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Quem andar pelo Riocentro, vai encontrar razões seriais para se animar. Afinal, quem não pensaria com mais esperança no futuro ao ver jovens e crianças sentados pelos cantos, absortos na leitura de todo tipo de livro? Ou olhando os estandes das editoras repletos de gente admirando e comprando livros. Filas enormes, de se contar, a cada momento, às dezenas de pessoas com livros na mão para pagar.

Jovens animados lotam os lugares do Café Literário, muito bem programado pelo curador Rodrigo Lacerda, para ouvir o filósofo italiano Nuccio Ordine falar sobre a utilidade do inútil, aplaudindo e manifestando vocalmente seu entusiasmo. Ordine falava com a ênfase de um Giordano Bruno do século 21 sobre como o utilitarismo individualista de nossos tempos está sufocando a criação, o pensamento especulativo, a produção cultural em geral. Em seguida, um auditório não menos lotado, ouvia Lilia Schwarcz falar sobre o gênio e a tristeza de Lima Barreto. Ao final, longa fila se formava, de um lado, para os autógrafos em seu livro Lima Barreto: Triste Visionário. De outro, para a próxima sessão do Café Literário, na qual Gabeira e Deltan Dalagnol falariam sobre corrupção e democracia.

Para mim, bastava andar pelas "ruas" da Bienal Rio, entrar nos estandes das editoras, observar a mais plural e diversa multidão, de todas as idades, admirando, manuseando, lendo e comprando livros. Mas, a tarde alongada nos oferecia muito mais que isto. Além da festa dos livros, uma conversa inteligente, sobre os mais variados assuntos. Todavia, todas tinham um ponto em comum. Ninguém se contentava com o exame do passado ou as lamúrias do presente. Todos olhavam o futuro. E, como não mirar à frente, com mais certeza de que temos caminhos melhores a seguir, nessa celebração do livro, em que o empenho de editores e autores, encontra o interesse e o entusiasmo dos leitores?

A Bienal do Livro no Rio tinha tudo para dar errado. A cidade vai mal e há muito não tem um prefeito tão inepto. O estado está em absoluto desgoverno e em colapso econômico e fiscal. A economia do país mal começa a sair do negativo. A crise política nubla o ambiente e desbota as previsões para o futuro próximo. Mas parece haver um acordo não verbalizado, um encontro de vontades, uma convergência espontânea de impulsos para reagir. Não é mais apenas um #reagerio, é um #reagebrasil, que pode ter dado seu primeiro sinal, não na tímida percentagem positiva do PIB, mas na aposta dos editores em fazer uma festa em cores fortes, sem as sombras da crise. De autores seguirem escrevendo, mesmo sob o risco da recusa da publicação. De conversas inteligentes, que não desconhecem, nem desprezam a conjuntura de crise ou as dificuldades da longa transição do século, mas que insistem em falar de futuro, de futuros possíveis e de futuros desejáveis. Que não se vexam de dizer, como Nucio Ordine, que precisamos novamente das utopias, do sonho, porque são essas especulações inverossímeis que geram as mais revolucionárias e renovadoras iniciativas. Não se age com vitalidade e esperança, se não se acredita no improvável. Agir em busca apenas do previsível é contentar-se com a mediocridade pragmática e estéril, por mais rentável que venha a ser por algum tempo.

Andava pelas "ruas" da Bienal e pensava como sempre acreditei no poder libertador do livro. Como os livros escreveram boa parte de minha vida. Foram meu principal arrimo. Pensar em livros, levou-se a lembrar de quatro professores que mudaram minha vida. Três deles, muito antes de pensar numa faculdade. Ouvia Nucio Ordine falar com emoção do professor que, no interior pobre da Calábria, tornou possível que ele, filho de lavrador, se tornasse um filósofo-professor, especialista em Giordano Bruno, e pensava na força real do conhecimento e na generosidade inerente ao ato de ensinar. Como um legado sem valor material algum, capaz de trasformar vidas e países. Andava, ouvia e me dava conta de que toda grande mudança, pessoal ou social, só tem sucesso quando se acredita no impossível.

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