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A eleição geral de 2018 foi disruptiva. Ela rompeu o eixo político-partidário que organizou governo e oposição nos últimos 25 anos e seis eleições gerais, movido pela disputa polarizada entre o PT e o PSDB pela Presidência da República. Os demais partidos disputavam posições no Congresso para se garantirem assento na coalizão de governo.

Alguns partidos, especialmente PDT, PSB e Rede confrontaram a polarização pela Presidência em alguns desses pleitos, tentando dar viabilidade a uma terceira via. Marina Silva, em 2010, pelo PV, e, em 2014, pelo PSB, foi quem chegou mais próximo de consolidar essa terceira via. O sucesso de sua candidatura, com 19,3% dos votos, em 2010, dispondo de um minuto e vinte e três segundos de tempo de TV, e em 2014, com 21,3% dos votos e 2 minutos e três segundos de tempo de TV, prenunciava o declínio do peso dos recursos tradicionais de campanha. Ciro Gomes (PDT-CE), em 2018, ficou bem mais distante, com 12,5%, pouco mais que os 11%, que obteve nas presidenciais de 1998.

As rupturas de 2018 se deram em dois planos. Os resultados do primeiro turno mostraram a aceleração do realinhamento partidário que vinha ocorrendo mais gradualmente desde 2010, com declínio do tamanho médio das bancadas na Câmara e aumento da fragmentação partidária no Congresso. Além, disso, o PSDB ficou fora, pela primeira vez, da disputa pela Presidência. O partido ganhou as eleições presidenciais no primeiro turno, com Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998, e esteve no segundo turno contra o PT em 2006, 2010 e 2014. O segundo turno completaria a ruptura, deixando o PT fora da Presidência. A exclusão da Presidência dos dois partidos que monopolizaram a competição pela chefia de governo desde 1994, por um candidato sem partido e sem estrutura política de campanha, encerrou o ciclo PT-PSDB do presidencialismo de coalizão na Terceira República. O processo de realinhamento partidário tende a acelerar ainda mais e se aprofundar, com a implementação da proibição das coligações em eleições proporcionais. Essa nova regra já deve ter alguma influência nas eleições municipais de 2020, mas terá efeito pleno nas eleições gerais de 2022.

A Presidência será ocupada por um candidato nitidamente de direita, com uma proposta econômica liberal ortodoxa, uma pauta de valores ultraconservadora, apoiado em um partido que só existe por força do efeito de arraste da sua candidatura. Esse efeito foi outra novidade das eleições. Ocorreu nas eleições parlamentares, elegendo 52 deputados do PSL, a segunda bancada da Câmara dos Deputados, e quatro senadores, mesmo número que o PT e o PSDB. A bancada só não cresceu relativamente como na Câmara, porque foram renovados 2/3 do Senado e o PSL praticamente não existia no período anterior. Ocorreu, também em eleições para governador, levando à vitória candidatos que se associaram explicitamente a Bolsonaro, embora não fossem de seu partido, no Rio de Janeiro e, em Minas Gerais, por exemplo.

Pela primeira vez, a direita tem uma candidatura explícita no Brasil e encontra, também pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra, movimentos de direita organizados partidariamente na Europa e, nos Estados Unidos, uma ala de ultradireita no partido Republicano, ligada ao presidente Donald Trump. Embora assumindo o papel de candidatos contra a esquerda, nem Jânio Quadros, nem Fernando Collor aderiram de forma tão clara e manifesta a um ideário tipicamente de direita como Bolsonaro. Essa existência de um polo bem definido e mobilizado à direita pode ter um papel importante no realinhamento partidário em curso, ajudando a definir melhor os valores e ideias dos demais partidos ao longo do espectro ideológico.

O fim do ciclo PT-PSDB na Presidência da República e a hiperfragmentação das bancadas desorganizaram completamente o jogo político-partidário que assegurou a estabilidade democrática e o funcionamento do presidencialismo de coalizão por quase um quarto de século. Esse sistema, todavia, dava sinais de estar no seu ocaso, com a perda acelerada de qualidade das políticas públicas, com o desalinhamento partidário e a contaminação generalizada do sistema político pela corrupção partidário-empresarial.

As eleições legislativas revelaram ampla rejeição aos partidos tradicionais. O PT, conquistou a maior bancada na Câmara, mas perdeu 14 cadeiras, confirmando um declínio que começara em 2006. O PSL, de Bolsonaro, que havia eleito apenas um deputado em 2014, passou a segunda maior representação, com 52. O PSDB perdeu 25 cadeiras e deixou de fazer parte das cinco maiores bancadas, entre as quais esteve desde 1994. O PMDB saiu de segunda maior bancada, para ser a quarta, do mesmo tamanho que o PSB, perdendo 32 representantes. Um nítido realinhamento partidário, com redução acentuada do tamanho médio das bancadas e aumento da fragmentação partidária. Em 1994, os cinco maiores partidos controlavam 70% das cadeiras. Em 1998, atingiram o máximo de concentração da representação, com 79% das cadeiras. Em 2014, já haviam caído para 51% das cadeiras e, em 2018, as cinco maiores bancadas ganharam apenas 41% das cadeiras. O tamanho médio dos cinco maiores partidos representados na Câmara caiu de 72 deputados, em 1994, e 81, em 1998, para 53, em 2014 e 43, em 2018. O DEM, deixou o grupo dos cinco maiores, em 2014, e o PSDB, em 2018.

As redes sociais digitais tiveram papel muito mais importante nessas eleições. Uma questão que ainda demanda mais pesquisa. Foi um efeito colateral imprevisto da decisão pelas oligarquias dos grandes partidos de compensar a proibição do financiamento empresarial de campanhas. Criaram o Fundo Eleitoral e concentraram em benefício próprio todo os recursos e o tempo subsidiado de TV. O dinheiro podia ser discricionariamente distribuído pelas chefias partidárias. Candidatos de partidos sem acesso a esses recursos, tanto majoritários, quanto proporcionais, e aqueles desdenhados pelos chefes buscaram nas redes uma alternativa de campanha. Vários candidatos a deputado e senador fizeram campanha praticamente só digital e foram eleitos. Jair Bolsonaro (PSL-RJ) tinha presença anteriormente consolidada nas redes digitais e aproveitou bem essa vantagem. Ficou fora da campanha tradicional, principalmente após sofrer uma facada em Juiz de Fora, MG. Ganhou a Presidência da República dando poucas entrevistas à grande imprensa, sem participar de debates, usando fundamentalmente as redes de WhatsApp, Twitter e Facebook. Continua, como presidente eleito, a usá-las como principal meio de comunicação, até para oficializar convites para o ministério. Um figurino inaugurado por Donald Trump nos Estados Unidos.

Foram eleições marcadas pela polarização na sociedade, que adquiriu os mesmos contornos que se tem observado nos Estados Unidos e na Europa, à qual sociólogos e psicólogos políticos têm chamado de polarização afetiva. Os rótulos políticos usados são vazios de conteúdo político ou programático e cheios de conteúdo emocional, tipo amo nós, logo odeio eles

A polarização é um fenômeno global, mas suas manifestações locais variam no conteúdo, na intensidade e na persistência. No nosso caso, ela já era observada no comportamento mais agressivo de militantes e lideranças do PT, buscando demarcar um território de confronto, definido pelo "nós" contra "eles". Com a ocupação do polo antagônico por uma direita mais organizada, capaz de captar os sentimentos e os ressentimentos primais, a frustração, a raiva, em parte responsáveis pela rejeição à política e à corrupção, essa polarização se radicalizou e os extremos se tornaram mais apartados e incompatíveis entre si. Há algumas semelhanças e várias diferenças entre a postura do PT e a de Bolsonaro e seus apoiadores. O PT, apesar da retórica que desqualificava seus críticos e, muitas vezes, chegava ao assédio moral, no limite apenas lançou dúvida sobre parte dos mecanismos de freios e contrapesos da democracia. Seus governos, todavia, respeitaram, na prática, os limites da Constituição e as instituições democráticas. O discurso de Bolsonaro, especialmente antes de sua eleição, e de seus aliados mesmo terminada a disputa eleitoral, contém ameaças à institucionalidade democrática. A militância que o apoia é radicalmente ofensiva, desqualifica e promove insistente assédio moral a todos os seus críticos, mesmo os mais moderados. O conteúdo de ameaça de violência física é mais presente, maior e mais explícito.

As instituições de amortecimento das tentativas mais extremadas de uso do poder político e de freios e contrapesos da democracia brasileira amadureceram muito nesses trinta anos de vigência da Constituição. Foram testadas em dois impeachments, um deles logo após a primeira eleição direta para Presidente, por graves crises econômico-financeiras, e por enfrentamentos políticos bastante duros. Passarão, agora, por um teste de resistência política bastante significativo e direto. Parte da agenda de Bolsonaro é inconstitucional e a tentativa de implementá-la deve chegar ao controle de constitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal. A judicialização da política é praticamente inevitável. A observância dos limites democráticos e constitucionais do poder presidencial do novo governante será, então, concretamente testada.

Não está claro se o novo governo dará início a um novo ciclo político, ou será um período de transição. É provável que vivamos uma transição mais prolongada e que o novo ciclo do presidencialismo de coalizão só comece a se definir mais claramente a partir das próximas eleições gerais. O momento presente e o ano de 2019, é de transição e, como tal, manifesta-se, primeiro, como crise. No caso, em particular uma crise do sistema partidário e muita incerteza quanto ao futuro.

O PSDB saiu dessa eleição em frangalhos e ainda terá que demonstrar se tem condições de viabilidade. Há divisões internas profundas quanto aos rumos que o partido deve tomar. Foi rebaixado do grupo dos cinco maiores partidos, para ser a nona bancada da Câmara dos Deputados. As perdas para o Senado foram compensadas pela permanência dos senadores que ainda têm quatro anos de mandato.

O PT também está em crise, embora se recuse a assumi-la ostensivamente. As divisões internas se aprofundaram bastante nessas eleições. A derrota para a direita, numa evidente onda antipetista, mostrou o esgarçamento de seu relacionamento com a sociedade, o qual foi decisivo para que ficasse na Presidência por 14 anos. Perdeu eleitores em áreas tradicionalmente petistas no Sudeste e no Sul, principalmente. Embora tenha se mantido como a primeira bancada na Câmara, ficou confinado ao Nordeste, região onde elegeu seus governadores e na qual se concentraram os votos ao candidato a presidente, Fernando Haddad. Será uma das principais forças de oposição ao governo Bolsonaro, mas isso pode não ser suficiente para restaurar a reputação social do partido e pode reforçar a posição daqueles que defendem o retorno à ortodoxia petista.

Nem o PT, nem o PSDB deram demonstrações convincentes, até agora, de que pretendem se renovar e repensar. O PSDB continua em sua habitual indefinição, sem querer enfrentar os conflitos necessários à sua reciclagem política. O PT, por enquanto, retornou a suas posições tradicionais e mantém as mesmas lideranças. PMDB e DEM também perderam muito espaço nas duas últimas eleições. Muitas oligarquias, a começar pela longeva dinastia de José Sarney, sofreram derrotas acachapantes. Algumas, sobreviveram, como as dos Calheiros, em Alagoas, e a dos Barbalho, no Pará.

Há forças políticas emergentes buscando um caminho viável para criar uma nova legenda progressista, de centro-esquerda. A ideia é que possa se apresentar como uma terceira via, entre a direita de Bolsonaro e a esquerda do PT. Mas ainda terão que demonstrar a viabilidade dessa empreitada política. Pela centro-direta liberal, o partido Novo recebeu um estímulo importante com a vitória para o governo de Minas Gerais. Conquistou a chance de provar à sociedade de que pode implementar um programa econômico liberal-democrático a partir de um novo padrão de relacionamento com o Legislativo. Fez uma pequena bancada federal, de oito deputados. A ver, se é suficiente para fixar uma personalidade e uma proposta, mirando as próximas eleições municipais e, principalmente, o pleito de 2022.

Essas alternativas propiciadas pelo realinhamento partidário terão não apenas que se mostrar viáveis politicamente. Terão demonstrar eficácia para desradicalizar a polarização durante o governo Bolsonaro. E, ao se consolidarem como opções eleitorais pela centro-esquerda e pela centro-direita, serem capazes de dissolver a própria polarização. Um desafio e tanto. No entremeio, apertem os cintos porque passaremos por uma zona de forte turbulência política à frente.

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