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A Chapada Diamantina arde, como nunca ardeu. Lembrei-me imediatamente de Monteiro Lobato escrevendo, em Urupês, que a “Serra da Mantiqueira ardeu como ardem aldeias na Europa”. Era a Primeira Guerra mundial. E dizia, “é hoje um cinzeiro imenso, entremeado  aqui e acolá de manchas de verdura – as restingas úmidas, as grotas frias, as nesgas salvas a tempo pela cautela dos aceiros. Tudo mais é crepe negro”. A Chapada está ficando assim em uma área imensa. Fogo, como sempre, difícil de combater.
A Chapada é cerrado e manancial, é Caatinga e florestas, é campos rupestres e marimbus, o pantanal da chapada. No cerrado da Chapada nasce o maior rio da Bahia, o Paraguassu e corre por mais de 600 quilômetros, passando pela caatinga e pelo Recôncavo, para desaguar em Barra do Paraguassu, na Baía de Todos os Santos. A Chapada é rica como poucos lugares. É patrimônio biológico e geológico. Mas arde como qualquer mato seco.

Por onde ando no Cerrado, na estação da seca, em qualquer época de minha vida, vejo fogo. Queimada é crime. É parte de nossa cultura rural que precisa ser extirpada. Desde minha juventude ouço defesa da “queima controlada”, por sua suposta funcionalidade, como substituta barata de outras formas de limpeza e manejo de pastos. Fogo não se controla. Essa crença é parte do que chamo de complexo de Prometeu.
A primeira vez que ouvi argumentos a favor e contra as queimadas, tinha menos de 18 anos. Trabalhava na sucursal de O Estado de São Paulo, em Brasília. Fui cobrir a Operação Rondon, na Belém-Brasília, e observei que ensinavam o “jeito certo de queimar”, para recuperar os pastos.

Nessa viagem, acabei encontrando um agrônomo do contra. Ele me convenceu que o fogo destrói espécies frágeis, que se perdem, empobrece a terra e contamina a água. Era preciso ensinar alternativas, para evitar que queimassem. Para mim, fez todo sentido. Concordei de pronto. Não existe jeito certo de destruir.

A queimada é uma “velha praga”, esse foi o título que Monteiro Lobato deu à crônica que citei no começo, que falava da queimada de 1914, ele era, então, “humilde lavrador, incrustado na Serra da Mantiqueira”. Conta que “terrível ano de seca foi aquele! O fogo lavrou dois meses a fio, com fúria infernal. O céu toldado, o ar espesso, o crepitar permanente das matas em chama, a fumarada invadindo a casa, os olhos a arderem… Um fim de mundo. E sempre notícias más, a toda hora”. Quem já tenha visto um cinzeiro desses, deixado pela queimada,deveria dar um momento de reflexão ao alerta de Lobato: “ninguém cuida de calcular os prejuízos de toda sorte advindos de uma assombrosa queima destas. As velhas camadas de húmus destruídas; os sais preciosos que, breve, as enxurradas deitarão fora, rio abaixo, via oceano; o rejuvenescimento florestal do solo paralisado e retrogradado; a destruição das aves silvestres e o possível advento de pragas insetiformes; a alteração para pior do clima com a agravação crescente das secas… Isto bem somado, daria algarismos de apavorar; infelizmente no Brasil subtrai-se; somar, ninguém soma…”

O sertanejo, meu quase conterrâneo, Guimarães Rosa, em seu poema Alaranjado, assim descreveu o nosso sertão queimado:

“No campo seco, a crepitar em brasas,
dançam as últimas chamas da queimada,
tão quente, que o sol pende no ocaso,
bicado
pelos sanhaços das nuvens,
para cair, redondo e pesado,
como uma tangerina temporã madura…”

Antes de Lobato e de Guimarães, o Visconde  de Taunay já falava, em 1872, desse fogo consumindo os seus sertões. Em Inocência, narrava o avanço inclemente da queimada intencional. “Nesses campos, tão diversos pelo matiz das cores, o capim crescido e ressecado pelo ardor do Sol transforma-se em vicejante tapete de relva, quando lavra o incêndio que algum tropeiro, por acaso ou mero desenfado, ateia com uma faúlha do seu isqueiro. Minando à surda na touceira, queda a vívida centelha. Corra daí a instantes qualquer aragem, por débil que seja, e levanta-se a língua de fogo esguia e trêmula, como que a contemplar medrosa e vacilante os espaços imensos que se alongam diante dela. Soprem então as auras com mais força, e de mil pontos, a um tempo, rebentam sôfregas labaredas que se enroscam umas nas outras, de súbito se dividem, deslizam, lambem vastas superfícies, despedem ao céu rolos de negrejante fumo e voam, roncando pelos matagais de tabocas e taquaras, até esbarrarem de encontro a alguma margem de rio que não possam transpor, caso não as tanja para além o vento, ajudando com valente fôlego a larga obra de destruição. (…) A incineração é completa, o calor intenso, e nos ares revoltos volitam palhinhas carboretadas, detritos, argueiros e grânulos de carvão que redemoinham, sobem, descem e se emaranham nos sorvedouros e adelgaçadas trombas, caprichosamente formadas pelas aragens, ao embaterem umas de encontro às outras. Por toda a parte melancolia; de todos os lados tétricas perspectivas”. O cerrado que arde na pena de Taunay está lá para as bandas de Goiás e Mato Grosso, depois dos “campos de Miranda e Pequiri, ou da Vacaria e Nioac, no Baixo Paraguai”. Ali, onde, segundo ele, “começa o sertão chamado bruto”. Mas em nada difere a sua queima daquela que vivi no Curvelo, em Brasília, no Pantanal. E quantas vezes não andei também por aqueles sertões cerrados e brutos de que fala Taunay e me defrontei com o fogo e a fumaça.

Há coisa de dez anos, fui ao Pantanal fazer uma reportagem sobre as araras azuis para O ECO, depois publicada em livro organizado por Marcos Sá Corrêa, Sinais de Vida. Em visita anterior ao Pantanal, tempo de seca e fogo, eu e Marcos Sá Corrêa ficamos olhando o fogaréu no horizonte. A fumaça nos acompanhou por todo o voo entre Campo Grande e Corumbá. Ao apurar a história das araras azuis, impressionado por aquele voo meio à fumarola, não resisti e assuntei muito também sobre queimadas. Era outra estação, início de cheia. Ouvi pessoas com sensibilidade ambiental dizerem que não há alternativa, no Pantanal, se não queimar os caronais secos para evitar que o fogo tome as outras partes dos campos e cerrados. Neiva Guedes, a bióloga responsável pela preservação das araras azuis, descreveu-me o peão pantaneiro tradicional: “ele é pirotécnico, sai pelo campo, com o fósforo na mão, e, se deixar, ateia fogo em tudo”.

Há aqueles que julgam essa prática intocável porque é parte da tradição campesina. Tradicional, há de ser. Vem de longe esse mau hábito, como mostrou Warren Dean, ao relatar minuciosamente a destruição por séculos da Mata Atlântica, a ferro e fogo. Não é esse tipo de cultura tradicional que precisamos preservar. Esse é um traço pervertido de nossa cultural do campo, mais que pirotécnico, incendiário. A boa cultura tradicional é a da convivência com a natureza.

O fogo na mata é parte de minhas memórias e nunca me deixou de assombrar. Tenho várias lembranças de Brasília. Morei lá a infância e um bom pedaço da juventude. Mas, no fundo da memória, estão as imagens, os sons e os cheiros das queimadas. Frequentemente atravessávamos de carro um corredor de labaredas, pois o fogo havia tomado as duas margens das estradas. Mesmo dentro da cidade, lembro-me de ir do Iate Clube ao campus da Universidade de Brasília por uma rua, então deserta, quase todo o tempo dentro do fogo. Meus amigos e eu costumávamos fazer longas caminhadas, Cerrado adentro, em áreas hoje inteiramente tomadas por construções. Passávamos por grandes extensões de cerrado primário. No Plano Piloto, o centro de Brasília, ateava-se fogo para ver o mato queimar. Em uma ida recente à capital, passei por trecho remanescente de cerrado minguado em chamas, próximo ao Palácio do Planalto. Foi, para mim, o símbolo do casamento entre essa cultura incendiária e governos omissos.

Quem conheceu o cerrado como eu, caminhando por dentro dele, sabe como ele é rico. Conhece a beleza espetacular de suas flores. A resistência heróica da canela de ema, solitária e verde em meio às cinzas. O sabor variado e pouco conhecido de seus frutos. Tem noção da quantidade de aves e mamíferos que ele é capaz de abrigar. Escrevi quando Brasília 50 anos, que nunca deixei de me espantar com aquele cenário de desolação criado pela queimada, que marcava o compasso de nossas angústias. Via o símbolo daqueles tempos, de sonhos juvenis, de raiva com a falta de liberdade, o fogo ideológico queimando cada vez mais forte, quanto mais avançávamos na noite escura da ditadura militar. Aquele chão plúmbeo, ficou em mim como o retrato do Brasil que eu vivia com intensidade, perplexidade e desespero. O arbítrio queimava nossas esperanças e o fogo devastava o nosso campo. Essas memórias das cinzas do cerrado de minha infância e juventude me assaltam a mente sempre que vejo mata ardendo.

Estamos preservando o que temos de pior e depreciando, abandonando e esquecendo o que temos de melhor. Esse comportamento de descaso e negligência descortina tétricas perspectivas para o Brasil. É este o desafio que teremos que enfrentar, se quisermos nos manter na trilha civilizatória no século XXI. Não teremos êxito, se continuarmos com desculpas para todos os nossos erros e acusando o passado por nossa insensatez contemporânea. Há o que preservar e o que erradicar. Nesta lista estão, no mínimo, corrupção, trabalho escravo, racismo, grilagem, poluição e destruição de nossos rios, desmatamento e queimada. Tudo o que não se pode tolerar e toleramos.

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