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Um dia, há muitos anos, andando pela Gávea, encontrei uma amiga da juventude em Brasília, que não via desde que deixei a cidade, no início de minha vida adulta. Desta forma, tive notícia de que vivíamos novamente na mesma cidade. Nunca mais a vi. Fui reencontrá-la, anos depois, no Facebook. Começamos, então, uma conversação de amigos virtuais, mas próximos, falando de livros. Ela me contou do livro que escrevia. comentou meu romance O Pelo Negro do Medo. No lançamento de meu romance Que Mistério tem Clarice?, nos vimos outra vez, fisicamente. Comentou Que Mistério tem Clarice? mais de uma vez. Ela, como eu, é leitora assídua. O romance fala de uma escritora que vai morrer de um câncer terminal e tem que decidir como tratar um segredo que guarda fundo no coração. O livro não é dominado pela doença, nem pela morte, mas pela celebração da vida. Conto o enredo, para deixar claro que, a partir dele, essa amiga falou de sua própria luta e de pessoas de sua relação afetiva, com a doença que, com os avanços da medicina, passou a ter tratamento eficaz.

Esta semana, foi minha vez de ir ao lançamento do livro da amiga. Mais um encontro físico, em uma amizade predominantemente virtual. Quem imagina, com pessimismo, que as redes isolam, ou descarnam as relações, ou são principalmente canal para as milícias sujas difamarem e achincalharem, circuitos de mensagens de ódio e depreciação, não conhece bem seu lado luminoso. As redes re-unem pessoas que se perderam. Unem pessoas desconhecidas entre si, com afinidades que  são descobertas no fluxo virtual de informações. Podemos controlar a parte que requer recato de nossa privacidade, nas mensagens particulares, nos grupos fechados. Quantas vezes já ouvi ou li o relato de pessoas que reencontraram velhos amigos, parentes, perdidos nas dobras da vida física, que distancia e absorve. Vivemos inapelavelmente em dois mundos simultâneos, duas realidades paralelas, que podemos tornar concorrentes ou complementares. Depende de cada um. Mas somos seres com duplo pertencimento, a não ser que queiramos nos exilar no mundo físico e ficar desconectados. É a opção mais solitária atualmente. É do trânsito entre a socioesfera, o mundo físico, e a ciberesfera, o mundo virtual, que podemos tirar, hoje o maior proveito pessoal e profissional. O resto é passado.

Essa digressão tem tudo a ver com o livro de Maria Lúcia Almeida Roza, Infância Cura. Trata de sua luta para vencer um câncer e de sua opção pela vida. Ela mistura estilos, que se combinam com muita harmonia, um misto de reminiscências, diário, poemas, cartas. Sim, tem um lado epistolar, porém contemporâneo, são e-mails, mensagens no Face, que envia a poucos, parentes e amigos, para falar de sua batalha cotidiana. Querendo manter em reserva a doença, mas sem a metaforizar, como adverte Susan Sontag, Maria Lúcia resolve compartilhar a moléstia e o tratamento com aquele círculo íntimo de confiança. “Eu estou lidando com esta doença da forma mais privada que consigo.” É uma batalha particular, que desejava manter privada, porém compartilhada, numa aliança afetiva, na qual podia se apoiar.

Mas, tudo na vida é processo, fluxo, aprendizado. Até as dores insistentes da doença e de seu tratamento. Ambos exaurem, testam a vontade e o tamanho da esperança de cada um. É bom ter aliados nessas horas. Maria Lúcia conta a dura travessia, numa prosa fluida, goiana, muito próximo do jeito sertanejo das minhas Gerais, entremeada por lembranças e mensagens aos amigos. Mensagens, que nos momentos mais difíceis, se torna uma âncora, que a impede de se perder nas sendas escuras que essas ondas recorrentes de mal-estar a tentam arrastar. Tornam-se um objetivo que funde com o desejo de viver e vencer a doença, para lhe dar mais força e propósito. Os amigos cobram os silêncios, ela encontra forças onde parecia não ter para manter o relato. Esse compromisso de escrever aos amigos e parentes próximos, para o qual precisou autodisciplinar-se, é o lado existencial da fisioterapia. Não psicoterapia, o que faz profissionalmente. Ou também, uma forma de autoterapia? “Tenho a declarar que nunca estive numa análise tão profunda, com os ingredientes para que ela exista; confiança, imagem projetada do analista, presença que paira me acompanhando. E não quero descer aos infernos, reafirmo; quero me agarrar nas bordas e ver a planície…” Um exercício quase diário, disciplinado, para robustecer a musculatura da alma e da esperança, para ocupar a mente com vida bem vivida e não deixar a vontade perder-se nos desvãos da enfermidade. Esse encontro virtual, permite compartilhar, fazer-se visitada sempre, pedir a presença física, quando possível e necessária. A ciberesfera ocupa os espaços deixados involuntariamente vazios pelas limitações impostas pelo tratamento, complementa existencial e afetivamente a socioesfera.
 
Maria Lúcia acertou em cheio ao decidir não editar as mensagens, nem para corrigir, nem para integrá-las ao tom da narrativa embalada pelas memórias, ou descritiva do tratamento e suas sequelas. Esse tom coloquial, que escorrega para o literário aqui e ali, dá vigor e proximidade ao livro. Ao  lê-lo somos acolhidos naquela esfera íntima de relacionamento afetivo, de confidências, de sinais que só os iniciados, os que conviveram conseguem decifrar inteiramente. Com essa naturalidade de uma conversa entre irmãos e amigos fraternos, algumas reminiscências pareçam sair do delírio. Não que sejam irreais ou alucinadas, mas têm um ritmo mais febril, mais onírico.

No mesmo passo em que vence as etapas mais duras da quimio, em que o espirito n!ao debilita, amparado naquela rede solidária que lhe dá a mão virtualmente, para suportar e superar, ela rompe o bloqueio que aprisionava a escritora na intimidade do desejo. Ela não abre apenas as portas da percepção do valor e da beleza da vida — não são poucas as vezes que diz que teve e tem uma vida feliz — abre o caminho para passar do desejo de ser escritora à publicação. E, para a leitora assídua e atenta, para quem escreve e não compartilha, esse caminho foi também de autoafirmação como pessoa e escritora. Em outras palavras este é, também, o relato de uma escritora que sai do mundo virtual do desejo, para o mundo físico do livro.

É uma narrativa que recorre a várias ferramentas da escrita e abre diversas dimensões do percurso de vida da autora. Uma camada trata das agruras da quimioterapia. Outra, é memória. Outra é diário de uma vida particular. Outra, ainda, conta a trajetória da autora, no caminho cheio de bloqueios, para se tornar escritora. O resultado é este livro e… os próximos. A escritora já caminha livre.

É um livro engenhoso e simples. Literário e confessional. Corajoso e frágil. “Escrever para mim é ter coragem. É não mais me negar. É não temer.” A coragem da auto-exposição desabrida, em momento de extrema fragilidade, em que se dispõe vulnerável apenas para a rede fraternal. A fragilidade de quem pede companhia, nos momentos difíceis do tratamento. Um livro que se termina com a sensação de que precisávamos mesmo ter lido. Saímos mais conscientes de como os outros são parte tão necessária de nós. Virtual ou fisicamente somos uma rede.

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