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O presidente Temer consegue o feito de ficar mais atrasado a cada versão. Ao contrário do que ocorre no mundo tecnotrônico, onde cada nova versão traz avanços e novas funcionalidades, as versões Temer trazem retrocessos e novas disfuncionalidades.

Temer 1.0, a versão saída do impeachment de Dilma Rousseff, era um homem de fala comedida e impostada, cheia de mesóclises e que parecia, em público, cultuar as liturgias do cargo. Tinha projetos substantivos, dos quais se podia discordar por fazerem parte de uma agenda tipicamente conservadora. Mas eram projetos que tinham objetivos que se podiam declarar às luz do dia. Não diferiam daqueles já aplicados por outros governos dedicados a acertar o quadro fiscal destrambelhado.

O Temer 2.0, saído da obscura conversa com Joesley Batista, na sala do subsolo do palácio, às 10 horas da noite, é diferente e menos funcional. Denunciado pelo Ministério Público, abandonou as mesóclises e as mesuras e passou a mostrar mais de sua verdadeira personalidade. Trocou os projetos convencionais e conservadores, pela barganha sem escrúpulos de medidas a favor de grupos e lobbies no Congresso, em troca de votos para livra-lo do processo junto ao Supremo Tribunal Federal. Passou a acusar de volta, usando a velha técnica de desqualificar os promotores. Acertou medidas que atenderam aos interesses do atraso agrícola. Anistiou dívidas. Interrompeu a implementação de muitos dos projetos da primeira fase, para não descontentar setores que disputam com o PT e outros partidos de vocação sindicalista, uma fatia de influência junto a setores sindicais. Removeu funcionários recalcitrantes. Camuflou com folhagens a passagem que leva seus visitantes noturnos ao palácio residencial, para não serem fotografados. Conseguiu os votos necessários para se livrar da denúncia, por meio de muita barganha e de manipulações na composição da Comissão de Constituição e Justiça. Entre elas providenciou um parecer contrário, de última hora, para pôr no lugar do parecer original, que conseguiu derrotar.

Mais lesivas que as medidas de retrocesso na legislação ambiental, de proteção aos indígenas, de regulação econômica, de anistia tributária, são essas manipulações das regras, procedimentos e instituições do processo decisório. Medidas governamentais, ainda que legais, podem ser revertidas por um próximo governo. Más práticas tendem a se tornar precedentes. Temer, conhecedor íntimo do funcionamento do Legislativo brasileiro, sabe que os expedientes de ampliação da impunidade são parte do repertório histórico das facções menos afeitas ao bom comportamento parlamentar que várias vezes dominaram o Legislativo brasileiro, como agora. Algumas dessas facções acabaram afastadas do jogo político pelo próprio Congresso, no passado. Como, por exemplo, os chamados "anões do orçamento". O próprio Eduardo Cunha que, segundo as evidências, chefiou uma dessas facções na presidência da Câmara, acabou por ela afastado. Temer 2.0 tornou-se refém dessas facções que incharam as bancadas na última legislatura, trazidas por eleições regadas a caixa 2 e a caixa 1 abastecida com dinheiro ilegalmente obtido. Refém do baixo clero, a ele se entregou, abrindo canais diretos de atendimento de suas demandas.

Falou-se muito que a segunda denúncia seria mais facilmente bloqueada e seu custo em concessões clientelistas e retrocessos nos procedimentos de governança seriam menores. Escrevi aqui que nunca o resgate de presidente sai barato. Não há saldo médio nessas transações no terreno movediço da reciprocidade do toma-lá-dá-cá. O resgate da versão Temer 3.0 será mais caro e mais lesivo aos interesses do país. Claro que, bons conhecedores dos meandros do processo legislativo, aprenderam com a primeira experiência. Iniciaram as manipulações na CCJ antes de iniciado o processo. Cuidaram de cooptar o seu presidente, Rodrigo Pacheco, para que não mantivesse a equidistância da primeira rodada e escolhesse um relator para dar parecer contrário à autorização. Com a conivência do PSDB, inclusive daqueles que declararam seu desconforto, mas colaboraram com a anuência silenciosa, escolheu um relator no figurino desejado pelo Planalto.

Bonifácio Andrada é uma espécie de decano do conservadorismo e do ajustamento dos procedimentos às conveniências dos governos a que serve. O deputado já havia servido fielmente aos governos ditatoriais, alistado na ARENA, o partido civil do domínio militar. Não considera prioritário o respeito pelos procedimentos e padrões da democracia. Essas providências preventivas não são, todavia, suficientes para garantir o resultado desejado pelo presidente. É preciso confirmar cada voto e essa confirmação depende, novamente, do atendimento das demandas. São muitas, porque primeiro entram em tela as dívidas da votação passada, as demandas que foram atendidas no papel, mas não foram entregues de fato. Em seguida, vêm as demandas novas. O resultado é maior do que a soma das partes, porque provoca lesões sociais, econômicas e institucionais cumulativas. Muitas medidas podem, como disse, ser revertidas. Mas o desmonte institucional, a demolição de organizações do estado, leva tempo e tem um custo futuro que será somado aos custos diretos do toma-lá-dá-cá.

No governo Temer 3.0, as visitas noturnas à residência oficial foram declaradas como segredo pelo Gabinete de Segurança Institucional. Uma demonstração da inutilidade desse gabinete para a verdadeira segurança institucional do país. Só nos regimes autoritários, as audiências presidenciais, a qualquer título, são consideradas segredo de estado.

Nenhum dos danos que as versões de Temer têm causado ao país na teimosa defesa de seus próprios interesses pessoais é irreversível. Mas elas custam muito ao país em atraso, em credibilidade das instituições, em descrédito da política, em perda de qualidade democrática, em direitos violentados, em tempo perdido e em recursos fiscais desperdiçados.

Temer 3.0 escalou a desqualificação do sistema judicial, acusando membros da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário, como cúmplices de uma conspiração para depor o presidente da República. Contra ele, procedimentos judiciais constituem conspiração para dar um golpe e obter a deposição do presidente. Aderiu à tese do golpe, que negou, quando foi aplicada ao impedimento de Dilma Rousseff. Em outras palavras, Temer 3.0 nega tudo que Temer, versão Beta, na vice-presidência, ou mesmo Temer 1.0 sempre afirmaram. Quantas versões mais de Temer caberão nos 14 meses que restam de seu mandato?

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