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A Terra está em transe. Basta olharmos o noticiário internacional e encontraremos as marcas do perigo. O impasse nuclear com a Coreia do Norte, a limpeza étnica que vitima os Rohinghya, povo indo-ariano de Rakhine, em Myanmar, o atentado terrorista em Londres, os furacões Harvey, Irma e Norma. Não é acaso. Fazem parte do momento particular da história humana que estamos vivendo, de transição de um mundo, e uma ordem global, em declínio, enquanto novos modos sociais não estão suficientemente maduros para resolver os problemas de uma nova maneira. Muito provavelmente ainda não conhecemos bem os novos modos.

Em todos os eventos que citei, pode-se dizer que algo não está funcionando bem, ou de acordo com o previsto. No caso da Coreia do Norte, a escolha de sanções como forma de lidar com a ameaça nuclear de Kim Jong-un, não vai funcionar. Isto é previsível. Mas não, que a influência chinesa no país vizinho e dentro de sua zona de poder estivesse tão desgastada a ponto de não conseguir convencê-la a conter seus atos nos limites do aceitável. O fim do poder hegemônico dos Estados Unidos está previsto e analisado em numerosos estudos há mais de uma década. Em geral, se presume que o esgotamento dessa hegemonia produziria uma troca de polos, passando a China ao papel hegemônico, ou que transitaríamos para um mundo multipolar.

Mais recentemente, tem-se falado em ressurgimento da Guerra Fria, dessa vez com os Estados Unidos no papel de Estados Unidos e China, no papel da desaparecida União Soviética. Mas a China não vem demonstrando ter a capacidade de liderança suficiente para alinhar atrás dela outros países, como fez a URSS, menos ainda para fazer Putin aceitar o papel que a China teve na passada Guerra Fria. Para a hipótese da multipolaridade falta um mundo muito mais organizado e equilibrado do que temos hoje. Essa não é uma ideia válida para as transições, muito mais anárquicas. É, no máximo, uma das possibilidades de construção de uma nova ordem global. Mas nada indica que seja mais provável, ou menos utópica, no futuro, que uma ordem cosmopolita, baseada em uma sociedade mais globalizada. A multipolaridade pressupõe que os estados nacionais tenham uma força, que poderá não existir mais no futuro, por causa da própria globalização. O cosmopolitismo requer uma sociedade global mais forte e democratizada do que parece plausível sob o olhar de hoje. Todavia, é mais compatível com a globalização. Se é para ter esperança, prefiro esperar pelo melhor e mais diferente. Logo ponho minhas fichas, ou meu desejo, na sociedade cosmopolita global.

O horror da limpeza étnica conduzida pelos militares contra os Rohinghya nos enche de espanto pela recorrência e pelo silêncio teimoso e suspeito da prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi. A repetição da tragédia evitável do genocídio deve nos fazer lembrar outros eventos de terror, como o massacre dos Tutsi pelos Hutu, em Rwanda (1994); ou de bósnios pela Sérvia (1995), para eliminar os muçulmanos do território da antiga Iugoslávia; ou massacres igualmente hediondos na Chechênia (1994), no Timor Leste (1999) e em Darfur (2003). São atos tenebrosos que devem ser tratados como genocídios. A impassividade de Aung San Suu Kyi mostra que, nos tempos de hoje, até os heróis têm prazo de validade limitado. Ela não é capaz de mostrar a mesma coragem que revelou na sua longa luta contra a tirania militar. São, novamente, os militares que desafiam o mundo e a nova líder, perseguindo esse povo que além de “estrangeiro” (um povo sem estado) é de maioria muçulmana. Suu Kyi demonstrou, em seus escritos, interesse que parecia sincero na busca de Nelson Mandela por um caminho para acabar o apartheid na África do Sul. Mas não tem mostrado o mesmo empenho para atuar no complexo conflito étnico de Myanmar. O escritor Gavin Jacobson, em artigo para a The New Yorker, a chamou de a laureada ignóbil, por seu silêncio sobre a intolerável violência militar contra uma etnia. Em português perde-se o trocadilho, mas não a veracidade da imputação. Ela já havia ficado em cúmplice silêncio há cinco anos, quando 100 mil Rohinghya foram expulsos de onde viviam. Suu Kyi está se rendendo aos militares e à maioria budista. Perdeu o apoio de todos os antigos aliados que conquistou no mundo, quando de sua luta contra a tirania. O que a corrompeu? O poder ou o preconceito religioso? Talvez nunca o saibamos. Mas ela tem uma história suspeita, quando se trata dos Rohinghya. Já caracterizou o genocídio como luta contra o terrorismo. Além de agradar à maioria budista à qual pertence, equiparar islamismo e terrorismo é a saída mais fácil e que mais incentiva a violência. Mas, esse novo tipo de violência contra alvos aleatórios é muito mais complexo do que isso. Ela nasce do ressentimento, da apartação, da privação relativa, da não-aceitação. Suu Kyi já soube disso, quando era ela a vítima.

O que os furacões têm a ver com isso tudo? Muito e nada. Têm muito a ver com uma sociedade que vem funcionando tão mal, que agride com violência partes de si mesma, como se a ela não pertencessem. Que polui e interfere na natureza, como se a espécie humana não fosse parte da biosfera e dela dependesse para sobreviver. Nosso mundo foi construído contra a natureza, agora que ela se rebela, descobrimos que não o construímos para conviver com a natureza, nem para resistir à sua fúria. O horror do presente, contudo, não precisa ser um ensaio para o nosso futuro, basta entendermos as lições da transição.

Publicado originalmente no blog do Matheus Leitão: http://g1.globo.com/politica/blog/matheus-leitao/post/alo-alo-marciano-terra-esta-em-transe.html

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