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A incerteza é a força da democracia e pode ser o seu horror. Os Estados Unidos terão um presidente da direita populista nacionalista. Trump é a típica liderança populista, que fala diretamente com o povo para persuadi-lo de que vai encarná-lo no poder e resolver os seus verdadeiros problemas, porque é como eles, não um político. Tipicamente, separa o país entre “as elites” e “nós”. No seu discurso de vitória, ao falar do telefonema de Hillary Clinton, disse que ela “nos cumprimentou, porque isto é sobre nós”. Em seguida, disse que “nós juntos fizemos não uma campanha, mas um fantástico movimento”. Frases que o separam, claramente, do partido.

Sua eleição foi uma surpresa geral. Surpreendeu os analistas, desmentiu as pesquisas e os modelos de projeção. Na verdade, quem previu, com mais precisão sua eleição, foi ele mesmo, ao dizer que redesenharia o mapa eleitoral dos Estados Unidos e venceria avançando pelo “rust belt”, o região industrial, chamado de “cinturão da ferrugem”, que vai do Nordeste ao Meio Oeste, por causa do grande número de indústrias abandonadas. Uma região de cidades em decadência, pobreza branca, desemprego branco. Buscou identificar-se com os que foram “deixados para trás” e reacender neles o sonho americano. Nada disso expressa o ideário do partido Republicano ou de seu eleitorado tradicional. Nem mesmo os radicais do Tea Party. Não que ele não tenha afinidade com a direita do partido e, mesmo, com sua extrema direita. Tem. Mas o cerne de sua personalidade e de sua mensagem, é estrangeiro ao ideário e aos valores do GOP, o tradicional partido Republicano.

Ao ser recebido aos gritos de “USA”, “USA”, como presidente eleito dos Estados Unidos, na sede de sua campanha, Trump realizava dois anseios: eleger-se e afirmar os valores nacionalistas que estruturaram sua campanha. Trump é um lobo solitário, que tem a seu lado alguns republicanos que não são exatamente representantes legítimos do establishment partidário, como Rudi Giuliani, ex-prefeito de Nova York, e Chris Christie o controvertido governador de Indiana, que coordena sua equipe de transição.

Trump foi eleito por meio de um claro e radical realinhamento partidário. Sua vitória redesenhou a geografia do voto nos Estados Unidos, cortando fronteiras republicanas e democratas. Venceu no “rust belt”, em estados que sempre foram bastiões democratas, como a Pensilvania e Wisconsin. Além disso, apesar de não fazer uma campanha em sintonia com a dos republicanos, ele puxou votos para assegurar ao partido a maioria na Câmara e no Senado. Os eleitos lhe devem isso.

Realinhamentos eleitorais abruptos são imprevisíveis. Não se consegue prever sua ocorrência, nem estimar suas consequências futuras. É um claro sintoma de crise do sistema partidário e da liderança política. Dada a profundidade desse realinhamento e o grau de polarização do qual nasceu, é provável que leve a mudanças importantes no sistema partidário americano, que mudanças virão e em que direção irão, é impossível dizer.

Mas não é só a vitória de Trump que é imprevisível. Ele também é. É impossível dizer como será a presidência Trump. Nem ele mesmo sabe. Nunca ocupou um cargo político, no executivo ou no legislativo. Nunca pensou como um detentor de responsabilidades públicas e constitucionais. Trump é um homem privado, não um homem público. Não se pode intuir de seus atos pregressos, como ele agirá na presidência.

Sua trajetória na campanha foi errática. Ora agressivo e afirmativo, ora defensivo e arrependido. Suas declarações sobre segurança nacional e geopolítica global, acendem um alerta de alto risco de instabilidade e conflito. As ideias sobre comércio externo que defendeu criam risco de protecionismo, contenciosos na OMC e refluxos na economia. Suas posições sobre terrorismo e o ISIS, apontam para o risco de novo envolvimento militar dos EUA. A ligação que estabeleceu entre o ISIS, o Iraque e o Irã, constitui um perigo sério de conflito armado de altíssimo risco.

Trump terá que se construir como presidente, no exercício do mandato. Será uma presidência do tipo aprender-fazendo, o que pode ser um problema sério, em determinados tipos de emergência, que exigem pronta resposta e muito bom e sensato julgamento. É claro que o presidente não pode tudo que quer. Sofre condicionamentos protocolares e constitucionais. Trump quebrará todos os protocolos, inclusive os de defesa? Desrespeitará os limites constitucionais do cargo? Desrespeitará a Primeira Emenda, para controlar a imprensa, como prometeu na campanha? Difícil dizer.

Tudo sobre Trump é supresa, desconhecido, imprevisível. Ele se apresenta ao público com uma persona, que ele constrói, com um misto de agenda pensada, intuição e impulso. Soube captar o descontentamento de republicanos e democratas, daqueles que não se sentem representados ou ouvidos pela “elite” partidária. Trump não é realista, nem pragmático, pelo menos não foi na campanha. Foi ousado e vendeu sonhos impossíveis: “dobrar o crescimento”, numa economia madura crescendo 3%; fazer o país grande novamente; cuidar dos veteranos. Sonhos de reconstrução de infraestrutura, novos programas, que demandarão dinheiro público, em um país no limite do endividamento público.

Trump conquistou os “blue collars” brancos, operários qualificados, que sofrem duramente o declínio da indústria manufatureira. Que fará? Estimulará indústrias obsoletas e abandonará a economia do conhecimento e a energia renovável, que estão dando dinamismo à economia? Dificilmente. Também teve perto de 30% de votos de latinos. Vai hostilizá-los? Trump não é reacionário. É um populista conservador e nacionalista. Garimpou seus votos na raiva, no ressentimento e na indignação dos que não retornaram à afluência pré-crise de 2008.

Hoje ele é puro risco, porque imprevisível e inescrutável. Mas, após a posse, pode se tornar mais compreensível e mais claro nas atitudes e ações. Nas últimas duas semanas de campanha, apareceu disciplinado, parou com os improvisos, leu os discursos no teleprompter, mostrou-se calmo e centrado. No discurso de  vitória também, leu a parte mais importante, improvisou apenas nos agradecimentos.

Essa reviravolta põe em observação várias iniciativas: Obama care, relações com a Rússia, Irã, desarmamento nuclear, OTAN, por exemplo. A dúvida é fonte de incerteza, e mercados e governantes ficarão em estado de alerta, até que os objetivos de Trump fiquem mais claros.

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