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Em palestra recente, eu falava sobre sustentabilidade a e grande transição que vivemos. Uma das dimensões da sustentabilidade, dizia, é que, no caso das empresas, não existe bom comportamento dentro da empresa e mal comportamento fora da empresa. Isto é, não existiria sustentabilidade real, se as práticas sustentáveis fossem apenas do “portão para dentro” da empresa, desconsiderando o que ocorre do portão para fora. Sustentabilidade não é o adereço, é o conjunto, o todo, disse. As cadeias de suprimento e consumo da empresa sustentável têm que ser igualmente sustentáveis. É um conceito conhecido e não usado: do berço ao pó… Na sessão de pergunta e respostas, alguém pediu que eu explicasse melhor essa ideia que equiparava dentro e fora.

Comecei a falar do ser humano. Nele fiquei. Disse que não pode haver um divórcio entre nosso eu interior e nosso eu social, externo. Mesmo quando reservamos um espaço de privacidade, de intimidade, somos um conjunto íntegro. Somos o nosso interno e o nosso externo. Eu e ego. Eu social, ego íntimo, pessoal. Podemos esconder quem somos intimamente, mas apenas com enorme custo e a incoerência haverá de emergir transparente para todos.

Em Brasília, víamos um desses reality de culinária muito competitivos. Paramos nele na busca por um filme que obtivesse dois “sim”, de Daniel, 5 anos, e Mariana, 10 anos. Difícil. Um aprova, o outro veta. O combinado é que só veremos o filme sem veto. Por isso paramos na competição culinária. Estava no estágio final de eliminação de uma das candidatas. Uma loura bonita, falava de suas artimanhas contra a outra, uma agradável senhora que se mostrava simpática e compreensiva com todos. Ela não armava para ninguém. Quando saiu o resultado, com a eliminação da senhora que conquistou a simpatia da minha pequena audiência, e a vitória da loura artimanhosa, Mariana levantou-se e, dedo em riste, bradou para a TV: “Isso não é justo! Tinham que ter analisado o caráter também!” Levantava uma séria e relevante questão moral, sobre o conceito de justiça e os julgamentos unidimensionais, isto é, que se valem de apenas uma dimensão para condenar ou absolver. Daniel, concluiu reflexivo: “É, as aparências enganam mesmo.” Os dois, cada um à sua maneira, falavam da interação entre o interno — o caráter — e o externo — a aparência ou, no caso de Mariana, a habilidade — e ambos demandavam que o resultado avaliasse os dois lados. Fala sério, uma lição de ética de duas crianças que a maioria absoluta dos adultos esqueceu. E nem vou falar de nossa política.

Conhecemos, vida diária, numerosos casos em que pessoas vivem das aparências e pouco revelam de seu verdadeiro caráter. Mas sabemos, também, das não menos numerosas vezes em que a dissimulação se revela nos atos, muitas vezes até involuntariamente. A ideia de somatização é exatamente essa, também. Externalizamos um estresse ou uma dor de forma física, transformando a aflição em doença. O que comemos, o que sentimos internamente, termina por se revelar fisicamente, externamente. Envelhecemos fisicamente mais rápido dependendo de nosso estado íntimo. Quando vamos dormir, a serotonina nos acalma e relaxa, fisicamente. Quando acordamos, a endorfina como que nos acende. Somos dentro e fora sempre.

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