os campos eleitorais. Nesse caso, aumentam as chances de um segundo turno entre dois candidatos que somariam menos de 50% dos votos. Isso só aconteceu, na Terceira República, em 1989, uma eleição muito fragmentada e competitiva. Collor e Lula somaram 47,6% dos votos no primeiro turno. Em outras palavras, disputaram, no segundo turno, 52,4% dos votos dados a outros candidatos. Os cinco candidatos mais votados depois deles, somaram 41,6% dos votos. Em 2010, os dois primeiros candidatos somaram 80% dos votos no primeiro turno e, em 2014, 75%.

Os sete candidatos mais bem votados em 1989 eram mais conhecidos nacionalmente do que os possíveis candidatos deste ano. O único conhecido de todo o eleitorado, hoje, é Lula. Mesmo o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, é pouco conhecido. Depois da eleição de 2006, ficou confinado ao estado de São Paulo e teve exposição nacional esporádica e de pouca repercussão efetiva. Um cenário de fragmentação em 2018, pode levar a um segundo turno no qual os candidatos terão que disputar entre si e com a recusa eleitoral (nulos e brancos) algo como 60% dos votos. As regras são muito diferentes das de 1989 e a eleição é geral. A eleição de 1989 foi singular, solteira, apenas para Presidente da República. O marco legal de hoje é mais restritivo à competição, tem mais barreiras à entrada para os novos partidos e candidatos. É mais difícil a um candidato de fora do núcleo central de partidos tradicionais disparar e se tornar favorito. Pode acontecer, mas é o cenário menos provável.

As eleições parlamentares têm mais barreiras ainda à entrada. Se o eleitorado rejeitar, como parece que fará, os candidatos à reeleição para a Câmara e o Senado, o mais provável é que eles sejam substituídos por outros candidatos, menos conhecidos e, por isso, menos depreciados. Mas as oligarquias se manterão no domínio do Legislativo. A menos que um tsunami varra as urnas e produza resultados totalmente imprevistos, derrubando as barreiras à entrada, e abrindo espaço para a real renovação da política.

Um tsunami de indignação e recusa e que leve novos entrantes na arena eleitoral à Presidência e ao Congresso, como aconteceu na França com Immanuel Macron, seria o "cisne negro". Sairia de campanhas nada convencionais, que prescindiriam do tempo de TV e rádio e do orçamento das produções marqueteiras. A expressão "Cisne Negro", com essa acepção é do matemático e analista de risco Nassim Taleb. São, segundo ele, eventos que têm três atributos. Primeiro, são fora da curva, isto é estão fora do campo das expectativas regulares, porque nada na experiência passada aponta para a possibilidade de que venham a ocorrer. Segundo, têm impacto muito alto, Taleb fala de impacto extremo. Terceiro, apesar de estarem fora do nosso campo de visão, eles podem ser explicados depois de sua ocorrência, ou seja, não são acidentes, ou singularidades, respondem a fatores causais reais.

O resultado esperado de um quadro de desalento, indignação e rejeição de políticos como o que as pesquisas mostram no Brasil não é essa busca da renovação. Em outras palavras, não é comum que esse sentimento negativo disseminado leve a escolhas convergentes, que elejam outsiders, novatos na política. O resultado esperado desse estado de espírito coletivo é a recusa eleitoral, a abstenção. Mesmo a busca do novo, ou do diferente, leva, mais comumente, a escolhas fragmentadas, não a um voto convergente, que produz um favorito inesperado. Em síntese, uma convergência dessas pode acontecer, mas nem dá para calcular a probabilidade dessa surpresa ex ante, antes que ocorra.

Pin It

Mais recentes

24 Out 2017
28 Nov 2016
04 Mar 2016

Mais Artigos

Back to Top