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Hermann Hesse, cujo cinquentenário da morte se lembrou em 2012 – ele morreu em 9 de agosto de 1962 – para celebrar sua vida e obra, tinha paixão pelos livros. Para ele “todo livro é uma aventura da mente e um convite para experimentar os regalos da imaginação”. Livros e ideias podem mudar o mundo, porque mudam definitivamente as pessoas. Não é por acaso que os regimes obscurantistas censuram livros, fecham e queimam bibliotecas.

Hesse não era um escritor de muitas complexidades, mas muitos de seus livros têm essa força transformadora. Sua literatura é franca e abriu caminhos. Um dos expoentes do expressionismo alemão, promoveu inusitada e inédita fusão entre o espírito alemão e a mente oriental.

Escreveu belos poemas, também. Eles têm mais a simplicidade aparente da poesia oriental, do que a força cerebral dos poemas de Goethe ou de Rilke. Seus versos não têm rebuscamentos, artifícios de linguagem ou adereços formais. São despretensiosos, lembra Andrew Harvey, na edição recente de poemas que permaneciam inéditos em inglês, traduzidos por Ludwig Max Fischer. Os poemas de Hesse são reflexões singelas, às vezes soam como conselhos desarmados de um amigo mais velho e experiente.

Hesse teve influência decisiva em minha formação literária e intelectual na juventude. Ele marcou muitas gerações, desde a do após guerra de 1914-1918, que recebeu como uma revelação seu Demian, publicado no ano icônico de 1917. Demian pertence à tradição alemã do romance de formação (bildungsroman) mas é literariamente muito distinto de Buddenbrooks ou de A Montanha Mágica, da mesma tradição, de Thomas Mann, outra influência marcante, sobre a qual escrevi na introdução de meu romance O Pelo Negro do Medo (Record, 2012).

Li Demian com o assombro das grandes descobertas. Não é seu maior romance, mas foi o mais importante na minha busca de um caminho intelectual no início da juventude, na altura de meus 16-17 anos. Foi uma leitura muito mais emocional, de descoberta mesmo, de espanto.

Em seguida passei para a leitura perturbadora de O Lobo da Estepe (Record, 1955) no qual ele revela em extraordinária síntese, as dores da transição, quando uma geração fica aprisionada no hiato entre dois tempos: “Há tempos quando uma geração inteira é apanhada entre duas eras, dois modos de vida, e dessa forma perde o sentimento para si do que é autoevidente, de toda a moral, segurança e inocência”. Há transições que adoecem sociedades e pessoas: “a doença dos tempos mesmos, a neurose desta geração à qual Harry Heller pertence, um mal, parece, que de forma alguma ataca apenas os fracos e sem valor, mas ainda mais os que têm o espírito forte e são ricos em seus dons.”

O Lobo da Estepe passou por um ressurgimento nos anos 60, quando voltou a brilhar para outras gerações perdidas. Foi um dos sucessos daquela época em que muitos militantes conservadores, no Brasil, achavam que parte dos jovens se perdia entre a psicanálise e a droga, alienando-se da luta política. Era um engano da esquerda conservadora. Drogas e psicanálise não impediram nem a revolta (que se alastrou por toda a Europa e o EUA, após o levante parisiense de maio de 68), nem a luta contra a ditadura no Brasil. Conheci muita gente que saía da sala do psicanalista para as manifestações na avenida Rio Branco. A ideia de que a psicanálise, com seu subjetivismo, conspirava contra a objetividade histórica necessária para se ter consciência crítica nunca fez muito sentido. A relação entre psicanálise e alienação era apenas o reflexo da visão dogmática e conservadora de parte da esquerda.

Harry Heller era um deslocado, insociável, solitário. Um problema para aqueles que acreditavam em um coletivismo que deveria subordinar as vontades e personalidades individuais. Eu entendia e me identificava com o deslocamento angustiado de Heller e, ao mesmo tempo, via no socialismo libertário o único caminho possível para a superação dos males daqueles tempos. Não entendia a leitura de Hesse como uma negação da possibilidade do socialismo democrático. Ao contrário, quando li no Lobo da Estepe “não estou satisfeito em ser feliz” entendi, precisamente, que só é possível se satisfazer com a felicidade, quando vivemos em um meio feliz. A felicidade em meio à doença ou à tirania se aproxima da perversão. O Lobo da Estepe é sobre a alienação e a revolta como forma de superá-la, embora essa visão seja transmitida pela ótica expressionista do delírio. Hesse, como nenhum outro autor de sua época, soube tratar, simultaneamente, dos problemas do mundo e do indivíduo, da sociedade e do ser.  

O Jogo das Contas de Vidro, teve em mim impacto muito mais cerebrino. Um romance filosófico e também de formação (bildungsroman), fusão inquietante dessa tradição germânica com a filosofia oriental, que li misturado às primeiras, quase anárquicas, leituras de filosofia.

Sentia em Hesse a mesma aversão ao autoritarismo e às ordens preestabelecidas. Não era outra a razão do fascínio de Emil Sinclair pelo mundo de Demian. Ele vivia perturbadora divisão entre dois mundos contíguos. Capazes, até, de dividir sua própria cada. Um, era o mundo familiar e burguês, “da luminosidade, claridade e limpeza, conversas gentis”, onde “se cantavam os hinos todas as manhãs”, um mundo de linhas retas. O outro mundo, era aquele onde encontraria Max Demian e sua mãe Eva, “que cheirava diferente, falava uma língua diferente, prometia e demandava coisas diferentes”. Mundo das empregadas da casa, de trabalhadores e trabalhadoras, de estórias de fantasma e rumores de escândalo para o qual se sentia irremediavelmente atraído. Eu me identificava perfeitamente com essa atração pelo mundo das “transgressões”, do claro-escuro, onde nada é certo ou previsível, como expressão da aversão ao padrão dominante que me fazia recusar as leituras lineares de filosofia ou com lentes dogmáticas, o mundo ordenado e pequeno-burguês, a tirania militar.

A fusão promovida por Hesse entre o pensamento do Ocidente e do Oriente, sua adesão à psicanálise – até por razões existenciais – rompiam claramente com os rigores do sistema intelectual dominante na Alemanha de seu tempo. A rebeldia do espírito de Hermann Hesse cativou muitas gerações, nem sempre pelas mesmas razões, naqueles perturbados anos de 1960. Na minha, fui um dos muitos conquistados por sua literatura. Era um pouco assim: “amávamos os Beatles e os Rolling Stones” e Hermann Hesse, mesmo quando não o dizíamos abertamente em todas as rodas que frequentávamos. Me lembro de ter dado livros de Hesse a muitos amigos. A uma amiga em particular, dei meu primeiro exemplar de Sidarta, como se fosse uma tábua de salvação, para que nela se agarrasse e saísse de profunda crise emocional. Hesse tinha, às vezes, o potencial de atingir pontos profundos do Eu, de dar pistas de significados para a vida na busca da maturidade, que ajudam principalmente as almas jovens, inquietas e perplexas diante de emoções fortes que não sabem ainda processar.

Um poema de Hermann Hesse sobre livros e conhecimento – Livros – que traduzi da versão para o inglês de Ludwig Max Fischer, Seasons of the Soul: The Poetic Guidance and Spiritual Wisdom of Hermann Hesse, (North Atlantic Books, 2011) mostra bem esse seu lado de conselheiro:

Todos os livros do mundo
não te trarão felicidade,
mas construirão trilha secreta
rumo a teu coração.
O que necessitas está em ti:
o sol, as estrelas, a lua,
a iluminação que estavas procurando
brilha no teu interior.
A busca do conhecimento
te fez garimpar as bibliotecas.
Agora cada página diz a verdade
que emana de ti.

Quando um jovem resolve ler nos dias de hoje uma das obras de Hermann Hesse, ele encontrará provas do poder do espírito humano de transcender as circunstâncias e o deslocamento. Mesmo que não encontre no livro um universo contemporâneo ao seu, encontrará ideias e valores que continuam a ter validade.

Hesse, após influenciar profundamente várias gerações, ficou algumas décadas sem ser reeditado em muitos lugares, como se suas obras tivessem perdido a energia espiritual que continham. Mas não perderam. E a reedição de seus livros – Demian, Sidarta, O Jogo das Contas de Vidro (Record) – promove esse reencontro entre as novas gerações e o produto imorredouro do espírito humano que ele representa muito bem.

Thomas Mann, outro extraordinário escritor, foi visitá-lo em sua casa em Montagnola, Ticino, em 1943, quando vivia angústia severa com o destino tenebroso de sua Alemanha. E se admirou com sua sabedoria e sua forma reconfortante de ver o mundo. Ele escreve assim, na introdução à primeira edição de Demian nos Estados Unidos:

“Eu o conheci primeiramente de forma mais íntima quando, sofrendo o primeiro choque da perda de meu país, minha casa e meu coração, eu o via frequentemente em sua bela casa e jardim em Ticino. Como eu o invejava naqueles dias! – não tanto por sua segurança em um país livre, mas acima de tudo pelo grau arduamente conseguido de liberdade espiritual na qual me superava, por seu afastamento filosófico de toda a política alemã. Não havia nada mais confortante, mais curativo nesses dias confusos que a sua conversa.”

Essas manifestações da capacidade humana de superação e progresso têm um poder que vai muito além do indivíduo. São capazes de incendiar corações e mentes, fazer diferença no mundo e provocar mudanças revolucionárias. Em um momento no qual as utopias estão sendo substituídas pelas distopias, pelas visões de um futuro trágico, é importante pensar nessa força trasnformadora do gênio humano em liberdade.

Em setembro de 1962, um mês após a morte de Hermann Hesse, foi publicado nos Estados Unidos o livro Silent Spring (Primavera Silenciosa – Houghton Mifflin, 1962) escrito pela cientista e ecologista Rachel Carson. Transformou-se em marco fundador do ambientalismo no EUA. Um exemplo ainda hoje insuperado de como escrever sobre evidências científicas de forma acessível ao grande público, sem concessões simplificadoras. Rachel Carson já estava enfrentando o câncer de mama que a matou em 1964, quando escreveu esse livro brilhante. Em 1960, havia passado por uma mastectomia radical. Silent Spring, é um livro em defesa da vida, denunciando, pela primeira vez com base científica irrefutável, o envenenamento do ambiente pelo uso de pesticidas sintéticos, principalmente o DDT. “Se continuarmos envenenando a natureza, ela um dia vai nos envenenar”, era sua mensagem central. Vendeu dois milhões de cópias.

Não era o primeiro livro de Rachel. Dez anos antes, ela havia ganhado vários prêmios de prestígio por The Sea Around Us (O Mar à nossa volta – Oxford University Press, 1951) um texto poético sobre o mar, à luz das mais recentes descobertas científicas da época sobre a vida marinha. Em 1964, já muito debilitada pela doença prestou depoimento no Senado do EUA sobre o uso de pesticidas sintéticos. O depoimento e o sucesso popular do livro mudariam a política regulatória do país. Rachel é parte da história que levou ao banimento mundial do DDT. No depoimento dela, o senador Democrata pelo Alaska, Ernest Gruening percebeu, com clareza, a força da criatividade humana e dos livros, ao dizer a Rachel que: “De vez em quando na história da humanidade, um livro apareceu que mudou substancialmente o curso da história.” Silent Spring fez isso.

É possível mudar o mundo com ideias, com palavras, com livros, com atitudes. Com todas as manifestações do espírito humano. Por isso precisamos cultivar esse espírito, individualmente, cuidando de nosso próprio aprimoramento intelectual e como seres humanos, e de toda a gente, lutando pela valorização e pelo investimento na educação de qualidade, na cultura sob todas as suas formas, na independência da produção cultural, na ciência e no jornalismo de qualidade em todas as mídias. Não são as produções panfletárias, as peças de publicidade, ou os artefatos ideológicos que mudam o mundo. São as ideias propostas com qualidade, a boa literatura, a boa filosofia, a boa explicação científica, o bom teatro, o bom cinema, o bom jornalismo. Essa força da inteligência e da capacidade criativa enriquece aos que toca com mais sabedoria, paz interior, tolerância e visão de mundo.

Vivemos uma era de desafios globais. Nunca foi tão importante reconhecer o valor transcendente, universal, cosmopolita das grandes produções da criação humana. Hermann Hesse era um espírito cosmopolita, Rachel Carson, também.

Debilitado pela doença, mas forte no espírito, Hesse não pôde ir a Estocolmo receber o Prêmio Nobel, em 1946. Mandou um discurso por escrito. Nele faz emocionante defesa dos valores do cosmopolitismo.

“Minha saúde sempre foi delicada, e eu acabei um inválido permanente pelos males dos anos, desde 1933, que destruíram o trabalho de minha vida e me assoberbaram novamente com pesadas obrigações. Mas minha mente não se quebrou, e eu me sinto um parente de vocês e da ideia que inspirou a Fundação Nobel, a ideia de que a mente é internacional e supranacional, que ela tem que servir não à guerra e à aniquilação, mas à paz e à reconciliação. Meu ideal, contudo, não é anular as características nacionais, na busca de uma humanidade uniforme. Ao contrário, que a diversidade de todas as formas e cores tenham longa vida nesta nossa amada Terra. Que coisa maravilhosa é a existência de tantas raças, tantos povos, tantas línguas, e tantas variedades de atitude e visão!”

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