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Aura foi o primeiro livro de Carlos Fuentes que li, nosso primeiro encontro, ainda na minha adolescência. Começava a me apaixonar pelo realismo mágico. Devorei o pequeno livrinho, em tradução para o português, como se estivesse em transe, dominado pela magia de seu enredo. Foi um encontro de espanto e perplexidade. Tudo nele foi um choque para mim.

A surpresa começava logo nas duas primeiras frases: “Lês esse anúncio: uma oferta dessa natureza não se faz todos os dias. Parece dirigido a ti, a ninguém mais.” O narrador se dirige ao personagem central, Felipe Montero, quase como se a comandar suas ações. Essa perspectiva narrativa, que estabelece uma cumplicidade e, às vezes, uma imputação quase condenatória entre narrador e personagem foi uma descoberta literária muito significativa para mim. Principalmente porque Montero não era o personagem central. Fiquei imediatamente prisioneiro das nuances estéticas e formais desse texto, tudo nele era novidade para mim. Reli Aura, no original, muitas vezes. Jamais deixei de sentir uma mistura ácida de sentimentos. Nunca deixei de me encantar pelo texto de Carlos Fuentes. Tive sempre a certeza de que essa aparição de “olhos de mar que fluem, se fazem espuma, retornam à serenidade verde, voltam a animar-se com uma onda” é uma das mais intrigantes e bem urdidas personagens da literatura latino-americana. Ressonâncias de Edgar Allan Poe me assombraram naquela primeira leitura. Depois, com as muitas releituras fui me certificando cada vez mais da singularidade de Carlos Fuentes.

Aura, esse anjo-demônio, velha-jovem, pessoa-fantasma criava uma intrigante questão de identidade e de realidade que me fascinou pelo resto da vida. O relato escabroso de Fuentes me dominou por completo. Recentemente, senti sensação parecida em alguns trechos de Marina, de Carlos Ruiz Zafón. Imediatamente me lembrei ter tido a mesma sensação ao ler A Sombra do Vento. Neste último, aquela menina cega e linda, Clara, enfeitiça Daniel desde a primeira vez que lhe aparece “como um anjo esculpido em brumas”. Aura, Marina e Clara têm em comum a existência em casas sombrias, na qual fazem companhia a um parente mais velho e um poder excepcional de sedução. São metáforas do amor inalcançável, embora tão próximas, ao alcance da mão. Aura é, das três, a mais etérea, surreal e fantasmagórica.

Todas têm alguma limitação definitiva. Algum tipo de fragilidade as faz quase intocáveis. Há algo no comportamento delas que parece errático, emocional. Aura é a mais inapreensível, gerada no limite entre o real e o imaginário, entre a concretude e a magia. Aquela “garota que não consegues ver de corpo inteiro porque está tão perto”. Cuja “aparição foi imprevista, sem nenhum ruído – nem mesmo os ruídos que não se escutam, mas que são reais”, porque “são mais fortes que o silêncio que os acompanhou”.

A busca febril e obsessiva pelo amor e pela suposta libertação de Aura conduzem Felipe e o leitor ao pesadelo e à revelação. Nada do que rodeia Aura é totalmente real. Nem mesmo Felipe Montero. Ou os gatos misteriosos que um dia miam, chamando a sua atenção, e outro dia, em uma alvorada após noite insone, o assustam com seu miado tenebroso de agonia, enquanto ardem no jardim lateral. Gatos e jardim que, interrogada, a senhora Consuelo, a anfitriã anciã, sinistra e envolvente, nega existirem.

Tudo é misterioso e inconcluso na estória de Aura, que o protagonista comparte com crescente intensidade. Tudo é aparência e nuvem, enquanto a inefável moça dá pistas todo o tempo do labirinto em que ele se perdeu.

Ler a novela de Carlos Fuentes na adolescência foi como entrar em uma fábrica de perguntas existenciais e, ao mesmo tempo, passear por um corredor envolto em brumas, cheio de ruídos inexistentes e silêncios ensurdecedores, povoado de fantasmas, de visões que apareciam como nuvens de espanto. Durante dias, fiquei dando voltas em torno da lamentação da senhora Consuelo, que Felipe Montero surpreende em surto devocional: “Ai! Como tarda em morrer o mundo!”.

Carlos Fuentes oferece resolução inesquecível da charada fantástica que se inicia com aquele anúncio de jornal que só poderia ser para Felipe Montero, quando ele se aprofunda na pesquisa dos documentos do general Llorente, marido morto da senhora Consuelo. A perplexa descoberta de uma confissão terrível do general: “le démon était aussi ange”, o demônio era também anjo. E seu próprio espanto ao descobrir Aura nas fotos do passado do general: “Aura não está tão jovem como na primeira fotografia, mas é ela, é ele, és… eras tu”. A frase final, surpreendente e terrível, que encerra o relato de Fuentes (e que sugiro ao leitor buscar neste livro imperdível) deixa seu enredo permanentemente suspenso na teia do imaginário. Ao mesmo tempo dá um significado singular ao ponto crucial do trecho de Jules Michelet que Fuentes usa como epígrafe: “a mulher intriga e sonha; é a mãe da fantasia e dos deuses”.

Carlos Fuentes escreveu outros livros muito importantes. Gosto mais de uns que de outros e de Aura mais que de todos os outros. Seu primeiro livro, A Região Mais Transparente, é um esplêndido retrato em ficção do México daquele tempo, que, como escreveu José Emilio Pacheco, “deu nome ao que não tinha nome, converteu em personagens os seres anônimos que percorriam as ruas transfiguradas pela perene injustiça, a violência de sempre, a vitória da miséria, a especulação imobiliária e a tempestade do progresso”. É o livro icônico do México que quer recobrar sua identidade e dar voz autônoma a seu povo. Um livro manifesto, de profunda riqueza literária e que permanece tragicamente atual.

A Morte de Artemio Cruz, aquele que “desejava apagar a memória da origem  e fazer-se querer sem memórias”, figura, ao lado de Aura, entre minhas preferências. Além do seu lado alegórico, Artemio Cruz é a voz campesina que lembra a diversidade do México. Reli este livro pela primeira vez quando, estudante de sociologia, estudava a heterogeneidade brasileira. Artemio Cruz me parecia sempre mais preciso e arguto que os textos sociológicos que lia: “Recordarás o país? Sim haverás de recordá-lo e não é um; são mil países com um só nome. Isso saberás.”

Mas foi Aura que me marcou indelevelmente. Como leitor e como escritor. Foi muito forte a influência desse livro, de seu clima, da forma pela qual real e irreal se entrelaçam, nos contos de juventude que escrevi e publiquei esparsamente em suplementos literários. Mesmo em meu romance O Pelo Negro do Medo não será difícil perceber essa influência em algumas passagens.

Esse meu primeiro encontro com Carlos Fuentes, por intermédio de Aura, foi desses marcantes e inesquecíveis. Por isso escolhi falar dele, para celebrar a vida de Fuentes, no momento de sua morte.

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