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O PSDB nasceu líquido. Não era um partido pega-tudo, como o PMDB. Porém, nunca foi muito solidamente programático. Às vezes, teve posições tão difusas que do estado líquido de origem passou ao gasoso. Não por acaso foi logo associado ao muro, permanentemente prisioneiro da dúvida hamletiana de ser ou não ser um partido social-democrata. Nunca foi. Teve um objetivo programático bem realizado que foi o Plano Real. Na privatização, viveu altos e baixos, já intoxicado por uma overdose de pragmatismo. Há uma diferença enorme entre ser realista e moderado em determinadas circunstâncias críticas e ser pragmático em todas as situações, sempre comprometendo a integridade político-partidária pela conveniência.

Passado o primeiro governo FHC e terminada a missão Real, o partido dissolveu-se na liquidez de ideias e valores. Nas eleições no período dos governos do PT, abriu as portas a ruralistas, clientelistas, a qualquer político com votos. Engavetou qualquer propósito social-democrata ou social-liberal. No mensalão, já havia optado pela impunidade dos seus, em lugar de fechar posição contra a corrupção que corroía o sistema partidário. No governo Temer, o que era líquido virou geléia de vez. Nada mais distingue o PSDB do PMDB. O partido voltou ao barro de origem.

Na decisão sobre o afastamento de seu presidente (licenciado) pelo Supremo Tribunal Federal, o partido seguiu o comando da tropa de choque do presidente Temer, especializada em autopreservação. O argumento usado pelo senador Tasso Jereissati para orientar o voto do partido não serviu à coerência. Tratou o afastamento cautelar como uma sentença de prisão. Condenação sem defesa. Mas o afastamento buscava apenas evitar que o senador Neves usasse o cargo para obstruir a justiça e safar-se. O presidente em exercício do PSDB quis convencer que a decisão personalíssima era caso geral. Não seria um voto sobre a pessoa de Aécio Neves, ou o senador Aécio Neves, mas um voto que valeria para qualquer outro. Essa foi, aliás, uma senha compartilhada pela maioria dos senadores. Mas não foi essa a posição majoritária no afastamento e cassação do ex-senador Delcídio do Amaral, que também ainda não havia passado pelo devido processo legal.

Quem concluiu que não havia conexão entre o argumento do senador e o que se estava discutindo acertou em cheio. Pois o que o Ministério Público e o STF estavam buscando era o devido processo legal. Ser capaz de investigar atos de corrupção de um senador, sem que ele pudesse obstruir politicamente o inquérito, intimidar testemunhas e destruir provas. Era simples, mas parece que o PSDB não entendeu.

Preferiu mergulhar na geléia geral. Adotou o padrão moral do PMDB. Contribuiu para enfraquecer o poder da suprema corte na luta contra a corrupção política. Rasgou qualquer sobra do programa da social democracia ao votar pelo privilégio, pela prerrogativa nobiliárquica de foro. O privilégio de foro não é um princípio republicano. Ele é monárquico. Fechou-se o cerco da autoproteção corporativista. As instituições republicanas perderam e a geléia geral ocupou de forma ainda ainda mais absoluta o topo da estrutura partidária brasileira.

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