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Cada leitor tem sua versão do que lê. Nossa personalidade é um filtro, que transforma a narrativa concebida pelo autor em uma mistura pessoal de impressões estéticas provocada pelo texto e sentimentos e lembranças por ele evocadas mas não necessariamente nele presentes. Ao ler Boa Noite a Todos, de Edney Silvestre (Record, 2014), obra dupla, novela e teatro, o que me veio à mente de imediato foram os versos pungentes de Tamara Kamenszain, em O Eco de Minha Mãe (7letras, 2012). Descobri esses versos da poeta argentina lendo uma crônica literária de José Castello. Estava escrevendo Que Mistério tem Clarice? e as várias possibilidades da morte na literatura, as reações à perda da mãe, me interessavam particularmente. Ao iniciar a leitura da novela de Edney Silvestre, a solução engenhosa por ele encontrada para lidar com o apagar da memória de Maggie, pela repetição, muitas vezes como eco, “Isabel. Isabel e Mary. Não: Isabel e Tassy.” ou “Tessy, Tess, Teresa. Não importa.” E mais adiante: “Minhas pastilhas estão se apagando. Não são pastilhas. São… São… Estão se apagando, uma a uma. Cada vez mais rápido. Como se estivessem desenhadas em areia e o vento as… O vento as… O vento faz que elas se… Elas se…”.

Como diz Kamenszain,  “o eco (…) rematará entre reticências: eu não sei… eu não sei… eu não sei”. O poema me interessava por que Tamara tratava de um eco nela da mãe que se apagava. Eu mergulhava nas relações entre mãe e filha, para escrever minha própria narrativa, e nas impressões deixadas na filha pela perda da mãe. Como diz a poeta “há golpes na vida tão fortes…” Ao começar a ler a novela de Edney Silvestre, entretanto, o poema retornou à minha mente não mais por esse ângulo, mas como uma visão estética paralela do mesmo apagar-se cada vez mais rápido. Maggie, a personagem de Boa Noite a Todos está, como a mãe da poeta, “na borda de sua memória”. Ela se apaga e se apega aos fiapos de memória, que ainda lhe permitem alguma consciência de si. O relato delicado de Edney, na forma de novela, tem um aspecto essencial na minha filtragem de sua bela narrativa, o da escolha e da decisão em situação extrema. Maggie já escolhera. A decisão já estava tomada. A razão era simples e clara; “o que eu não quero, não vou permitir, é ir me apagando, pouco a pouco. Não apenas minha mente. Também meu corpo” – diz na novela. “Meu corpo também está se desfazendo… Como os cadáveres no rio Ganges…” – diz na peça.

O ponto crucial, entretanto, não é a escolha – controversa em si – nem a decisão – autoexplicável – mas o fato de que ela precisava ser executada. E para executá-la, Maggie precisa do que não está perdendo: consciência e lembrança. “E porque ainda tenho alguma lucidez…” O que nos ata e nos enreda no relato de Edney é, exatamente, esse tênue resquício de lucidez, que poderá, talvez, permitir que Maggie realize seu último desejo. E a tentativa desesperada de compor um mosaico que faça sentido, com os cacos de memória, que se vão despregando, antes que caiam no completo esquecimento. “Somos os que nos lembramos. Somos feitos das recordações do que fomos. Do que vivemos. Do que lembramos que vivemos” – ela afirma na peça. Mas Maggie se perde inexoravelmente de si e busca em sua desmemória uma direção retrógrada. Como no poema de Tamara Kamenszain,

“a desmemória de minha mãe assinala para mim:
uma direção retrógrada:
amnésia de amor que avança
sobre o peso do passado
deixando um coração tão leve
como inservível.”

E Maggie, como a mãe de Tamara, “se copia da que era” apegando-se à parca lembrança de suas lembranças, para chegar até o final e poder realizar o desejo, a escolha que fez. Maggie quer se lembrar de si, mas não quer se ver, não tolera mais conviver com esse apagar-se, esse desaparecimento do tivemos de melhor e mais belo. Há formas de envelhecer que nos derrotam. “O que sobra de nós, afinal, é isso?” – ela indaga na peça. “A sombra do que fomos?  O arremedo do que fomos? A caricatura do que fomos?” Dessa dúvida nasce uma afirmação contraditória que atordoa, quando vinda de alguém que se apega a cada fiapo restante de memória: “O esquecimento é um alívio”.  Contudo, rápida vem a resposta de quem precisa lembrar, para poder agir: “Mas nem sempre.” Sim, não no seu caso, naquele momento, onde esquecer é tudo que não se pode permitir.


Maggie quer se lembrar e não consegue. Ao contrário da poeta argentina, a personagem de Edney, não tem mais sequer o eco de sua mãe. “Não me lembro da voz da minha mãe. Não consigo, não consigo, por mais que tente, não consigo. Nem a do meu pai. Nenhuma voz. Nem os rostos. Como se fossem desenhos que alguém está apagando.” Ela viveria em um mundo de silêncio absoluto, não fosse a lembrança mais forte, à qual se apega, ainda que ela também se apague, do seu grande primeiro e perdido amor, Harry. “Entretanto, de Harry… No entanto, de Harry…” (…) “Harry era lindo, dourado… E xucro.”  

Edney Silvestre nos conta de duas maneiras essa travessia dolorosa de Maggie rumo ao apagar-se completo do cérebro, em um esforço derradeiro, que a faz uma pessoa em desconstrução e reconstrução. Tece uma trama delicada e dolorosa, atormentada e poética, sob duas formas díspares e consoantes, ambas muito bem realizadas. Uma, mais delicada, com nuances e adereços, que completam os lapsos da desmemória de Maggie e lhe refinam o perfil, sob a forma de novela. Outra, mais crua e direta, mais ação, sob a forma de uma peça de teatro. Mas não um monólogo, antes um diálogo, de Maggie com sua lembrança de Maggie, de Maggie com Harry. Maggie com Harry… é nessa relação dissolvida, todavia, indissolúvel na alma de Maggie, nunca resolvida, embora ela trate com aparente tranquilidade o fato de ele a ter deixado, que ela vai se amparar, para em um último delírio recompor-se e satisfazer seu derradeiro desejo. “Eu me recordo de cada momento que você e eu passamos juntos.”

O poema de Herman Hesse, musicado em um dos Lieder das “Quatro últimas canções” de Richard Strauss ecoa repetidamente, nas duas narrativas, dando-lhes ainda mais tessitura dramática e poética. “Ao fim do dia, exausta, busco ardentemente o repouso na noite estrelada, como um amigo acolhe uma criança fatigada… (…) E minha alma, livre, quer voar solta no espaço, pelos círculos mágicos da noite encantada, onde vai viver milhões de vidas…”.

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