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Vou confessar um pecado da adolescência. Quando li Jorge amado pela primeira vez, não gostei. O primeiro livro dele que me caiu às mãos foi Cacau, o seu segundo. Achei grosseiro, populista. Eu era jovem e algo precoce nas minhas leituras, o que empoava ainda mais minha soberba de adolescente “intelectual”. O próprio Jorge Amado, diria dele mesmo as razões que me fizeram desgostar dele de início. Ele era “o antidoutor, o antierudito”, “folhetinesco”, um intruso nas letras, um estranho no ninho da inteligentzia. E, embora ele mesmo, não sem ironia, se definisse dessa forma, evidentemente não era “popularesco”, muito menos populista, era popular. Um defensor das causas populares, na vida e na literatura. Um bravo, incansável lutador, até agora, quando foi encantado, nunca vencido.

Já que comecei, confesso tudo. Quem me fez ler Jorge Amado novamente, primeiro com atenção, depois com gosto, foi Albert Camus, então uma referência importante para mim. Continua sendo, embora o que dele hoje me fale mais fundo, não seja o mesmo que me mobilizou na adolescência e juventude. Um dia, um sofisticadíssimo amigo meu me trouxe como lembrança de uma viagem a Paris uma coletânea de textos de Camus para a imprensa. Entre eles, lá estava, para minha surpresa, uma aclamação de Bahia de Todos os Santos, o quarto livro de Jorge Amado.

Li com espanto, a frase curta de Camus sobre ele: “um livro magnífico e atordoante”. E lá estava a denúncia firme minha ignorância. Ao comparar o Bahia de Todos Santos com o romance de Giraudoux, Choix des Elus, celebrado como uma grande obra intelectual, o relato de Jorge amado saia vitorioso, exatamente porque, segundo Camus, “poucos livros estariam tão distantes dos jogos gratuitos da inteligência”. Via em Bahia de Todos os Santos, “o uso comovente dos temas folhetinescos, uma entrega à vida, naquilo que ela tem de excessivo e desmesurado”. Atordoado, fui à biblioteca de meus pais – os dois eram leitores fiéis dele – para pegar imediatamente Bahia de Todos os Santos e tentar descobrir lá a “trajetória apaixonada de um ser natural em busca da revolta autêntica”. A palavra mágica, naquele dia de revelação, foi revolta. Era o culto da revolta que então me ligava a Camus.

Demorou, mas me curei. A mais anos do que gostaria de confessar, “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”, “velho marinheiro sem barco e sem mar, desmoralizado em terra, mas não por culpa sua” ou “vagabundo por excelência”, é para mim um marco inexcedível da literatura brasileira. E não pela revolta – e revolta houve, contra aquele asqueroso espanhol que lhe serviu água por pinga – mas pelo que tinha de picaresco, por seu tom de folhetim, pelo suspense em torno daquela morte anunciada, pelos cortes quase cinematográficos da narrativa, pelos flashbacks. Um folhetim inigualável.

Nunca mais duvidei das evidentes virtudes de Jorge Amado, que me deixaram atento para o extraordinário exercício intelectual que é escrever um bom folhetim. Uma crônica autêntica do dia a dia, suspensa nos mistérios criados pelo ritmo da pena. Acabei leitor admirado dos dois maiores folhetinescos que tivemos, antípodas políticos, aproximados pelo domínio genial desse gênero enganador, Jorge Amado e Nelson Rodrigues.

Já adulto, estava uma vez em casa de amigos, em uma gelada cidade de upstate New York, conversando sobre literatura e eu falei de minha lista particular de grandes autores brasileiros e suas obras marcantes para mim. Jorge Amado e sua Morte de Quincas Berro D’Água já incluídos. Havia um argentino na roda de discussão e a conversa acabou fluindo naturalmente para a literatura de seu país. Em meio à conversa fiz um elogio de Borges e disse, numa empolgação típica dessas conversas noturnas regadas a vinho, que ele expressava uma parte importante da alma argentina. Estava pensando no seu lado “tanguero” e em suas narrativas e seus poemas sobre o “Sur”. São expressões com raízes populares, mas com um lado elitista predominante. O argentino, um esquentado revolucionário, sentiu-se ofendido, me ofendeu diretamente em revide e a coisa quase acaba em pancadaria. Para ele Borges nada tinha de expressão do sentimento argentino, não passava de um porta-voz de uma elite predatória e sanguinária.

Lembrei-me desse episódio porque ele tem algo a ver com minha primeira reação a Jorge Amado. Eu, por elitismo e arrogância intelectual, reagi negativamente a uma manifestação não só de raiz – retrato da autenticidade popular com a qual Amado se identificava – mas de extraordinária riqueza literária. Ele, por intolerância ideológica, negava em Borges o inegável, sua autêntica “argentinidade”.  Duas formas de preconceito.

Não me julgue mal o leitor. Em momento algum imaginei, ao escrever essa confissão acima, que ela tenha alguma importância a propósito de Jorge Amado. Foi apenas um abuso de poder sobre esse pequeno território que me foi dado em No. Estou me aproveitando abusadamente dele em proveito pessoal, só para poder dizer publicamente: sorry, Amado. Salve Jorge.

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