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Em belo artigo sobre Julio Cortazar, para o Prosa deste sábado, 23 de agosto de 2014, fiel ao espírito do amigo, entre a memória e o delírio, Ariel Dorfman escreveu que Rayuela (O Jogo da Amarelinha) foi o “texto fundador de sua geração, nem mais nem menos, cujo assalto descarado e travesso às categorias literárias era um estímulo estético para a libertação social que sonhávamos para o continente inteiro”. Para mim, foi como fechado em um quarto de ar rarefeito e espaço limitado abrir uma janela e receber de frente um golpe de ar, puro oxigênio, e ver o infinito. Era a expressão literária da liberdade e da transgressão.

O escritor pode tudo, dizia-me aquele livro espantoso, para ser lido como se quisesse, seguindo a ordem encadeada dos capítulos, ou saltando entre eles, de acordo com o esquema proposto pelo Autor: 73,1, 2, 116, 3… ou de trás para a frente, ou… Mas, sobretudo, para que pudesse ser lido como o leitor quisesse, era preciso que o Autor o tivesse escrito com soberana independência, com uma liberdade quase impossível de se ter fora do território da ficção. Que fosse escrito como o Autor o quis escrever, na ordem que desejou, com a lógica que imaginou. Exercitando essa liberdade absoluta, criando sua estética, sua ética e seu ritmo, o Autor tornou-se parte de sua ficção, não é mais a pessoa concreta, biográfica, quem escreve, mas seu duplo, seu doppelgänger, a persona que incorpora para, descarnada da realidade imediata, satisfazer aquela necessidade próxima da obsessão e da compulsão de escrever mais do que aquilo que quer, o que precisa escrever. Entendi perfeitamente porque Cortázar escreveu no capítulo 73 ou  inicial, como quiserem: “todo es escritura, es decir fábula”. Ao mesmo tempo, “es más que escritura, en un tiempo en que corremos al engaño entre ecuaciones infalibles y máquinas de conformismos”. É espantoso que estejamos celebrando o centenário de Julio Cortazar e o cinquentenário de Rayuela, ainda enredados em máquinas portentosas de conformismos.

Cortázar conseguia negar todos os dogmas e ao faze-lo me ajudou, na entrada da juventude, por meio de uma narrativa cheia de afirmações que se negavam para gerar uma síntese fabulosa, a desaceitar um mundo satisfatório para pessoas razoáveis. Em 1966, era exatamente ao que não queria me conformar. Eu não era mais o mesmo, após passar incontáveis horas, dias, meses, saltando pelas páginas de Rayuela. Cada combinação de capítulos me dava um novo livro, todavia cada vez mais familiar. Relendo agora, li um livro inteiramente novo, contemporâneo de minhas inquietudes do dia, com um nostálgico sentimento de que ele se tornara imortal e uma inesperada inveja de seus leitores mais futuros, porque nele descobrirão mistérios extraordinários. Eles entenderão melhor como ao escrever Rayuela Cortázar “urdía lo necesario para desencontrarnos minuciosamente”.

Cortázar é sempre surpreendente, seja no conto que se alonga por um irresolúvel engarrafamento na estrada, no qual “todo el mundo miraba fijamente hacia adelante, exclusivamente, hacia adelante” (“La Autopista del Sur”, em Todos los fuegos el fuego). Ou imaginar como Guevara imaginaria a saga de Sierra Maestra, “de alguna manera la insensatez tendría que continuar hasta el final, que quizá fuera la victoria, en ese juego absurdo…” (“Reunión”, em Todos los fuegos el fuego).

Sei que há aqueles que não toleram Cortázar. Imagino a todos pessoas razoáveis, que têm os cabelos e as roupas meticulosamente arrumados, bem barbeados ou bem maquilados, com vidas cronometradas e programadas. Não seriam mesmo capazes de entender como “coincidencia de nombre entre el pie y el pie hace difícil la explicación” da maneira correta de subir escadas. Jamais perceberiam como essas outras pessoas que muito além de tolerar não prescindem de Cortazar, precisam seguir perfeitamente seu alerta em História de Cronópios y Famas: “Cuídese especialmente de no levantar al mismo tiempo el pie y el pie” para subir com segurança as escadas de sua perplexidade. Estes que não prescindimos de Cortázar somos raros, em um lugar “donde las cosas se hacen por obligación o fanfarronería, nos gustan las ocupaciones libres, las tareas porque sí, los simulacros que no sirven para nada”. Somos Cronópios, esses seres desordenados que deixam suas recordações soltas, diferentes dos Famas, que as conservam embalsamadas. Ainda desejamos a mudança social para nosso continente e para o mundo todo. Somos Cortazar, sempre.

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