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Não sou muito afeito a analisar pesquisas de intenções de voto, antes que as candidaturas se firmem. Mas, acaba sendo inevitável ter algo a dizer, já que elas formam opiniões e influenciam análises, sempre tão transitórias e fugazes como elas próprias e as intenções de voto que registram, com tanta antecedência. Alguns resultados na última pesquisa do Datafolha me chamaram mais a atenção. Se as eleições fossem hoje... Mas, fiquemos atentos, não serão.

O primeiro ponto, é a relativa estabilidade, desde abril, das intenções de voto na pesquisa espontânea. É uma indicação, talvez, de ausência de fatos que alterem as vagas impressões do eleitorado, ainda alheio ao processo pré-eleitoral. Nessa estabilidade, o que me parece mais interessante é que, na média das quatro últimas pesquisas, 67% dizem que votarão nulo, branco ou não sabem em quem votarão. Na última pesquisa, foram 65%. Um quadro que me parece mais realista, comparado ao que emerge quando as pessoas são estimuladas a escolher um nome da lista que lhes é dada. Nesse caso, o percentual cai para 15%, na "Situação C", que nomeia os que já se apresentam como pré-candidatos e que me parece um simulacro mais próximo do que pode vir a ser o quadro de candidaturas oficiais, na hipótese de Lula manter-se candidato.

O segundo ponto que me chama atenção é o movimento das intenções de voto, entre as respostas espontâneas e as estimuladas. As preferências por Lula mais que dobram, de 17% para 37%, ou 20 pontos percentuais. Para Bolsonaro, sobem de 11% para 18%, 7 pontos. Para Marina Silva saltam 9 pontos percentuais, de 1% para 10%. Para Ciro Gomes e Geraldo Alckmin sobem de 1% para 7%, 6 pontos. Não são dados que sustentem muita interpretação. Mas, olhando apenas para o movimento dos percentuais, fica a impressão de que Lula tem um eleitorado fiel de base, que o aponta espontaneamente como sua escolha, mais ou menos do tamanho daquele que o levou ao segundo turno contra Collor, em 1989. Quando o entrevistado é confrontado com o nome dos candidatos, as preferências por Lula ficam um pouco acima da votação que obteve no primeiro turno contra Fernando Henrique Cardoso, em 1998. Mas, abaixo de sua votação no primeiro turno das eleições que venceu, em 2002 (46,4%) e 2006 (48,6%). Como Lula é conhecido de todos os brasileiros, foi presidente por oito anos, esses resultados podem indicar seu potencial atual de voto fiel, que estaria na casa dos 35%.

Terceiro, olhando as respostas espontâneas, Lula tem 12 pontos de indicações no Nordeste acima de sua média nacional. A diferença entre Nordeste (29%) e Sudeste (10%) é de 19 pontos. Essa diferença persiste nas respostas estimuladas. São 20 pontos a mais nas menções a Lula no Nordeste (56%) em relação à média nacional (36%), e 29 pontos, em relação ao Sudeste (27%). Aparentemente, o eleitorado firme de Lula se concentra, hoje, no Nordeste. Não é pouco ter, de saída, perto de 60% de 27% do eleitorado. Mas não é suficiente. O outro candidato que mostra tendência de concentração do eleitorado é, óbvio, Geraldo Alckmin. Ela só aparece, porém, nas respostas estimuladas. Ele tem 6 pontos a mais de menções no Sudeste (13%) que na média nacional (7%), praticamente o dobro. Muito provavelmente, porque tem um grau de apoio em São Paulo, similar ao de Lula no Nordeste. São Paulo tem 22% do eleitorado nacional e 51,6% do eleitorado do Sudeste. Faz diferença. Infelizmente, ainda não há dados de intenções de voto para presidente para São Paulo. Alckmin, tem menos 5 pontos nas preferências no Nordeste (2%), em relação à média e 11 pontos de diferença com o Sudeste. O Nordeste será seu maior desafio.

Volto a dizer, pesquisas pré-eleitorais, a essa altura do processo, dizem muito pouco sobre o que realmente ocorrerá. Os desvios entre as pesquisas a praticamente um ano das eleições, sem candidatos oficiais e com exposição muito desigual na mídia, e o resultado eleitoral têm sido significativos. Mas, com todas as reservas, minha impressão é que, em um cenário com Lula disputando, estamos caminhando para uma situação do tipo "mais do mesmo", com alta probabilidade de um segundo turno entre PT e PSDB. Lula, com a maioria do voto do Nordeste e Alckmin, com a maioria do voto de São Paulo, são favoritos ao segundo turno. Isso, diga-se, tudo permanecendo como está, se não houver percalços e imprevistos ao longo da campanha. Se as eleições fossem hoje... Uma condicionalidade frágil, baseada em uma imobilidade improvável e uma abstração irreal. Entre hoje e as eleições é quase certo que teremos muitos percalços e imprevistos.E as eleições, definitivamente, não serão hoje.

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