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A questão central na crise do PSDB não é a destituição do senador Tasso Jereissati da presidência do partido. É o fato de que o partido manteve o poder de Aécio Neves para que pudesse reocupar sua presidência quando quisesse e que tenha acatado sua decisão como legítima e válida. O senador Aécio Neves é o presidente do partido, porque o partido o mantém como tal. O senador, autorizado pelo conjunto do partido, usa a licença conveniente, que interrompe quando deseja, para fazer o que é de seu interesse. É assim, porque a cúpula tucana permitiu que seja assim. O senador Aécio Neves e o presidente Michel Temer adotaram a mesma atitude depois que foram blindados politicamente pelo Congresso. Estão fora do alcance da justiça e da lei. Temer vai interferindo nos mecanismos de investigação do Executivo, afastando-os progressivamente dos objetivos da ação contra a rede de corrupção política. Aécio Neves age em concerto com Temer, para manter o PSDB atrelado ao governo, cuja prioridade é salvar a própria pele. Prioridade para valer só existe uma. Os outros objetivos são subordinados a ela. O resultado para ser a politização e a peemedebização da Polícia Federal. O senador está "governamentalizando" e peemedebizando o PSDB. Vai se estendendo um manto de proteção para imunizar o presidente, o senador, os ministros e numerosos parlamentares.

O senador Tasso Jereissati fez parte da produção de sua própria destituição, ao alinhar-se ao lado de Aécio Neves no levante do Senado contra a decisão profilática do Supremo Tribunal Federal de afastamento do senador do mandato. Antes disso, ele e as demais lideranças do PSDB, mantiveram o poder Aécio, ao não afasta-lo da presidência do partido, quando surgiram evidências indesmentíveis de acertos impróprios com um agente corruptor. O senador Tasso era uma peça inconveniente para Aécio e Temer no comando temporário do partido, quando se articulam as convenções regionais de 11/11, e a convenção nacional de 9/12. O PSDB já perdeu a oportunidade de afastar-se do governo com algum brio.

A pemedebização da Polícia Federal está se procedendo diante de inesperado silêncio da corporação, sempre ciosa de sua autonomia. O delegado Fernando Segóvia parece ter currículo à altura do cargo de Diretor Geral da Polícia Federal. Mas, o seu atributo mais comentado é o de ser mais "político" do que seu antecessor. Como todos sabemos, "político" é um termo com muitas acepções, das mais técnicas às mais vulgares. Quase sempre se contrapõe ao termo "técnico". Ser "mais político" frequentemente significa ser "menos técnico". Todos sabemos, também, que, no caso, "político" está sendo usado na acepção de "jeitoso", "flexível", "negociador", aquele que busca soluções de compromisso. Pois este é, precisamente, o atributo menos recomendável para dirigir a Polícia Federal, no momento em que as investigações sobre a vasta rede de corrupção política, que ainda está para ser totalmente desvendada, estão sob ataque no Congresso, no Executivo e no Judiciário. Seria o momento de ser mais "técnico" e menos "político". A imprensa dá como certa a indicação por Segóvia do delegado Sandro Avelar, que concorreu à Câmara Federal pelo PMDB, para o cargo central de diretor-executivo da Polícia Federal. O delegado pode também ser qualificado para o cargo. Mas, certamente, a vinculação com o PMDB, partido-pivô da rede de corrupção sob investigação, é mais que inconveniente para o ocupante do segundo cargo da hierarquia da corporação. É negativo para a Polícia Federal e para os próprios delegados que a narrativa dominante sobre as nomeações para a direção da corporação dê como altamente provável que elas tenham sido tomadas à revelia do ministro da Justiça e acertadas por um grupo de pemedebistas sob escrutínio judicial, não só por suposto envolvimento na rede de corrupção política, mas por indícios de concertação para obstrução da justiça. A nova gestão começa tisnada por uma narrativa de indesejável interferência partidária e motivações discutíveis de políticos que teriam influído na sua escolha.

Para quem acredita que a investigação sobre a rede de corrupção política não passe de uma trama de um grupo de magistrados, procuradores e delegados com uma agenda política que objetiva destruir a república, avançando sobre os dois principais partidos do eixo do poder e sua cúpula, nada disso tem importância. Mas, para quem considera que há evidência abundante a justificar investigação com independência, rigor e inflexível determinação de chegar à verdade dos fatos e punir os culpados, tudo isso é muito grave. Esses atos refletem uma evidente deterioração institucional e comportamental do modelo republicano brasileiro. O modelo político, que tem peças que funcionam bastante bem no conjunto, mostra claras falhas operacionais e um perigoso processo de fadiga institucional.

Não é razoável imaginar que tudo vá bem com nosso modelo político-institucional, diante do colapso fiscal político e moral em estados da importância do Rio de Janeiro. Não pode ser considerado funcional um modelo que permite o grau de impunidade e discricionariedade com que autoridades federais e estaduais, do Executivo e do Legislativo, a maioria sob investigação judicial, agem para interferir nas instituições de fiscalização e nos mecanismos de freios e contrapesos. Instituições e mecanismos indispensáveis à democracia de qualidade.

Não é recomendável focalizar apenas no que funciona bem, descurando de examinar as causas e consequências das disfuncionalidades que estão a gerar tal pressão sobre as instituições que podem leva-las à fadiga e cada vez mais perto do ponto de ruptura. Algo está muito fora de ordem na ordem nacional.

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