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É grande minha tristeza com a morte do poeta. Se ele se espantava, maior foi meu assombro, muito jovem, ao envolver-me com a luta corporal. Iniciava ali uma viagem clara para a encantação, como li em um de seus versos. E o sobre-espanto, espanto sobre espanto, com a leitura daquele livrinho, um terço da altura normal, com seu interno gigante na forma imprevista do poema sujo, turvo turvo a turva mão do sopro contra o muro. Vivíamos entre muros, então. Tempos turvos.

Várias vezes nos encontramos. Muitas vezes falamos. Era bom. Mas espantoso era lê-lo, a qualquer hora, qualquer dia. Na última vez, recente, sentei a seu lado no chá da Academia Brasileira de Letras. Ao cumprimentá-lo pus a mão em seu ombro e senti sua magérrima pessoa física. Esgotava-se derramando-se na poesia, que muda e transmuta, inconformada. Poeta sempre, todavia nunca o mesmo. Uma parte dele era permanente, outra parte se sabia de repente, não recorrente, mas sempre e diferente. Ferreira Gullar foi tantos. Sintetizou-se na forma de vários poetas, passou a vida desvencilhando-se da formação parnasiana, sem jamais perder-lhe o rigor, sobretudo ao transgredir, reinventando as formas, rasurando as convenções.

Mas sigo triste. A morte de um poeta é uma perda que se sente na parte imortal da alma. Corta um pedaço dela e nos torna mais severamente mortais. Se um grande poeta morre, faz-se um silêncio permanente, escurece o sentimento mais puro do mundo. Ele vive toda vez que alguém folheia seus livros e para em um verso que o acossa e assombra. Mas não haverá mais a surpresa do próximo poema. É esse o silêncio que me aflige. É essa a perda mais permanente que todas as outras. Um silêncio que se soma à poesia silenciada de tantos outros. Os poemas que nunca serão escritos. Os poemas que não virão dos poetas mortos.

“A máscara da vida que perece é mole e aberta como a carnadura de um fruto que no ar, lento, apodrece.” Ah, Rilke (ou Augusto de Campos), porque temos que tratar a morte do poeta com tanta crueza? Porque a morte é a morte, o silêncio, o para sempre e o nunca mais. Esse adeus definitivo que nos empobrece e entristece. “Houve (há) um enorme silêncio. Esse silêncio grita sob a nossa vida e de ponta a ponta a atravessa estridente.” Versos de seu “Silêncio Infinito”. Wittgenstein definiu bem, a morte não é um evento da vida; não vivemos a nossa morte. Gullar não viveu a própria morte, nós é que a estamos vivendo.

Poesia, todavia, é vida, nunca morte. Viva. E despedimos do poeta, celebrando a Poesia e nos consolando nos seus versos. Precisamos da Poesia, precisamos muito de poesia, porque, nos diz Gullar e o repetirá a cada leitura dele, “o poeta desafia o impossível e tenta no poema dizer o indizível”. É, Gullar, o poeta é o derradeiro guardião da utopia.

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