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Tem gente que olha para o futuro profissionalmente. Não é fácil. É preciso treino para evitar que o presente embace a vista e impeça que o olhar se alongue, para poder divisar tendências, rupturas, viradas. Quando se olha para trás, se pode verificar, depois que tudo se passou, que é disso que se faz a história e não dos fatos que se repetem, do que é conhecido, do já visto. Podemos ver o passado e compreendê-lo, mas não podemos alterá-lo. O futuro não é visível, mas podemos participar da sua construção. Sempre pode haver eventos incontroláveis, mas temos grande capacidade de dar forma e conteúdo a nosso futuro e por isso é importante esse longo olhar.

Peter Schwartz é um desses profissionais que olham para o futuro sistematicamente, tentando vislumbrar cenários possíveis. Em um livro publicado há alguns anos atrás, com o o título de “Surpresas Inevitáveis” (Inevitable Surprises, Gotham Books, 2003), diz que o século XXI terá sua dinâmica determinada por fenômenos naturais, por causa da mudança climática global. Ao contrário do século XX, que foi inteiramente dominado por mudanças determinadas por processos sociais, políticos e econômicos. Se olhamos para trás, podemos enxergar esses marcos sociais da progressão do século XX: a Primeira Guerra, entre 1914 e 1918; a Revolução Russa, em 1917; a Crise de 29; o New Deal; a Segunda Guerra; a Revolução Chinesa; a reconstrução da Europa, o ciclo de desenvolvimento do após-guerra; a guerra do Vietnam; os movimentos de 1968; a descolonização da África; a crise do petróleo, o colapso da dívida do Terceiro Mundo e os ajustes ultraliberais de Ronald Reagan e Margareth Tatcher; a democratização da América Latina; a descoberta do DNA; a revolução do microprocessador e dos computadores pessoais; a revolução nas telecomunicações e a Internet; a queda do Muro de Berlim; a globalização; as crises financeiras globais; as mudanças na produção industrial; a aceleração do desenvolvimento científico e tecnológico. As pessoas, os agentes sociais, foram os autores dessas mudanças, para o bem e para o mal.
 
O século XXI, por esse raciocínio, teria, portanto, sua história determinada por fenômenos naturais - físicos e biológicos - associados à mudança climática global. Uma história marcada pela luta por desacelerar e diminuir a intensidade do aquecimento global - mitigação - e pelo esforço das sociedades, dos países, para conviver com seus efeitos inevitáveis - adaptação. Até onde a vista alcança, a ciência e a tecnologia não têm o poder de reverter esses processos de mudança climática, que derivam da dinâmica natural do clima e da ação humana. O planeta esfria e aquece, na longitude do espaço geológico, por mecanismos inteiramente naturais. Mas o que o consenso científico atual mostra é que esse processo está sendo dramaticamente acelerado pela ação humana, a ponto de ser retirado do plano de tempo geológico, que se mede em milhares de anos, para o plano de tempo social, que se mede em anos e décadas. Isso não quer dizer que estamos marchando para o apocalipse. O tremendo avanço científico e tecnológico dos últimos cem anos nos preparou para reverter não a mudança climática, mas a aceleração produzida pela ação humana, pelas emissões descontroladas de gases de efeito estufa.

Temos meios técnicos para minimizar os efeitos da ação humana, deixando a natureza seguir seu curso muito mais lento. E precisaremos de mais avanço científico e tecnológico, para a adaptação às mudanças inevitáveis. O maior desafio é sociopolítico: a mudança é global, mas as soluções são locais, dependem de cada país e de cada pessoa nesses países. Se os determinantes do futuro virão da natureza,o desafio climático só poderá ser enfrentado politicamente. As Nações terão que decidir mudar os padrões de produção e consumo, adotando padrões de baixo carbono, isto é, muito baixa emissão de gases de efeito estufa e uso sustentável dos recursos naturais. Até agora, os cidadãos em muitas delas não decidiram mudar e, por isso, os governos não se sentem pressionados a adotar políticas que acelerem a mudança econômica, energética e tecnológica necessária. As emissões têm aumentado em toda parte.

Um problema é que só se fala em  reduzir emissões pelo negativo, pelos sacrifícios. Mas é possível, especialmente para um  país como o Brasil, se converter em uma economia de baixo carbono  e, ao mesmo tempo, impulsionar seu desenvolvimento material e humano. Esse é o desafio. Ousar pensa um novo modelo e não perseguir um modelo de desenvolvimento que começou no Século XIX e se esgotou no Século XX.

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