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O governo Temer entrou em nova fase. Usa a reforma da Previdência e outras promessas como biombo para tocar uma agenda de autopreservação do grupo político que representa. Blindado por uma maioria parlamentar interessada, o presidente vai tecendo a trama institucional que pode travar os processos contra a corrupção política e assegurar a impunidade geral, primeiro passo para a conservação do poder oligárquico. O último, mas não derradeiro, lance nessa direção foi a posse do novo diretor da Polícia Federal.

Fernando Segovia deu o sinal para nova investida contra a Procuradoria Geral da República, criticando as investigações que implicam seu chefe. É possível que, com a repercussão negativa de suas frases aparentemente ingênuas, encontre uma boa desculpa para a má escolha de exemplos e palavras. Mas não ela não será suficiente para disfarçar o movimento mais sutil e nada ingênuo de explorar as perenes rivalidades entre as duas corporações, a Polícia Federal e a Procuradoria Geral da República. O objetivo é minar o relacionamento entre os componentes das forças-tarefa envolvidas na luta contra a corrupção dos políticos.

A estratégia geral já está clara. Preserva-se a procuradora-geral, Raquel Dodge, mirando o arsenal de críticas e ataques na pessoa do ex-PGR, Rodrigo Janot. O bombardeio concentra-se no seu flanco exposto, para causar o maior dano possível. O erro central de Janot foi oferecer a imunidade à cúpula da JBS, que está no topo da lista dos corruptores da política brasileira. Em contraste com seus principais concorrentes, que estavam no comando da Odebrecht, viram sua seletiva colaboração ser premiada com a anistia total da pena de prisão, posteriormente revogada. A revogação da imunidade, porém, tem outro objetivo, que é anular a delação.

Os ataques à investigação da corrupção política sistêmica interessam a praticamente todos os envolvidos nos inquéritos, em todos os níveis. Se os torpedos estão principalmente centrados em Janot, o fogo colateral está concentrado em Curitiba, na força-tarefa que investiga os sem-foro e no magistrado que julga os processos. A partir do ponto central, Janot e seu erro de avaliação, e de episódios isolados, em geral sem relação com os processos em curso, frases em palestras e entrevistas, rumores sobre supostas ambições políticas, vai se montando a narrativa para desacreditar as investigações. Narrativa que sustentará eventuais decisões no Judiciário e previsíveis ofensivas legislativas para bloquear o conjunto de operações que se denominou genericamente de Lava Jato e estender o manto da impunidade sobre as oligarquias políticas aboletadas no poder. O bombardeio de críticas de políticos, autoridades judiciais e policiais, advogados, formadores de opinião, embora centrado em algumas personalidades que se destacaram na Lava Jato, atinge as instituições por trás delas. Mas os interessados em preservar instituições e combater a crise, que pode levar à ruptura de nossa ordem político-institucional, compõem uma coalizão minoritária e pouco articulada.

A narrativa que fustiga a Lava Jato é vazia de lógica e repleta de más intenções. Nenhum dos erros e nem a soma deles é suficiente para invalidar os processos, menos ainda para inocentar os corruptos. É espantoso ver pessoas, que merecem consideração, abandonar os pudores e abrigar a tese de que os erros na investigação sobre a corrupção do sistema político, que produziu uma Tsunami de evidências e indícios, causa danos à democracia. Uma república democrática perde realmente seu sentido, quando todos os seus princípios são deformados pela corrupção, pelo privilégio, pela impunidade, pela oligarquia. Seria tolo, ou cínico, pretender que algum artefato humano submetido ao jogo das subjetividades e ao calor das influências políticas fosse infalível. A negação interessada das evidências de operação continuada de vastíssima e bilionária rede organizada de corrupção política serve apenas para assegurar a impunidade e devastar as bases políticas e morais do sistema republicano.

A coalizão tácita a favor da impunidade, que se utiliza de narrativas que objetivam desacreditar, invalidar ou simplesmente negar os fatos do processo, é ampla. Atravessa fronteiras políticas, ideológicas e partidárias. É uma coalizão inevitavelmente solidária nos seus efeitos e, com certeza, queiram ou não os que se unem nessa aliança subliminar, beneficiará principalmente as oligarquias podres que nos dominam politicamente. Esses senhores estão confortavelmente abrigados no comando do Legislativo e do Executivo e exercem influência sobre uma parte significativa do Judiciário.

O politólogo Carlos Melo tem razão ao escrever que o governo Temer politicamente já acabou. Sua agenda central não é política. Usa a agenda política como biombo para a agenda pessoal. Daí ser-lhe fácil substabelecer a política a seu aliado sempre fiel na presidência da Câmara dos Deputados. O objetivo central de Temer é livrar-se dos processos. O ano que vem, 2018, é crítico porque definirá a preservação dos privilégios oligárquicos por tempo talvez suficiente para enterrar de vez a operação anticorrupção política. Os aliados de Temer, eles são muitos mais do que apenas os companheiros ostensivos, ainda não acabaram politicamente. Estão ativos na construção das condições que os mantenham no poder depois de 2018.

O cenário de 2018 é ainda confuso e tem muitas ramificações possíveis, com resultados muito imprevisíveis. Fora o cenário que seria apenas "mais do mesmo", de confronto entre o PT e o PSDB, todas as outras possibilidades envolvem riscos para muitas forças políticas. É o que explica o nervosismo geral, a aceleração das disputas, a busca despudorada de resultados mais imediatos. Também explica as cautelas com que eventuais candidatos tratam publicamente de candidaturas e de suas próprias agendas políticas.

Vivemos um mau momento. O clima de polarização ainda intoxica as inteligências. Encolheu os cérebros disponíveis para uma séria discussão política sobre como vencer a crise, confinar a corrupção e abrir um portal para que o Brasil se afaste do atraso e ingresse no século 21. Entraremos já com alguma desvantagem, todavia superável se formos rápidos e inovadores em todos os campos, à esquerda e à direita.

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