• face
  • twitter
  • in

Ontem a rede social comemorou os 110 anos do nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade. Hoje, a rede lembrou os 40 anos da morte do poeta Ezra Pound. A poesia analógica circula em tempo real no mundo digital. A voz de Drummond falando seus poemas ecoa pela Webesfera, alheia às décadas que os separam. Drummond morreu muito antes de ela nascer. E daí?

Nos 140 caracteres do Twitter cabem versos inteiros e links para os poemas completos de todos os poetas, de Shakespeare, Dante e Camões ao mais jovem poeta nascente. A literatura está presente diariamente na rede social. Links para resenhas de livros, para conversas com escritores. Frases literárias dos mais variados autores são reproduzidas nos 140 toques do Twitter. As pessoas recomendam livros, filmes, músicas. Há um debate continuado sobre temas culturais, literários, até filosóficos rolando na rede. A reprodução de concertos na Internet aumenta a audiência da música de concerto. Toda essa animação cultural, que se origina em tribos de praticantes e aficionados vaza para a grande massa de cidadãos digitais e cativa a muitos.

Acabo de escrever este parágrafo e me vem imediatamente o título inarredável deste post e com ele a lembrança de um livrinho inesquecível, que li nos anos 1970, mas foi publicado pela primeira vez em 1959. Falo de As Duas Culturas (The Two Cultures), de C. P. Snow, um cientista que escreveu também uma série de romances sobre a vida política e acadêmica no Reino Unido. Snow, neste livrinho fundamental falava da cultura dos “intelectuais literários” – a cultura humanística – e dos “cientistas naturais” – a cultura técnico-científica –  separadas por um clima de suspeita e incompreensão. Snow considerava fundamental construir pontes entre as duas para que os humanistas entendessem e usassem a ciência e os científicos e tecnicistas se ilustrassem e compreendessem melhor seu afazer do ponto de vista filosófico e humanístico.

Há uma ponta de incompreensão e suspeita também entre as culturas analógica e digital. Quero deixar claro que não estou tentando criar o conceito de cultura analógica. Estou usando esse termo para poupar vários parágrafos caracterizando a cultura humanística baseada no livro em papel ou no palco físico, por exemplo.

Mas essas duas culturas, como a humanística e a científica, se complementam, mais do que se chocam. Não há conflito entre a cultura digital e a cultura humanística e analógica. Suspeito que haja mais preconceito dos “analógicos” contra os digitais, do que o inverso. É natural. A cultura digital pode conter a toda a cultura analógica e tudo mais que o mundo digital possa criar. O inverso não é verdadeiro. A cultura analógica não pode conter a cultura digital.

Em seu interessante livro “Nascidos Digitais” (Born Digital), John Palfrey e Urs Gasser falam da primeira geração do mundo totalmente digital, ou os “nativos digitais”. Há aí uma divisão real, entre nativos, “migrantes” e “estrangeiros”. Já temos uma coorte de gerações que nasceu digital. Para elas o tablet, o game, o eBook, o Twitter são presenças “naturais”, desde que se entendem no mundo na tenra infância. Para os outros não. é preciso “migrar” para a cultura digital. O fato de existirem “migrantes” de várias gerações distintas, todos nós que não nascemos digitais mas entramos na cultura digital, permite um diálogo entre gerações e culturas, formando um contínuo pelo qual a cultura humanística da era analógica pode passar e de alguma forma se digitalizar. Só os “estrangeiros”, que recusam a cultura digital integralmente, entre eles há os que sequer usam telefone celular, ficam realmente fora deste grande diálogo transcultural.

A cultura analógica flui para o mundo digital. É um movimento unidirecional. Mas os que se criaram na cultura analógica podem migrar para a digital, sem perder os valores formados em sua cultura “originária”. A cultura digital abre numerosas e muito novas possibilidades para todos os tipos de expressão artística – e não artística – se expandirem, complementarem e – por que não? – se transformarem. É preciso que sejam examinadas criticamente, mas sem preconceito.

Por exemplo, consigo imaginar um ficcionista escrevendo um livro para publicação no papel que, quando transportado para o meio digital, possa incorporar cenas filmadas ou animadas, que ilustrem passagens marcantes, como antes os desenhos ilustravam as edições mais cuidadas dos livros. Hoje, o eBook é uma versão quase literal do livro de papel, com mínimas adições, como acesso ao dicionário, grifos ou highlights, bookmarks e a capacidade de compartilhar passagens. Não precisa ser. Pode ser muito mais, adicionando toda a capacidade multimídia do mundo digital.

Ninguém sabe o que acontecerá nas próximas décadas. Estamos no início de um processo de ruptura radical com o passado. Uma mudança paradigmática total, que atingirá todas as atividades humanas, promovida por avanços científicos e inovações tecnológicas, em grande medida convergentes, portanto de uso múltiplo, transdisciplinar. Essas ruptura quebram todos os paradigmas até agora estabelecidos nas ciências e nas artes. Precisamos contemplar essa revolução que já começou e que pode superar em profundidade, alcance e possibilidades a revolução renascentista e iluminista, com uma nova e compatível perspectiva humanística. O pior que poderia acontecer seria que essa mudança paradigmática não fosse acompanhada por uma nova compreensão humanística desse processo revolucionário já em curso e ficasse submetida à mera apreciação tecnicista de suas implicações e potencialidades.

Pin It

Mais recentes

Mais Artigos

Back to Top