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O presidente Michel Temer tem repetido, em várias de suas autodefesas em vídeo, que quem se opõe ao governo está se opondo ao Brasil. São várias as versões que usa, desde ser contra as reformas é ser contra o Brasil, até o slogan da recauchutagem do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) renomeado para Avançar. O Avançar, terá por slogan segundo noticiado na imprensa "Quando o Brasil avança, todos avançam". Além de sociológica e historicamente falso, pois os avanços no Brasil têm sido sempre muito desiguais, as elites sempre avançam mais que a base da sociedade, ele procura evocar essa submensagem de que o governo Temer é que sabe e faz o bem do Brasil. Quer fazer correspondência entre termos que não são conformes.

Propaganda enganosa, claro, mas ela tem conotação pior. É autoritária, pois toma uma parte pelo todo. E que parte. Pressupõe que o governo Temer sabe o que é bom para o Brasil e representa o interesse nacional. Interesse nacional é um conceito que sempre foi avocado por regimes autoritários. Sempre apresentados como sendo a expressão mais pura do interesse nacional. Nenhum governo representa o país, muito menos se confunde com ele. Governos representam um recorte do país. Este governo, não representa qualquer setor da sociedade. É uma coalizão de facções partidárias oligárquicas. O próprio PMDB é um condomínio de oligarquias estaduais, ao qual se associam alguns políticos isolados, Jarbas Vasconcelos, oriundo da ala chamada autêntica do MDB, é um desses casos. Temer é outro. Nunca teve força pessoal sequer para formar e chefiar uma oligarquia paulista. Quem fez isso, por algum tempo, foi Orestes Quércia, seu adversário local.

Opor-se a Temer não é opor-se ao Brasil, nem mesmo a setores sociais específicos. É opor-se a um consórcio entre oligarquias partidárias, cujas principais figuras são investigadas, ou já se tornaram rés, em processos da Lava Jato ou de seu entorno. Entre eles figurava o ex-deputado Eduardo Cunha que é agora o pesadelo de todos, pois vaza, com insistência serial, que prepara uma alentada delação, que porá por terra todas as estratégias de defesa usadas até agora. A ela deve se somar a delação do operador financeiro desse consórcio, o doleiro Lucio Funaro.

O ministro Aloysio Nunes Ferreira, cuja história política, com base em São Paulo, não guardava afinidades com a de Temer, tuitou  mensagem que repete o moto egocêntrico do presidente: "Do ponto de vista dos interesses do Brasil, não poderia haver ocasião mais inoportuna para os recentes ataques de dirigentes do PSDB." Certamente, nem ele, nem Temer estão efetivamente sintonizados com os interesses do Brasil. Aliás, é pretensão demasiada de qualquer um pretender saber quais são os interesses do Brasil. Estamos uma sociedade fragmentada, politicamente polarizada e sempre fomos uma formação social heterogênea. No mundo atual de fragmentação global, instabilidade generalizada e mudanças aceleradas, os interesses se diversificam e se dispersam. É quase impossível sintetizar os interesses de qualquer país em uma plataforma. O que dizer de uma plataforma estreita, de emergência, de um governo que nasceu sem legitimidade social.

No fundo, as coisas são bem mais simples. Quem se opõe a Temer, se opõe a Temer, ponto. Quem deseja que Temer seja processado, quer que os indícios gritantes de comportamento impróprio sejam investigados e, se houver prova, que seja punido com a perda do mandato e a persecução penal. Nada mais. Ou melhor, há quem se oponha a Temer que deseja muito mais que isto. Mas são também facções, partições da sociedade, que não têm expressão majoritária, muito menos unanimidade. Quem deseja que Temer seja investigado, julgado e, se culpado, perca o mandato, também não quer, necessariamente, Rodrigo Maia para presidente. Estamos diante de um encadear de fatos estanques que podem se desenrolar no futuro próximo e, a cada momento, teremos que expressar o que queremos, refletindo o que julgamos ser o nosso interesse. O Brasil, felizmente, não tem quem fale por ele com uma só voz. Somos polifônicos, nossa diversidade não abriga consensos unânimes. Como diz, Caetano, na canção Jeito de corpo, "o meu projeto Brasil/perigas perder você".

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