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As aparências não enganam apenas, elas têm consequências concretas. Principalmente quando o jogo de aparências ocorre na política e na economia. Dou um exemplo do mercado financeiro. O noticiário parece — grifem mentalmente o verbo parecer — indicar, num determinado momento, que a maré está mais pró-impeachment. A bolsa sobe, o dólar cai. Em outro momento, a onda aponta na direção oposta, parece que não vai ter impeachment. A bolsa cai e o dólar sobe. Esses movimentos em direções opostas foram provocados por aparências, mas a queda ou subida da bolsa e do dólar produzem ganhos e perdas concretas e repercutem por toda a economia.

O mercado chama a isso de expectativas. Ou seja, uma estimativa do que pode vir a acontecer. Se o ambiente é de muita volatilidade, são muitas as ondas e as expectativas se alteram ao sabor de cada uma delas. Um jogo de aparências entre “comprados e vendidos”. A política assenta-se também em um jogo de aparências. São muitos jogadores com apostas diferentes. No caso do impeachment, há parlamentares com a cabeça feita. Provavelmente são mais numerosos entre os governistas — PT e PCdoB — do que na oposição. A maioria, porém, não sabe ainda como votará. Espera ter mais certeza sobre a direção do o vento das decisões. Mas esse jogo tem consequências concretas. Esconder o jogo, num teatro de dissimulações, em que nem mesmo os atores sabem o que é para valer e o que não é, faz parte de estratégias políticas em busca do maior ganho possível. O pacote de vantagens combina promessas de benefícios futuros a benefícios imediatos. O jogo é de aparências, mas é jogo e envolve ganhos e perdas concretos, tanto para os políticos que o estão jogando, quanto para a sociedade.

Tudo aparências. Lembro um verso do Eclesiastes, na transcriação de Haroldo de Campos: névoa de nadas, tudo névoa-nada. Essa névoa que esconde o verdadeiro jogo de cada um, até mesmo para o próprio jogador, é um recurso poderoso, seja na especulação financeira, seja no processo político. Não só o governo, nem somente os líderes pró-impeachment (e todos nós) desconhecem a probabilidade real do resultado da decisão na Câmara e no Senado. Deputados e senadores também não sabem como os outros votarão. A incerteza, mais que a virtude, está no meio ou no centro. O ambiente é tão volátil que um político que diz para si mesmo, diante do espelho, que votará de um jeito num dia, pode dizer para sua outra imagem no espelho, dias depois, que votará de outro jeito. Por isso, a ordem dos fatores altera o produto. Se a chamada nominal der a aparência de que a tendência é numa determinada direção, muitos parlamentares, ao votarem em seguida, mudarão seu voto para acompanhar essa tendência. E o que era aparência pode virar consequência, resultado final, confirmando a tendência.

Acompanho o comportamento do Legislativo brasileiro há décadas. Escrevi minha tese de mestrado sobre o processo legislativo, analisando padrões de voto e suas diferentes dimensões. Para entender o que se passava no Congresso, assisti a grande número de sessões, pelo menos duas por semana, durante seis meses. Vi de tudo. Votações importantíssimas, votações irrelevantes, brigas, sopapos. Fui descobrindo que quase nada do que acontecia às claras, no plenário, era verdade. Esse jogo de aparências sempre existiu. Como precisava saber o que, de fato, dividia os parlamentares em cada votação, li a ata de todos os debates sobre as medidas que constavam de minha amostra. Páginas e páginas de discursos, entremeados de apartes, apartes a apartes, apartes a apartes a apartes, insultos.  Só não havia clareza sobre o que estava por trás de muitas votações. Quando a divisão era governo vs oposição, era mais fácil. Mas quando as divisões não se davam nessa fronteira mais bem marcada, só entrevistas com parlamentares e com a assessoria técnica, permitia detectar, em parte, o motivo real dos votos. E o Brasil ainda nem vivia a democracia reinstaurada pela Constituição de 1988. Quem já assistiu a uma sessão da Câmara é testemunha do tumulto que se forma em torno do microfone de pé, que fica em frente à mesa do presidente. Não é que os deputados não tenham microfone em suas mesas. Aquele burburinho é proposital, é parte do jogo. Mas, também, ali, a maioria do que acontece é jogo de cena, diante das câmeras.

Se tudo o que ocorre diante dos olhos da audiência é encenação, onde é que se dá o processo real de negociação, barganha, troca-troca, que definirá os votos? Ele se dá nos gabinetes, dentro e fora do Congresso, continua na reunião do “colégio de líderes”, estende-se pelos corredores da Câmara e do Senado, transborda no cafezinho e, na maioria das vezes, recebe os retoques finais, que alteram votos em escala ou na margem pelos cantos do plenário, longe das lentes da TV. Enquanto os parlamentares se engalfinham na comissão do impeachment e no plenário, o verdadeiro jogo está acontecendo fora. O governo oferece ministérios e cargos de segundo e terceiro escalão, negocia-se, conversa-se, especula-se, o governo retira a oferta. No dia seguinte, os balões de ensaio aparecem na imprensa: “governo só dará ministérios depois do voto”; “lideranças partidárias dizem que só aceitarão cargos depois do voto”. Qual a verdade, qual a aparência? Névoa de nadas, tudo névoa-nada. Ninguém sabe ao certo. Nem governo, nem oposição. Não há elementos para calcular probabilidades ou apontar tendências. Pesquisas de opinião? Quem garante que o que o parlamentar respondeu, corresponde ao voto que dará no dia? Ora parece uma coisa, ora outra. Todo mundo joga, não só os políticos. Os analistas também. Aprendi, desde o primeiro dia de faculdade, que análise de processos sociais e políticos sempre tem uma carga de subjetividade. Weber dizia que ela é compensada no entrejogo das intersubjetividades. Quanto numa determinada interpretação ou previsão sobre o momento político é análise, quanto é desejo? Quanto de dúvida ficou de fora, sem ser explicitada? Quanto há de incerteza. Névoa de nadas, tudo névoa-nada.

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