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Os jornalistas em Brasília costumavam usar a expressão "flores do recesso", para indicar qualquer matéria publicável que conseguissem obter durante o recesso parlamentar. Hoje, mesmo no recesso não faltam notícias. Mas, ainda se dá a revoada dos políticos para suas bases. Aliás, nesses últimos dias, é obrigatório para os políticos nordestinos estarem em suas bases para as festas juninas. Mesmo em Minas Gerais, é aconselhável que os políticos retornem a seus domicílios para esses festejos. A ausência pode custar-lhes preciosos votos. Ainda mais agora.

Uma cena típica das cidades menores é o que chamo de "romaria", a procissão de cabos eleitorais, "amigos" e eleitores que visitam o deputado federal ou o senador, quando está em seu domicílio eleitoral. Sei que ao tomar emprestado o termo às peregrinações religiosas, arrisco-me a ofender os romeiros autênticos e devotos. Mais ainda, porque a romaria aos políticos pode ser venenosa. É durante essas visitas que ele ausculta seu "povo", ouve pedidos e reclamações. É nesse pé do ouvido que ele fica sabendo o que pensam do presidente em Brasília.

Se o presidente é popular e ele lhe tem criado embaraços, ouve o descontentamento geral. Seus cabos eleitorais o alertam que pode perder votos se não "colar" no mandatário ungido pelo gosto popular. Se o presidente, porém, é impopular, como foram Collor, Sarney, Dilma, ou como é Temer, o mais rejeitado de todos desde o início, e o político o apóia, ouvirá duras reclamações. Os cabos eleitorais serão enfáticos, "com esse presidente não dá". Em outras palavras, se não "descolar" do presidente, deixar de apoiá-lo, terá dificuldades para se reeleger.

Por isso Temer e seu fiel escudeiro, Rodrigo Maia, estão tentando evitar que haja recesso. Mas, no Nordeste, reduto importante do PMDB e outros partidos de sua coalizão, a romaria junina já pode ter produzido o primeiro abalo sério. A voz das ruas não se cala, ainda quando parece em silêncio, em "casa" os políticos sempre ouvirão os sussurros venenosos que lhe indicarão estar na direção oposta àquela desejada por seus eleitores. A partir de um determinado ponto — e tudo indica que este ponto já foi ultrapassado há muito — não há cargo ou verba que compre a lealdade do eleitor enraivecido. O veneno do recesso pode ser fatal para um presidente tão impopular quanto Temer.

Sobre governantes impopulares, com seu governo por um fio, em crise de legitimidade, escrevi: O que fazer com o governo por um fio

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